4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 Análises físicas
4.1.1 Macroporosidade, Microporosidade, Porosidade total e Densidade do solo
Os valores de porosidade e densidade são parâmetros que possibilitam inferir relações ar- água, o estado de compactação do solo e as perspectivas de expansão radicular, de grande utilidade para planos de manejo.
Como demonstra a Tabela 4.3, a macroporosidade mais elevada foi encontrada na vegetação nativa (cerrado), seguindo-se a área cujo tratamento foi a do substrato degradado cultivado com eucalipto e no qual se aplicou lodo de esgoto, indicando um restabelecimento pelo menos incipiente das condições estruturais devido à adição de material orgânico, a despeito do curto período desta prática (um ano). Jorge et al. (1991) também observaram aumento na macroporosidade de um Latossolo Vermelho distrófico argiloso com emprego de 40 ou 80 t.ha-1
de lodo de esgoto, numa única aplicação.
Tabela 4.3. Valores médios de macroporosidade, microporosidade, porosidade total e densidade do solo, em função dos tratamentos na profundidade de 0-0,5 m.
C.V. – Coeficiente de variação. Médias, seguidas de mesma letra na coluna, não diferem estatisticamente entre si, no nível de 5% de probabilidade pelo teste de Tukey.
Tratamentos Macroporosidade Microporosidade Porosidade Total Densidade do solo
m3.m-3 m3.m-3 m3.m-3 Mg.m-3
Substrato degradado 0,12 a 0,24 a 0,36 a 1,92 a
Substrato
degradado+lodo+eucalipto 0,23 b 0,25 a 0,48 b 1,61 b
Solo com capoeira 0,17 ac 0,27 a 0,44 b 1,65 b
Solo com pastagem 0,19 bc 0,25 a 0,43 b 1,68 b
Solo com cerrado 0,34 d 0,23 a 0,57 c 1,16 c
O valor crítico do volume de macroporos que proporciona um bom desenvolvimento vegetativo é de 0,10 m3.m-3, segundo Baver (1972) e Greenland (1965). É interessante observar
como variam os valores da macroporosidade no substrato degradado (0,12 m3.m-3), que se
enquadra no nível crítico mencionado, e a melhoria com a aplicação de lodo no substrato cultivado com eucalipto (0,23 m3.m-3), comprovando a eficácia desse material no
restabelecimento de propriedades físicas do solo.
Os solos com pastagem e o com capoeira ainda refletem os efeitos da compactação do solo degradado, com valores de 0,19 e 0,17 m3.m-3 respectivamente; embora a vegetação de
gramíneas favoreça a porosidade, de acordo com Boni et al.(1995), o pisoteio do gado é um fator que também contribui para a compactação (COURTNEY & TRUDGILL, 1984). O tratamento com substrato degradado, por seu alto grau de adensamento, apresentou o menor valor de macroporosidade (0,12 m3.m-3), de modo semelhante ao obtido por Alves (2001) nessa mesma
área (0,10 m3.m-3).
A microporosidade mostrou valores variando de 0,23 a 0,27 m3.m-3, não tendo ocorrido
distinção estatística entre os tratamentos. Não se encontrou, assim, a esperada diminuição da microporosidade com a magnitude dos esforços praticados em superfície (incorporação de lodo de esgoto), mesmo no solo com vegetação de cerrado, de textura um tanto mais grosseira e com maior aporte de material orgânico.
Para a porosidade total, o solo sob cerrado, com cobertura vegetal mais densa, apresentou o maior valor para esse parâmetro: 0,57 m3.m-3, a despeito de sua granulometria um pouco mais
grosseira. Pode ocorrer que certa quantidade mais elevada de areia possa ter resultado também num arranjamento mais espaçado das partículas, dando origem a agregados mais porosos. A condição de porosidade do solo é muito importante para avaliação de outros parâmetro (GROHMANN, 1972), merecendo atenção especial no confronto entre práticas de manejo distintas.
Os tratamentos substrato degradado+lodo+eucalipto (0,48 m3.m-3), solo com capoeira
(0,44 m3.m-3) e solo com pastagem (0,43 m3.m-3) apresentaram valores próximos, não diferentes
estatisticamente. A área mantida como substrato degradado destacou-se por possuir o menor índice de porosidade total, com 0,36 m3.m-3, muito distante portanto do valor ideal de porosidade
Devido ao fato de a densidade ser inversamente proporcional à porosidade, a área com substrato degradado foi a que apresentou o maior valor para densidade dentre os tratamentos (1,92 Mg.m-3), em razão da retirada de espessa camada de solo seguida de compactação. No
substrato degradado cultivado com eucalipto e em que se aplicou lodo, ocorreu diminuição de sua densidade (1,61 Mg.m-3) e, conseqüentemente, aumento da macroporosidade, de modo
semelhante ao observado por Colodro (2005); no entanto, como bem ponderou esse pesquisador, há que se considerar que tal redução pode ter-se dado também em decorrência do efeito mecânico do preparo do solo com a enxada rotativa, somada à ação do resíduo. Em um Latossolo Vermelho com aplicação de lodo de esgoto, Jorge et al. (1991) também obtiveram diminuição da densidade, explicada pela influência do material orgânico, que promoveu agregação, aumentando o volume e diminuindo a densidade. É possível que a continuidade de aplicação de lodo venha a promover mais diminuição da densidade ao longo do tempo (COLODRO, 2005).
Na mesma área degradada do presente estudo, Grego (1996) observou melhoria nos valores de densidade com o plantio de leguminosas, o que contribuiu para trazer o valor de 1,91 Mg.m-3 para 1,60 Mg.m-3.
Exceção feita ao tratamento que sofreu mais intensa degradação (substrato degradado), o solo com pastagem foi o que apresentou o maior valor de densidade, com 1,68 Mg.m-3, o que
confirma a ação de pisoteio do gado. A densidade da parcela com vegetação regenerada com capoeira (1,65 Mg.m-3) foi ligeiramente inferior à do tratamento com pastagem. Trabalhando na
mesma área experimental deste trabalho, Souza (2000) encontrou alta densidade no solo com pastagem, em comparação com a de cerrado, que foram, respectivamente, 1,54 Mg.m-3 e
1,23 Mg.m-3.
O menor valor de densidade, dentre os tratamentos estudados, foi encontrado na área de vegetação natural (cerrado), com 1,16 Mg.m-3; além das condições naturais (sem manejo), esta
área revelou alta atividade microbiológica, com constante fornecimento de material orgânico em decomposição, proporcionando-lhe uma estrutura granular e porosa, livre de práticas de mobilização, como já haviam atestado os valores elevados de macroporosidade. Tais resultados assemelharam-se aos de Alvarenga et al. (1999), Longo et al. (1999) e Oliveira et al. (2004), que estudaram as influências de diferentes sistemas de manejo em atributos físicos do solo, observando baixos valores de densidade e alta macroporosidade para o sistema cerrado. Desse
modo, a área de cerrado realmente funcionou como uma testemunha das condições do solo natural, em relação aos demais manejos praticados.
Nesses atributos analisados, o maior coeficiente de variação encontrado na comparação entre os tratamentos foi o da macroporosidade, com 52,10 %, revelando a heterogeneidade própria dos diferentes usos do solo. Numa análise por tratamento, a microporosidade apresentou maior coeficiente de variação no solo sob cerrado, com 98,28 % (Anexo 1); essa diferença pode ser explicada por variações existentes em suas condições fitoclimáticas, pois apresenta densa cobertura vegetal, que promove uma constante deposição de material orgânico e uma atividade biológica intensa.