«C – ENQUADRAMENTO JURÍDICO:
Conforme já referido, dispõe o art. 78.º, n.º 1, do Código Penal, que “se, depois de uma condenação transitada em julgado, se mostrar que o agente praticou, anteriormente àquela condenação, outro ou outros crimes, são aplicáveis as regras do artigo anterior, sendo a pena que já tiver sido
cumprida descontada no cumprimento da pena única aplicada ao concurso de crimes”.
De acordo com o disposto no art.º 77.º do Código Penal, na medida dessa pena única devem considerar-se, em conjunto, os factos e a personalidade do
agente, tendo como limite mínimo a pena mais elevada e como limite máximo a soma das penas, que, em concreto, lhe foram aplicadas e salvaguardados os limites intransponíveis de 25 anos de prisão e 900 dias de multa, consoante se trate de uma ou outra dessas sanções penais.
O n.º 3 do referido art.º 77.º prescreve que, se as penas aplicadas aos crimes em concurso forem umas de prisão e outras de multa, a diferente natureza destas mantém-se na pena única resultante da aplicação dos critérios estabelecidos nos
números anteriores.
É jurisprudência pacífica do STJ que no “caso de realização de cúmulo jurídico das penas, a fundamentação da pena única deve passar pela avaliação da conexão e do tipo de conexão que entre os factos concorrentes se verifica e pela avaliação da personalidade unitária do agente. Particularizando este segundo juízo — e para além dos aspectos habitualmente sublinhados, como a detecção de uma eventual tendência criminosa do agente ou de uma mera pluriocasionalidade que não radica em qualidades desvaliosas da
personalidade — o tribunal deve atender a considerações de exigibilidade relativa e à análise da concreta necessidade da pena resultante da inter-relação dos vários ilícitos típicos” [Ac. STJ de 27.05.2010, Proc.º n.º 708-05.4PCOER.L1.S1, relatora Isabel Pais Martins, em www.dgsi.pt].
No caso vertente, três das penas do 1.º ciclo do concurso aplicadas ao arguido (processos ns. 1973/16…………, 247/16……….. e 8/16…………) foram já
Tendo em consideração de que estão em causa três penas de multa, que duas se encontram já extintas e que não se vislumbra motivo justificativo para alterar o juízo então formulado, decide o Tribunal não alterar o referido cúmulo.
Duas penas do 1.º ciclo do concurso foram cumuladas no processo n.º 461/15……….. .
Três penas do 3.º ciclo do concurso foram cumuladas no acórdão proferido nestes autos.
Ora, sem prejuízo exposto supra quanto ao cúmulo das penas de multa, com vista à realização do presente cúmulo, importa “desfazer” os anteriores e ponderar individualmente cada uma das penas parcelares. Com efeito, como refere o Ac. STJ de 22.04.2004 [Proc.º n.º 04P132, relator Rodrigues da Costa, em www.dgsi.pt], “tendo que se reformular o cúmulo, por força do
conhecimento posterior de crimes que estavam em situação de concurso com os anteriores e que, portanto deveriam ter entrado no cúmulo, não há
nenhuma «obrigação» de respeitar a pena unitária anterior, a que acresceria simplesmente mais «um quantum» relativamente aos crimes posteriormente conhecidos. A reformulação é um novo cúmulo, em que tudo se passa como se o anterior não existisse. É, de resto, a solução que decorre da lei (artº. 78º, nº. 1 do CP), pois o trânsito em julgado não obsta à formação de uma nova
decisão para reformulação do cúmulo, em que os factos, na sua globalidade, conjuntamente com a personalidade do agente, serão reapreciados, segundo as regras fixadas no artº. 77º. A única limitação ao cúmulo (ou à sua
reformulação) é a de as respectivas penas não estarem cumpridas, prescritas ou extintas”.
De igual forma, diz-se no Ac. STJ de 02.05.2012 [Proc.º n.º 218/03.4JASTB.S1, relator Santos Cabral, em www.dgsi.pt], “é linear o entendimento, uniforme na doutrina e na jurisprudência, de que o pressuposto básico da efectivação do cúmulo superveniente é a anulação do cúmulo anteriormente realizado. No novo cúmulo entram todas as penas, as do primeiro cúmulo e as novas, singularmente consideradas», pelo que «não se forma caso julgado sobre a primeira pena conjunta, readquirindo plena autonomia as respectivas penas parcelares. Na reelaboração do cúmulo não se atende à medida da pena única anterior, não se procede à “acumulação”, ainda que jurídica, das penas novas com o cúmulo anterior. O novo cúmulo não é o cúmulo entre a pena conjunta anterior e as novas penas parcelares; a nova pena única resulta do cúmulo
Atentas as supra enunciadas regras de punição, bem como os factos que estão subjacentes às condenações anteriormente mencionadas, haverá que ponderar o seguinte:
1.º ciclo:
A moldura do concurso situa-se entre o mínimo de 2 anos e 10 meses de prisão e o máximo de 8 anos de prisão.
