2. Evolução Cultural em S S Glenn
2.4. Metacontingência
2.4.2 Metacontingência como seleção de contingências entrelaçadas de modo
2.4.3.2 Macro e metacontingências: diferentes processos seletivos
A segunda classe de relatos de eventos aos quais o conceito de metacontingência é aplicado, como destacado, envolve o efeito da consequência cultural sobre a probabilidade da recorrência da contingência entrelaçada. Ao estabelecer a distinção entre meta e macrocontingência Glenn parece estar sob controle desta forma de seleção.
A principal distinção estabelecida por Glenn entre a macro e a metacontingência é o fato de que na primeira não há entrelaçamento. Um exemplo em que Glenn esclarece as diferenças entre as unidades e processos na macro e metacontingência trata do estilo de corte de cabelo (linhas: 219, 220, 221, 222). Muitos cabeleireiros podem cortar o cabelo seguindo um mesmo estilo, e este comportamento similar pode caracterizá-lo como prática cultural. A autora argumenta, no entanto, que esta similaridade não implica que a prática seja uma unidade cultural. Ou seja, o comportamento de um cabeleireiro não precisa relacionar-se funcionalmente ao comportamento de outro cabeleireiro. Cada cabeleireiro, individualmente, poderia ter simplesmente aprendido ao longo do tempo a cortar o cabelo de determinadas formas
que agradavam seus clientes. Não obstante, os produtos resultantes (os cortes de cabelo) são esteticamente parecidos:
Neither the hairstyles nor the behavior of the hairdressers are functionally related to one another, even though the behavior of each hairdresser interrelates with the behavior of each of his or her patrons. In this case, the similar behavior of many individual constitutes a cultural practice, but there is no evidence of cultural transmission and, therefore, no cultural-behavioral lineage exists (linha: 221).
Contudo, a autora observa que poderia haver um ―ponto de transmissão cultural‖ que conectasse o comportamento de dois ou mais cabeleireiros. Por exemplo, o
cabeleireiro A poderia demonstrar a outros cabeleireiros sua forma de estilo de corte e os outros poderiam passar a cortar o cabelo da mesma forma. Outra possibilidade é que o cabeleireiro A demonstrasse seu estilo de corte em uma revista vista por outros cabeleireiros. Nestes casos, haveria transmissão. Glenn argumenta que o comportamento similar de indivíduos isolados, como abordado anteriormente quando os cabeleireiros comportavam-se isoladamente, é suficiente para considerá-lo como prática cultural. Todavia, isto não é suficiente para assumir transmissão cultural ou uma origem comum, como ocorre nos exemplos de interação entre os cabeleireiros aqui expostos – por meio de demonstração do corte ou publicação em revista.
No contexto apresentado (linha: 220), Glenn aborda distinções entre meta e macrocontingência, e a transmissão decorrente do comportamento social seria uma delas. Ainda que aqui a autora identifique a transmissão como parte do que é próprio da metacontingência, é difícil imaginar algum comportamento que não seja produto da transmissão cultural ou que não a promova – ao menos em culturas complexas. A primeira situação, em que não haveria transmissão, é rara, uma vez que estímulos
sociais fazem parte constante de nosso ambiente. Mesmo na situação hipotética na qual o cabeleireiro houvesse aprendido sozinho o corte de cabelo, o fato de os indivíduos frequentarem o salão para cortar o cabelo e os próprios instrumentos por ele utilizados pressupõem uma transmissão cultural anterior.
Da mesma forma que é difícil conceber um comportamento que não seja produto de transmissão cultural, é pouco provável que o comportamento de um indivíduo não afete a linhagem cultural da qual faz parte. Um exemplo que explicita esta dificuldade de imaginar um comportamento que não envolva transmissão cultural é oferecido por Glenn ao tratar de como o comportamento de um PhD em análise experimental do comportamento poderia não fazer parte das contingências entrelaçadas que compõem a Association for Behavior Analysis (ABA):
Further, the behavior of participants must enter into interlocking contingencies with the behavior of others if it is to contribute to the evolution of behavior analysis as a cultural entity. For example, imagine that Jodi Student obtained a PhD in the experimental analysis of behavior and promptly relocated to a space station circling the moon, where she continued doing experimental research with her experimental subjects. If Jodi does not report to discuss her results and methods with other behavior analysts, they cannot enter into the cultural entity known as behavior analysis (linha: 171).
A transmissão de práticas culturais, portanto, não parece ser exclusividade da metacontingência. Apesar de Glenn utilizá-la como característica específica da metacontingência nos exemplos da ABA e do estilo do corte de cabelo, como discutido em 2.1.2, a autora aponta que transmissão de práticas culturais também ocorre em práticas sem contingências entrelaçadas (e.g. linhas: 201, 115). Como exemplo, temos o relato de evento do comportamento de caça individual de Sam e Deke (linha: 201).
Antes da cooperação, embora Glenn pontue que o comportamento de caça foi aprendido ao observar membros mais experientes e transmitido entre gerações, não há entrelaçamento ou metacontingência. Portanto, mesmo que seja possível dizer que há entrelaçamento no momento da transmissão o comportamento é mantido por contingências individuais.
Assim como relatos de eventos podem envolver transmissão sem ser classificados como metacontingência, relatos de metacontingência podem não envolver transmissão. O experimento de metacontingência apresentado em 2.4.2 é considerado uma metacontingência ainda que não envolva transmissão operante, mas indivíduos respondendo a um ambiente comum.
Outro aspecto que parece distinguir a metacontingência é o fato de que as contingências entrelaçadas são mais duradouras do que os operantes emitidos pelos indivíduos que a compõem: ―These interlocking behavioral contingencies (...) outlive
the repertoires of any of their participating organisms so long as they function adequately in the cultural selection contingencies‖. (linha: 207). Por transcender a vida
de indivíduos a contingência entrelaçada originaria uma unidade passível de seleção cultural: ―Cultural content originates when behavioral repertoires of two or more
individuals form an enduring unit that has the possibility of lasting beyond the lifetime of those individuals. Evolutionary processes occurring at the cultural level of analysis account for cultural practices that extend across generations‖ (linha: 139).
No entanto, assim como as contingências entrelaçadas, práticas culturais que não envolvem entrelaçamento também são replicadas entre gerações e, neste sentido, transcendem a vida dos indivíduos que a praticam. Ainda, de modo oposto, nem todas as metacontingências envolvem replicação entre gerações e duração para além da vida
dos indivíduos que a compõem. O experimento com metacontingências mencionado em 4.2 ilustra também este ponto.
Portanto, a transmissão e a produção de uma unidade mais duradoura do que a vida de organismos individuais não são exclusividade da metacontingência. O que há de diferente e que confere especificidade à metacontingência é a presença do entrelaçamento, com um produto agregado e uma consequência que retroage sobre a probabilidade futura da repetição do entrelaçamento - dito de outro modo, a seleção do comportamento cooperativo de indivíduos. As características observadas especificamente nos fenômenos descritos sob o conceito de metacontingência, por conseguinte, são: (1) operantes entrelaçados de indivíduos, (2) que geram um produto agregado, e (3) que são selecionados (operantes entrelaçados) por uma consequência cultural - que pode ou não ser o próprio produto agregado.