4. COMPORTAMENTO CRIMINAL E MACROCAUSAS DE CVLIS
4.1 Macrocausas
Em relação ao tópico anterior, as macrocausas corroboram a questão fundamental de que os CVLIs praticados no RN, em boa parte, estão ligados à um sistema retroalimentador de execuções sumárias e crimes de vingança. Interligados pela dinâmica da operatividade da criminalidade que se liga ao tráfico de entorpecentes e seus “combates” e, ao mesmo tempo, a inoperância elucidativa dos crimes de morte, que fazem com que o elemento “impunidade”, no fenômeno em questão, seja uma “macrocausa oculta”.
Na Tabela 24 percebemos que os crimes de encomenda lideram as macrocausas primárias da violência, que são aquelas causas baseadas nas características do crime, com algumas vinculações, quando possível, à persecução penal. Evidentemente que embutidos na macrocausa crimes de encomenda podem existir alguma outra, mas o importante é que a metodologia trata de resultados primários e não definitivos.
Tabela 24 – Comparação de CVLIs por macrocausas primárias da violência.
2011 2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 Total Variação Percentual
Crimes De Encomenda 881 781 1.102 1.194 775 855 1.072 843 7.503 -4,3% 54,4% Violencia Interpessoal 177 357 331 263 284 557 786 694 3.449 292,1% 25,0% Conflito Policia X Criminalidade 35 38 44 86 87 85 150 160 685 357,1% 5,0% Violencia Patrimonial 5 28 77 67 79 87 86 88 517 1660,0% 3,7%
Acao Do Trafico 0 0 45 23 117 116 107 51 459 NA 3,3%
Violencia Social 0 0 1 15 92 144 45 18 315 NA 2,3%
Rixa De Gangues 0 0 27 25 68 54 60 41 275 NA 2,0%
Violencia Domestica 1 9 23 50 35 43 45 32 238 3100,0% 1,7%
Ausencia De Controle Prisional 0 6 6 8 89 33 39 12 193 NA 1,4%
Violencia Colateral 0 5 7 16 21 17 18 17 101 NA 0,7%
Nao Confirmada 0 0 1 19 15 4 0 0 39 NA 0,3%
Violencia Sexual 0 0 1 6 8 1 0 0 16 NA 0,1%
Total Geral 1.099 1.224 1.665 1.772 1.670 1.996 2.408 1.956 13.790 78,0% 100,0%
Período de 1 de janeiro de 2011 a 31 de dezembro de 2018
Fontes consolidadas via Sistema Metadados: ITEP; DATASUS; SISOBI; CIOSP e MPE
Condutas Violentas Letais Intencionais
OBVIOOBSERVATÓRIO DA VIOLÊNCIA DO RIO GRANDE DO NORTE
Números absolutos Percentuais
Macrocausas Primárias Da Violência
Fonte: autoria própria.
Os “crimes de encomenda” perfazem mais da metade dos CVLIs, demonstrado pelo modus operandi do processo, tipo de arma utilizada e forma da execução. Ao mesmo tempo, longe de apenas atribuir a nossa violência homicida ao “tráfico” e às “facções”, é significativo mostrar que um terço do total de CVLIs está ligado à “violência interpessoal”, e os demais 20% a outras formas de violência que, como mostra a Tabela e o Gráfico 24, tiveram um aumento gigantesco: violência homicida decorrente do sistema prisional, decorrente da violência doméstica e patrimonial.
Em termos de macrocausas, importa apontar que em geral, são considerados seis indicadores no Brasil, sendo eles: indicador de taxa de efetivo policial (por 100 mil habitantes); taxa de encarceramento; taxa de efetivo da segurança privada; indicador da taxa de consumo de drogas ilícitas; indicador da taxa de consumo de bebidas alcoólicas; e indicador da prevalência de armas de fogo.