Como se referiu, não se irá reformular o cúmulo das penas de multa.
Verifica-se uma variedade significativa de bens jurídicos tutelados pelos tipos de crime violados pelo arguido, o que revela uma personalidade vincadamente desconforme ao direito.
O arguido agiu num quadro de dependência de substâncias estupefacientes, de baixa formação académica, ausência de inserção familiar e profissional. A gravidade geral dos factos é elevada, até considerando a ocorrência de dois crimes de roubo, que atentam também contra bens jurídicos pessoais.
Considerando todos os apontados factores, procedendo ao cúmulo jurídico de todas as condenações aludidas supra em 2), 3), 4), 5), 7) e 10), considera-se justa e adequada a pena única de 5 (cinco) anos e 4 (quatro) meses de prisão e de 340 (trezentos e quarenta) dias de multa, à taxa diária de 5,50 €.
Atendendo ao disposto no art.º 50.º, n.º 1, do Código Penal, não há lugar à ponderação sobre a suspensão da execução da pena de prisão.
2.º ciclo:
A moldura do concurso situa-se entre o mínimo de 2 anos e 4 meses de prisão e o máximo de 3 anos e 10 meses de prisão.
Verifica-se uma pena de 210 dias de multa, à taxa diária de 5,50 €, já extinta pelo cumprimento.
Estão em causa neste ciclo dois crimes de tráfico de menor gravidade e um crime de condução sem habilitação legal.
É patente que as advertências efectuadas ao arguido no âmbito das condenações do 1.º ciclo não surtiram o efeito desejado. O arguido não
reformulou nem ajustou a sua personalidade ao exigido pelo direito, mantendo uma propensão para a delinquência.
O arguido manteve o quadro de dependência de substâncias estupefacientes, de baixa formação académica, ausência de inserção familiar e profissional. A gravidade geral dos factos é elevada, até considerando a circunstância de estarmos perante três crimes ocorridos num período curto, de 4 meses.
Considerando todos os apontados factores, procedendo ao cúmulo jurídico de todas as condenações aludidas em 6), 9) e 11), considera-se justa e adequada a pena única de 3 (três) anos de prisão.
Desconsidera-se a pena de multa aplicada no processo n.º 101/17………, por se encontrar já extinta e não ser cumulável com a pena de prisão.
Os antecedentes criminais à data dos crimes em concurso evidenciam, com segurança, que a mera censura dos factos, aliada à ameaça de cumprimento da prisão acima fixada, se mostram desajustadas e insuficientes para
convencer o condenado da necessidade de não voltar a delinquir e de se afastar, por isso, da comissão de novos crimes, pelo que, ao abrigo do
preceituado no art.º 50.º, n.º 1, do Código Penal, se decide não suspender a respectiva execução.
Pelo mesmo fundamento se afastam as penas de substituição previstas nos arts. 43.º, n.º 1, 44.º, n.º 1, 45.º, n.º 1, e 46.º, n.º 1, do Código Penal. 3.º ciclo:
A moldura do concurso situa-se entre o mínimo de 5 anos de prisão e o máximo de a 6 anos e 2 meses de prisão.
Estão em causa neste ciclo um crime de tráfico de estupefacientes e um crime de falsidade de testemunho.
Acentua-se a convicção de que as advertências efectuadas ao arguido no âmbito das condenações dos ciclos anteriores não surtiram o efeito pretendido. A propensão do arguido para a delinquência, espelhada na actividade criminosa entre 2016 e 2018, permite afirmar no caso uma verdadeira carreira criminosa e não apenas de uma pluriocasionalidade [J. Figueiredo Dias, Direito Penal Português – As Consequências Jurídicas do Crime”, 1993, pág. 291].
O arguido manteve o quadro de dependência de substâncias estupefacientes, não tendo corrigido ou investido de alguma forma no seu enquadramento académico, profissional ou familiar.
A gravidade geral dos factos é elevada, até considerando o agravamento na escala dos tipos de crime de tráfico relativamente aos praticados no 2.º ciclo. Considerando todos os apontados factores, procedendo ao cúmulo jurídico de todas as condenações aludidas em 1) e 8), considera-se justa e adequada a pena única de 5 (cinco) anos e 7 (sete) meses de prisão.
Atendendo ao disposto no art.º 50.º, n.º 1, do Código Penal, não há lugar à ponderação sobre a suspensão da execução da pena de prisão.
As três penas únicas determinadas neste acórdão deverão ser cumpridas sucessivamente pelo arguido.
No cumprimento das penas de prisão e de multa acima fixadas, haverá que operar o desconto previsto nos arts. 80.º, n.º 1 e 2, e 81.º do Código Penal.»
8. Como acima se deixou editado, a questão suscitada no recurso interposto