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Macro e micro nos limites da crítica da tecnologia de Feenberg

A CRÍTICA DA TECNOLOGIA NO PENSAMENTO DE FEENBERG

3.5 Macro e micro nos limites da crítica da tecnologia de Feenberg

No tópico anterior, mostrou-se que Feenberg busca suporte nos Estudos Sociais da Ciência para superar a perspectiva posta por Marcuse e Habermas. Tal situação coloca a crítica da tecnologia, conforme ele formula, no centro do debate sobre o tipo de relação que se deve estabelecer entre o que, comumente, se denomina de micro e macro. Com efeito, os Estudos Sociais da Ciência, exemplificados nos trabalhos de Latour, enfatizam projetos específicos como capazes de dar suporte a uma crítica da tecnologia; ora, isso parece entrar em confronto com uma geração de pensadores que advogam uma essência ao fenômeno tecnológico. Portanto, Feenberg, ao tentar conciliar tal problema, insere na estrutura de sua teoria crítica da tecnologia o próprio debate, também epistemológico, sobre a relação micro e macro, seja no domínio prático, seja no teórico. Neste tópico, o objetivo é identificar em que medida o autor soluciona esse possível conflito.

O próprio Feenberg reconhece tal perigo em seu texto Technology and meaning5 (2001), cuja análise aparecerá na seqüência; esse texto pode trazer alguns elementos teóricos para uma melhor compreensão do debate mencionado.

Escreve Feenberg (2001, p. 183):

5

O que Heidegger chamou de ‘A questão da tecnologia’ ocupa hoje um

status especial na academia. Após a II Guerra Mundial, as humanidades

e as ciências sociais foram tomadas por uma onda de determinismo tecnológico. Se não fosse louvada por modernizar-nos, cabia-lhe a culpa pela crise da cultura. Quer interpretado em termos otimistas quer em termos pessimistas, o determinismo parecia oferecer uma descrição fundamental da modernidade como fenômeno unificado.

Para Feenberg, essa visão tem sido abandonada por causa de uma abordagem que acredita em forte variação cultural na recepção e apropriação da modernidade. Ocorre que, embora tenha o mérito de colocar em visibilidade as teorias específicas, as “velhas questões” parecem ter sido abandonadas; ou seja, as tecnologias específicas deixam de fazer parte de uma problemática tecnológica mais geral. A tecnologia, agora, objeto da pesquisa específica, torna-se destituída de conotação filosófica (FEENBERG, 2001). Para o autor, esta é, provavelmente, uma das causas que permitem aos pesquisadores da tecnologia sentirem-se seguros ao abandonar a pesquisa filosófica; por isso, não é sem razão que a pesquisa sobre a tecnologia ocupe cada vez menos espaço na pesquisa em ciências sociais.

Feenberg esforça-se por resolver o problema, pois acredita que é possível conciliar, em um modelo dialógico, as perspectivas macro e micro no debate que envolve a tecnologia. Ele encontra embasamento nos Estudos Sociais da Ciência, quando estes enfatizam que a racionalidade não é um fenômeno transcultural- ahistórico, um valor universal que se impõe ao todo social; ele, porém, pensa que essa posição deve ser suficiente para fazer avançar o debate e ser aliada a conceitos “totalizantes” como “modernização”, “racionalização” e “reificação”. Para Feenberg, ao se retirar esses conceitos do nosso universo reflexivo, o processo histórico dos últimos cem anos perde sentido. Aliás, a própria distinção entre sociedades modernas e pré-modernas tem o seu cerne na idéia de racionalidade que, agora, os Estudos Sociais da Ciência querem dispensar. Daí a questão que Feenberg coloca para o debate: há como escapar a este dilema? É possível pensar estes dois conceitos dialeticamente, de modo que um se compreende em virtude do outro, e vice-versa?

