Apesar da escassez de dados sobre a situação dos catadores no Brasil, uma rápida olhada nos lixões nas periferias das cidades grandes e nas ruas das cidades de interior chama a atenção pelo número de trabalhadores que cada vez mais sobrevivem da coleta de lixo.
Dados oficiais apontam que mais de 24 mil brasileiros vivem dentro de áreas reservadas ao destino final dos resíduos sólidos - aterros sanitários e controlados, ou em lixões. Deste total de trabalhadores, quase 8 mil vivem em lixões, como são conhecidas as áreas de disposição final, sem controle administrativo ou técnico, que correspondem a 30% das áreas de disposição no Brasil. São estes trabalhadores que de certa forma colaboram com a limpeza urbana, alimentando-se a partir dos resíduos do metabolismo urbano.
No Rio Grande do Sul, 114 municípios, ou cerca de 24% do total, admitem haver catadores morando em áreas deste tipo. Deste total de municípios no estado, cerca de 30% desenvolvem algum tipo de serviço social com estes trabalhadores (IBGE, 2002).
Os serviços de limpeza urbana existem em quase 100% das cidades brasileiras e empregam aproximadamente 320 mil pessoas, entre serviços públicos e/ou terceirizados (IBGE, 2002). Fontes não-oficiais citam que no Brasil existem entre 200 e 800 mil pessoas que, trabalhando na informalidade e, às vezes, na ilegalidade, contribuem com a limpeza urbana (GRIMBERG, 2002).
De maneira geral, as grandes cidades - com mais de 200 mil habitantes - são as que mais produzem resíduos e também as que têm planos de gerenciamento de resíduos mais qualificados, com sistemas de coleta domiciliar e seletiva bem estruturados. Nestas cidades, a coleta diária de resíduos varia em torno de 1 kg por habitante, ao passo que,
em cidades com população inferior a 200 mil, este número cai pela metade (IBGE, 2002).
Estudos demonstram que a produção de resíduos tem relação estreita com o nível de vida da população. Tanto a quantidade quanto a qualidade dos resíduos é diferente em função da variação deste nível. Em Porto Alegre, sabe-se que o resíduo dos bairros ricos é composto de muito material reciclável, ao passo que o resíduo dos bairros pobres tem maior proporção de matéria orgânica biodegradável. Soma-se a isto o fato de que o bairro rico produz um volume total bem maior de resíduos (REIS, 2002).
Os dados produzidos pela pesquisa realizada tendo como referência a microescala podem, com alguns ajustes, ser generalizados para todo Brasil e servir de insumo informacional para trabalhos que temos desenvolvido. O primeiro é utilizar unidades de setores censitários como base de dados socioeconômicos, ao invés dos bairros. Outro ajuste importante seria a correlação dos dados de renda e educação, por exemplo, com informação sobre saúde e saneamento, que poderiam formar um índice de qualidade de vida e de qualidade ambiental. O que temos por certo é que somente o critério de renda, normalmente utilizado nestas pesquisas, se não for correlacionado com outros indicadores, apresenta-se como insuficiente para retratar a complexidade dos processos socioeconômicos e ambientais associados à geração de resíduos.
Os planos de gerenciamento integrado de resíduos sólidos são ainda muito recentes, tanto no Brasil como no Rio Grande do Sul. Em ambas as escalas, estes planos necessitam de medidas regulatórias que venham a qualificá- los enquanto políticas públicas. Entretanto o que se percebe é que, embora o estado e sua capital estejam necessitando de maior investimento, é justamente nestas localidades aqui que a coleta seletiva tem mais força.
O Mapa 1 apresenta os municípios que possuem programas de coleta seletiva institucionalizada. Percebe-se a cidade de Porto Alegre e sua região metropolitana em posição destacada dentro do contexto nacional da coleta de materiais recicláveis. Apesar de recentes, as iniciativas neste sentido parecem ser de grande impacto, em face do que ocorre no restante do País.
MAPA 1 - Localização dos municípios com coleta seletiva formal.
Fonte: Atlas do Saneamento (IBGE, 2004)
É basicamente em função destas iniciativas de coleta seletiva domiciliar em microescala, que o estado, na meso escala, se apresenta com posição de destaque, como
se evidencia no Mapa 2. Este, apesar de diluir as informações através da representação coroplética, nos padrões da série “como enganar com mapas”, pode ser didaticamente útil justamente pelo que possui de mais repreensível que é o mascaramento (CÂMARA, 2000).
MAPA 2 - Número de domicílios atendidos com coleta seletiva de resíduos sólidos
LEGENDA
Fonte: IBGE, 2000.
Outras informações importantes sobre este quadro geral são as correlações que podem ser feitas entre a produção de resíduos nos grandes centros urbanos, geralmente localizados na faixa litorânea. Da população urbana no Brasil - 169,5 milhões - apenas 8 milhões de pessoas são abrangidas pela coleta seletiva. Isto é ainda mais grave pelo fato de que as cidades com mais de 200 mil hab. são as que mais geram resíduos totais - cerca de 800 a 1200g hab/dia (IBGE, 2002).
A Tabela 1 apresenta uma parte importante do banco de dados e colaborou para a formação do Mapa 2. No Brasil, a coleta seletiva a cargo do poder público abrange uma pequena parcela de municípios, apenas 8%, o que corresponde a somente 1% de todo o resíduo sólido que é coletado e pesado no País – é importante lembrar que nem todo resíduo que é coletado passa pelas balanças para ser pesado (IBGE, 2000).
TABELA 1 - Dados gerais sobre o serviço de coleta de resíduos sólidos
Serviço de coleta de resíduos sólidos
Número de municípios
Número de Residências Quantidade de Lixo Coletado Coleta
Seletiva
Coleta Seletiva
Coleta Seletiva Total
Total
%
Total
Total
estimado %
Total (t/dia)
Total (t/dia) % Brasil 5.507 451 8 44.795.101 2.680 6 228.413,0 4.290,0 1
Rio Grande do
Sul
467 138 29 3.042.039 383 27 7.468,3 597,0 8
Fonte: Extraído da Tabela 78 dos Indicadores de desenvolvimento sustentável (IBGE, 2000).
A Tabela 2 apresenta o número de agentes envolvidos na coleta seletiva, nas cinco regiões do Brasil. A Região Sul, que produz o terceiro maior volume de resíduos no País, é a que tem maior número de agentes envolvidos na coleta seletiva. Cabe destacar o fato de que existem 26 associações que participam na Região Sul, 15 destas
em Porto Alegre. Resta saber se a pesquisa considerou estas como parte da prefeitura ou como associações propriamente ditas.
TABELA 2 - Agentes envolvidos na coleta seletiva, nas cinco regiões do Brasil Agentes envolvidos em iniciativas de coleta seletiva, por Regiões
Regiões Prefeitura Associações ONG’s Empresas Igreja TOTAL
Norte 50 - 2 2 - 54
Nordeste 187 9 12 4 1 213
Sudeste 510 22 19 16 5 572
Sul 533 26 9 15 5 588
Centro-oeste 81 - 1 1 1 84
Fonte: Atlas do saneamento (IBGE, 2004)