O. M. [Olívio Montenegro]. Livros novos /
Macunaíma – Romance – Mário de Andrade – S. Paulo – 1928. Periódico não identificado, [Recife1], s/d. [IEB-USP / MA- MP].
Dá-se, às vezes, com certos livros o que se dá também com certas pessoas: a gente os antipatiza à distância. Basta nesses casos o simples título do livro, e não se sabe como, está a antipatia feita – uma antipatia involuntária mas de uma convicção irresistível.
Com Macunaíma, o romance do sr. Mário de Andrade, senti assim. Um não sei quê2 de artificial e postiço que se vinha refletir no título, e com que eu não simpatizaria nunca. Qualquer coisa que poderia ser muito nova, muito audaciosa, e muito fina mas que parecia gritar demais tudo isso mesmo, para ser sincera. A preocupação de brasileirismo vem que vem faiscando no título.
Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Podia-se ler também “Macunaíma, romance moderno! Tudo o que há de mais novo e mais chic!”
A leitura do romance não fez senão me fortificar nesta impressão, e o que é mais – apesar da muita e boa nota lírica, dos vivos até bem vivos de poesia que enchem de um tão claro ritmo, e uma tão plástica animação certas cenas do livro, principalmente aquela dos amores de Macunaíma e de Ci Mãe-do-Mato.
Aliás, cabe notar, a concepção do romance do sr. Mário de Andrade é de uma fantasia esplêndida, com um sentimento do nosso instinto ancestral, e uma verossimilhança de gênio brasileiro nas suas raízes mais secretas, que é um encanto senti-los em certas páginas do livro, e ainda um maior encanto repassá- los depois em nós mesmos. O sr. Mário de Andrade não poderia dar com melhores motivos para um romance – toda essa matéria estranhamente plástica de que é capaz o gênio da nossa vida primitiva; de que é capaz o fulvo pitoresco das nossas lendas. Mas o autor que mostrou uma tão exigente sensibilidade com esta preferência; não o realizou3 senão em esboço, e muitas vezes em
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No verso do recorte, que se encontra no álbum R.29 do IEB-USP – Recortes de Mário de Andrade –, há indícios de que a cidade de Recife seja o local da publicação.
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No jornal, lê-se “que”, sem o acento. 3
esboço de caricatura que é o que mais dói, e espanta. Espanta que através de tanto sinal de talento, e mesmo de um sentimento por vezes quase lírico do primitivismo brasileiro, tudo isso não viesse afinal a dar ao livro o ar vivo e forte e humano de criação que era de esperar. Não desse a sentir dentro dele um sangue novo. É que a literatura esgota muito do espírito que tem o livro, até reduzi-lo em páginas inteiras a puro palavreado, palavreado brasileiro, mas palavreado. Falo dessa literatura mesma para a qual o sr. Mário de Andrade, no seu livro, faz tanto beiço desdenhoso, mas que tem vinganças de coisa viva, viva e com um espírito de diabo dentro dela, quando a esquecemos por moda, não por temperamento.
Em Macunaíma não é raro notar-se os truques4 engenhosos, bem finos até certos deles, usados pelo autor para a impressão de originalidade: para parecer todo novo, em folha, e nativo e franco como uma sensibilidade de criança. Tem sido um mal danado, um mal que vai passando a perna a todos os males de ridículo possíveis em literatura, o dessa história de se começar a comparar, como se começou depois do livro do sr. Manuel Bandeira, os escritores modernos a crianças. Raro agora o escritor que não bote pra criança, como diria Macunaíma. Acontece é que muitos acabam deixando de verdade a sugestão de criança; mas a sugestão física somente. De certo que uma sugestão destas não se pode ter continuamente de um autor como o sr. Mário de Andrade. Nos trechos onde o sr. Mário de Andrade mete-se no seu assunto com a só inspiração que o assunto lhe dá, ninguém de um toque mais puro, e um natural mais franco. Mas o que se dá é que essa inspiração é de um fôlego curto. E só por aí se pode explicar os excessos caricaturescos do livro; a grotesquerie que não tem nada de espirituosa de certas cenas do Macunaíma, que perdem todo o sabor se repetidas três, quatro vezes. E a impressão depois dos primeiros capítulos do romance é que este se repete sem cessar com pequenas variantes de imagens; e que se repete para pior. O fantástico também é fatigante, mesmo para as crianças se nos metemos a insistir sobre ele como sobre uma banalidade. Ora, o sr. Mário de Andrade, no seu romance, abusa das soluções mágicas, e das artes de feitiçaria com um tal excesso de imaginação, como se ele próprio fosse um feiticeiro, um feiticeiro da graça e do espírito.
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Macunaíma, por exemplo, “o herói sem nenhum caráter”, morre três vezes, três ou quatro vezes, não estou bem certo, para ser reposto à vida pelo feiticeiro, seu irmão. À primeira morte, pelo próprio encanto fantástico da história, como nos vem também a vontade de colaborar na arte lógica do feiticeiro para dar vida nova a Macunaíma. Mas nas outras, com franqueza, o desejo é de que o livro não tivesse feiticeiros, e Macunaíma pudesse morrer de uma vez.
E esse mau desejo somente porque o sr. Mário de Andrade procura explorar demais com o gênio muito dramaticamente supersticioso da raça, e com o novo e o pitoresco da nossa linguagem, atrás de efeitos. O resultado é carregar opressivamente em brasileirismos de expressão, muitos deles por sinal bem deselegantes e bem feios. Tão deselegantes e feios como certas anedotas que vêm no livro, e que deixam de luva e casaca às mais pesadas chalaças portuguesas.
Mas, sem dúvida, é que se o livro não trouxesse essas anedotas, haveria o risco de se perder o moleque brasileiro. Um pitoresco. Mas antes se perdesse o pitoresco a não se encontrar uma imagem mais simpática do seu espírito.
Enfim[,] do livro do sr. Mário de Andrade, pode-se afirmar que, feito de motivos do povo, não será nunca um livro popular; que, cheio como ele é de mal-assombrados5, e feiticeiros e almas do outro mundo, e com todos os bichos de mais estranhas formas, e aves e pirilampos que já pintam o sete entre o céu e a terra – com tudo enfim que pode fazer as delícias de uma imaginação suscetível como a das crianças, não será nunca um livro gozado das crianças. Um livro gozado de todo o mundo como o Robinson Crusoe, ou a novela de Stevenson Dr. Jekill de uma alucinante fantasia. E não o será justamente por esse não sei quê de convencional que no livro parece roubar o efeito às suas passagens mais líricas e mais fortes, àquelas mesmas em que o autor dá um grande sinal do seu talento e do seu gosto.
O. M. [OLÍVIO MONTENEGRO]
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