Para enfrentar esse problema e fazer o debate avançar, Feenberg busca apoio em Heidegger, Habermas e em Albert Borgmann; propõe-se a fazer uma crítica da ação técnica nesses autores. Mesmo reconhecendo a existência de diferenças significativas entre eles, para Feenberg esses pensadores descrevem a modernidade como um fenômeno unitário, caracterizado por uma forma única de ação e pensamentos técnicos que invade cada vez mais os fenômenos e valores não-tecnológicos, ao estender-se cada vez mais profundamente na vida social. O fato é que para essas teorias o “fenômeno técnico” tornou-se a característica central de todas as sociedades modernas, independente de sua ideologia política. Nessa perspectiva, o espaço para modificação e construção de uma sociedade diferente é nulo. É assim que Feenberg espera conservar o que há de melhor nesses críticos deterministas da modernidade: a incorporação dos temas técnicos à filosofia, ao mesmo tempo em que aponta para uma teoria que permite a crítica e reconstrução desta sociedade, racionalidade e modernidade, a teoria crítica da tecnologia.

O primeiro passo de Feenberg é apresentar a leitura que faz das posições de Heidegger e Habermas, conforme procura-se mostrar. “Heidegger é indiscutivelmente o filósofo da tecnologia mais influente neste século” (FEENBERG, 2001, p. 183).

Para Feenberg, a posição de Heidegger acerca da tecnologia é de que ela invade a existência humana de um modo alarmante; os seres humanos tornam-se, no universo tecnológico, matérias primas para os processos técnicos. “Estamos envolvidos na transformação do mundo todo, o que inclui a nós mesmos, como ‘reservas permanentes’, matéria prima mobilizada nos processos técnicos” (FEENBERG, 2001, p. 183/184). Para Feenberg, a análise do conceito de tecnologia em Heidegger mostra que, para este, a essência da técnica é o planejamento metódico do futuro, o qual opera num mundo recortado conceitualmente já nos primeiros tempos do exercício da força humana; é uma instrumentalização universal que destrói a tudo que existe. Deixando a linguagem ontológica ao lado, Feenberg esforça-se por escrever em poucas palavras a posição de Heidegger: “[...] tecnologia constitui um novo tipo de sistema cultural

que reestrutura todo o mundo social como um objeto de controle” (FEENBERG, 2001, p. 185).

Na sua análise, Feenberg argumenta que o sistema cultural referido é caracterizado por uma lógica expansiva que invade todos os locais não- tecnológicos, e modela o todo da vida social; nesse sistema, que a tudo invade, a saída é abandoná-lo; nenhuma chance há para modificá-lo: “este sistema caracteriza-se por uma dinâmica expansiva que invade cada enclave pré- tecnológico e modela a totalidade da vida social. A instrumentalização do homem e da sociedade é, assim, um destino do qual a única saída é bater-se em retirada” (FEENBERG, 2003a, p. 4).

Para Feenberg, Heidegger encontra certo eco para suas críticas nos atuais perigos postos pelo desenvolvimento tecnológico para o mundo moderno. Argumenta, ainda, que a posição de Heidegger é válida quando enfatiza que a moderna tecnologia é mais destruidora do que qualquer outra. Feenberg também concorda com a posição de Heidegger de que a tecnologia não é neutra, está carregada de valores, e as escolhas técnicas dos seres humanos têm mais significado e efeitos do que aparentemente se pensa. “A crítica da ‘autonomia da tecnologia’ de Heidegger é assim detentora de algum mérito” (FEENBERG, 2001, p. 186). Para Feenberg, a teoria substantiva de Heidegger procura alertar sobre os perigos da sociedade tecnológica, e isso é válido; não quer com isso dizer que as máquinas são más, mas que, ao escolher utilizá-las, está-se também a fazer outras escolhas que podem ser bem indesejadas.

No entanto, há alguns problemas com a abordagem de Heidegger sobre a tecnologia. “Existem significativas ambigüidades na abordagem de Heidegger” (FEENBERG, 2001, p. 186). Para Feenberg, Heidegger avisa sobre o fato de que a essência da tecnologia não é tecnológica e ela só pode ser entendida pelo envolvimento humano com o mundo tecnológico. “Mas tal envolvimento é apenas uma atitude ou se infiltra no desígnio real dos recursos tecnológicos modernos?” (FEENBERG, 2001, p. 186). Para Feenberg, essa ambigüidade anuncia possíveis problemas na posição de Heidegger, embora o autor não os apresente neste momento.