Como mostrou Cerqueira,
(...) em primeiro lugar, o aumento da violência letal na década de 1980, que foi marcada por grandes mazelas socioeconômicas, refletidas na estagnação da renda e no aumento paulatino da desigualdade social. Nesse período, a despeito do aumento do efetivo policial, observou-se uma deterioração no sistema de justiça criminal, caracterizada pela paulatina diminuição proporcional nas condenações de homicidas. (...) o aumento na demanda por armas de fogo e por drogas ilícitas ocorreu pari passu com o crescimento dos homicídios na virada da década e durante os anos 1990, momento em que a indústria de segurança privada prosperou. (...) reversão do quadro de piora da violência letal que se deu após a virada do século. A partir de 2000, os governos federal e municipais começaram a atuar mais decisivamente nas questões de segurança pública. Além da mudança na ênfase da política pública, as condições socioeconômicas melhoraram ao mesmo tempo em que se observou uma diminuição relativa da coorte dos jovens na população. Nesse período, houve ainda um aumento na taxa de crescimento do encarceramento e das condenações a penas alternativas. Por fim, para completar o cenário favorável, se conseguiu proceder a um relativo controle na difusão das armas de fogo. O grande problema observado neste último período refere-se ao crescimento do mercado de drogas psicoativas ilícitas. Ainda assim, após 11 anos consecutivos de aumento, a taxa de homicídios começou a retroceder (2014, p. 23-24).
O Gráfico 24 visualmente alerta para os crimes de encomenda e a violência interpessoal como principais nuances das macrocausas primárias da violência letal intencional.
Gráfico 24 – Variação de CVLIs por macrocausas primárias da violência.
Fonte: autoria própria.
Assim, nas duas últimas décadas, enquanto o aumento da renda e a leve diminuição na desigualdade podem ter contribuído para uma pequena melhoria nas condições de segurança pública, o aumento proporcional da população de homens jovens atuou no sentido contrário. Por outro lado, dois fatores podem ter influenciado a violência letal nessa fase: a proliferação das armas de fogo e, em menor medida, o aumento da taxa de encarceramento observada. Claramente, essa interpretação deve ser relativizada, tendo em vista os problemas de causalidade reversa presentes.
A violência letal representa uma tragédia para o Brasil e para o RN, notadamente nas últimas três décadas. Mesmo assim, ainda hoje muito pouco se sabe para compor um quadro que permita a compreensão dos fatores que impulsionaram a sua dinâmica regular e sistemática.
A ausência dos indicadores mais básicos – como: efetivo policial; padrão de detenções; aprisionamento e condenações por tipo de delito; taxas de subnotificação e taxas de atrito no sistema de justiça criminal – é em si um bom indicador do real interesse por esse tema pelas autoridades e da qualidade da política pública (CERQUEIRA, 2014, p. 73-74).
Dentre as macrocausas mais significativas, temos a questão do efetivo policial, as taxas de encarceramento e a situação do sistema prisional, a prevalência de armas de fogo como elementos absolutos nos atos homicidas, a questão do tráfico de drogas ilícitas e a ingestão de bebidas alcoólicas, entre outros.
Novamente, consoante com Cerqueira,
Vimos como as adversidades e tensões sociais da década perdida possivelmente foram os elementos que impulsionaram o esgarçamento da segurança pública, fazendo aumentar a impunidade, com impacto sobre os incentivos ao crime, ainda que sejam levados em conta o aumento da taxa de encarceramento observada no início da década e a diminuição de homens jovens na população, que atuaram em sentido contrário. Já na segunda metade dos anos 1980, verificamos o aumento na prevalência de armas e drogas que, potencialmente, impulsionou o crescimento substantivo dos homicídios na virada da década e a dinâmica dos homicídios no período seguinte. Nos anos 1990, por outro lado, os fatores socioeconômicos e demográficos tiveram importância diminuta, num período em que, aparentemente, a dinâmica da letalidade foi influenciada por uma verdadeira corrida armamentista, não contida nem pelo expressivo aumento das taxas de encarceramento, nem pela busca por proteção privada (2014, p. 75).
Enquanto a segurança privada foi se tornando acessível para os mais abastados, isso terminou por aumentar a probabilidade de predação da propriedade dos mais pobres. Hoje, mais do que nunca, a capacidade do governo de prover segurança pública eficaz é relativamente baixa e limitada.
Enquanto os estados tradicionalmente mais violentos – caso de São Paulo – conseguiram diminuir suas taxas de CVLIs, verificamos que estados outrora mais calmos, como o Rio Grande do Norte (entre outros do Nordeste, por exemplo) passaram a sofrer um expressivo aumento da violência homicida.