Semelhante ao que ocorre com Heidegger, Feenberg efetua uma leitura bem peculiar de Habermas, como se verá a seguir; saliente-se que o próprio Feenberg reconhece que talvez pareça estranho discutir Habermas e Heidegger no mesmo trabalho e, em especial, tendo em vista um estudo comparativo sobre o conceito de tecnologia. Ocorre que, para Feenberg, embora Habermas não tenha escrito nada sobre o conceito de tecnologia, diretamente, nos últimos 25 anos, seu projeto mais geral, projeto teórico global, está enraizado numa crítica do tipo de ação característica da tecnologia.

Feenberg considera o pensamento de Habermas sobre a tecnologia como algo gestado na preocupação inicial de crítica da razão positivista e de sua realização numa sociedade tecnocrática, e encontra no texto Técnica e Ciência como Ideologia (1987) um ponto de partida adequado ao debate. É esse aspecto mais geral que permite a Feenberg justificar a sua comparação entre os pensamentos de Heidegger e Habermas sobre o conceito de tecnologia.

Para Feenberg, Habermas oferece uma teoria de essência trans-histórica do agir técnico em geral. Conforme Feenberg, em princípio, Habermas argumenta que “trabalho” e “interação”, cada qual, tem uma lógica específica, e a do “trabalho orienta-se ao sucesso”, ou seja, é uma forma de “agir racional com respeito a fins”, com o objetivo do mundo; a da “interação” envolve comunicação entre sujeitos na busca da compreensão comum. Assim, a tendência tecnocrática das sociedades modernas é fruto do desequilíbrio entre esses dois tipos de agir.

Para Feenberg, Habermas reformula a abordagem inicial de Técnica e Ciência como Ideologia (1987) no seu A teoria da Ação Comunicativa, em especial, e, de um modo geral, nas suas últimas obras. Formula a Teoria dos meios que explica a emergência de “subsistemas” diferenciados, com base em formas racionais de cálculo e controle, por exemplo, comércio, direito e administração.

Para Feenberg, Habermas faz uma distinção entre sistemas, instituições racionais orientadas ao meio, e o mundo da vida, esfera das interações comunicativas cotidianas. O problema central das sociedades modernas é a colonização do mundo da vida pelo mundo do sistema. O que quer dizer, para

Feenberg, a imposição da lógica do sistema ao mundo da vida, ou seja, “tecnificação do mundo da vida”. Feenberg, nesse sentido, questiona o fato de que Habermas não menciona, nas últimas obras, a própria tecnologia, o que corresponde a um equívoco, uma vez que a própria tecnologia está implicada, para Feenberg, em muitos dos problemas de nossa sociedade moderna.

Feenberg argumenta que a não inserção da tecnologia como tema prioritário na teoria de Habermas remete a um problema mais significativo dessa teoria. Feenberg, então, explica como visualiza esse problema.

Para ele, Habermas afirma que a distinção entre mundo da vida e mundo do sistema não é real, mas apenas analítica, não existindo instituição que exemplifique na sua forma pura qualquer um desses mundos. Mesmo que se diferencie os tipos de coordenação de ações (orientadas/comunicativas), características de cada meio, na vida real elas combinam-se sempre. Para Feenberg, isso quer dizer que o sistema apenas se refere a instituições reais (mercados, estados), em que as interações orientadas pelos meios predominam, da mesma forma em que o mundo da vida refere-se a instituições reais (família, por exemplo), em que predomina a comunicação.

Ora, para Feenberg, Habermas evita uma identificação direta entre sistema, mundo da vida e as instituições reais, mas na prática tende-se à identificação. Assim, conforme Feenberg, o Estado e a família acabam identificando, sucessivamente, o mundo do sistema e o mundo da vida. Ora, como a tecnologia não pode ser separada numa esfera específica, tal como a Família ou o Estado, Habermas acaba por desconsiderar o fenômeno tecnológico.

Com essa apresentação da posição de Habermas sobre a tecnologia, ou, pelo menos, como a tecnologia pode ser inserida no seu pensamento, Feenberg encontra os subsídios para um estudo comparativo com Heidegger. Como se observará, a comparação que Feenberg efetua permitirá encontrar, além de aspectos complementares, um problema comum, qual seja, ambos argumentam que as sociedades modernas e pré-modernas se distinguem por graus de sucessiva diferenciação de domínios que estavam unidos nas antigas formas culturais. Feenberg também argumenta que ambos, embora possam dar a base

para uma poderosa teoria da tecnologia, desenvolveram suas contribuições de forma ahistórica.

Para Feenberg, em Heidegger e Habermas, a modernidade está implicada em um conceito abstrato de essência da ação técnica. Ora, é aqui, então, que Feenberg encontra a base para classificar as posições de Habermas e Heidegger como “essencialistas”, o que significa atribuir a um fenômeno especificamente cultural, um conceitual trans-histórico. Feenberg reconhece que sistemas e racionalidades de ação técnica podem ter algo em comum que os diferenciem de outros fenômenos, mas isto é diferente de extrair toda uma teoria da história, como o pretendem tais pensadores.

Feenberg argumenta que o elemento da periodização moderna e pré- moderna demonstra de forma exemplar esses problemas em Habermas e Heidegger, quer dizer: como fixar o fluxo histórico numa essência singular? Feenberg observa duas estratégias que são as utilizadas por Heidegger e Habermas: primeiro, negar continuidade e fazer da tecnologia um fenômeno único (Heidegger) ou, segundo, distinguir na história da ação técnica os estágios iniciais dos posteriores (a posição de Habermas).

Nesse sentido, Feenberg compreende que Heidegger defende a tecnologia moderna como essencialmente diferente do outro modelo de ação técnica existente, o pré-moderno. Para Feenberg, a modernidade constitui, em Heidegger, uma ruptura ontológica, e não uma mudança social contínua. Assim, a tecnologia, distante de ser fenômeno contingente, é um estágio da própria história do Ser. Para Feenberg, talvez seja essa a razão para Heidegger não abrir espaço para modificação futura na forma tecnológica, que permanece essencialmente inalterada na história. Estaria aí, para Feenberg, o caráter essencializante da teoria de Heidegger.

Já para Habermas, conforme Feenberg, a modernidade revela a atividade humana numa forma mais pura. Conforme análise de Feenberg sobre Habermas, nas sociedades pré-modernas, os vários tipos de ação estão entrelaçados, sem distinção clara entre considerações técnicas, estéticas e éticas. Contudo, continua Feenberg, nas sociedades modernas, a verdade da ação técnica está acessível,

seja do ponto de vista prático, seja teórico. É assim que, para Feenberg, Habermas continua a instrumentalidade, atribuindo a ela um tipo de neutralidade, e, nesse sentido, a natureza culturalmente variável do objetivo técnico não é um assunto merecedor de tanta consideração. Para Feenberg, a posição de Habermas apresenta uma concepção a-histórica da racionalidade técnica, levando a identificar a diferença básica entre formas culturalmente distintas de tecnologia.

Alguns dos argumentos e conclusões construídos no estudo comparativo entre Habermas e Heidegger, e que se apresentou antes, são “testados” por Feenberg no trabalho de Albert Borgmann, considerado o representante estadunidense da filosofia da tecnologia numa perspectiva “essencialista”. Como escreve Feenberg (2001, p. 187): “tento experimentar esta abordagem utilizando uma avaliação de alguns argumentos-chave da obra de Albert Borgmann, com muita razão considerado o representante estadunidense mais destacado no campo da filosofia da tecnologia de linha essencialista”.

Como se viu, a análise de Feenberg descreve Habermas e Heidegger como essencialistas e apresenta suas teorias como incapazes de fornecerem a base para a reconstrução social, mesmo que possam fornecer elementos teóricos significativos para uma teoria da tecnologia. Para Feenberg, Heidegger e Habermas argumentam que a reestruturação da realidade social pela ação técnica nos tempos atuais é incompatível com uma vida plena de significados. Como aponta Feenberg, a relação com o Ser de Heidegger e o processo habermasiano de obter a compreensão não se conciliam com a super-extensão do pensamento tecnológico e da racionalidade sistêmica.

Para Feenberg, a crítica social de Borgmann tem por base uma teoria da essência da tecnologia. “O que Borgmann chama de ‘paradigma do invento’ é o princípio formativo de uma sociedade tecnológica que mira acima de tudo na eficiência” (FEENBERG, 2001, p. 187). De acordo com o “paradigma do invento”, a tecnologia moderna separa o bem, ou a mercadoria que distribui, dos contextos e meios de distribuição. Feenberg dá um exemplo: a comida feita no microondas emerge sem esforços, em contraste com as operações laboriosas da cozinha tradicional que servia às necessidades da família. Para Feenberg, esse paradigma