De volta à rota principal.
Eu sempre tive uma agonia, sei, você também, provavelmente, de baratas. E umas das coisas que mais me atormentava - e sei, não era a única -, na pensão, era a presença de baratas: aos montes, em especial, daquelas menores, filhotinhos de baratas. Estavam por toda a parte, pareciam nos lembrar nossa comunalidade, criaturas do nojo e do desprezo, na mesma medida em que antigas e adaptáveis. Lembro de uma noite em que
cis, majoritariamente, ainda nos lêem como homossexuais. Mesmo entre muitas pessoas trans, ainda há o autoentendimento de pertença às categorias de homossexual, viado, bicha (Kulick, 2008; Pelúcio, 2009;
Leite Junior, 2011). Desde as Ordenações Afonsinas, o brado: “Mandamo e pomos por lei geral que todo homem que tal pecado fizer seja queimado e feito per fogo em pó, por tal qual que já nunca de seu corpo possa ser ouvida memória” (Mott, 1985, p. 102): me foi necessário, em vários momentos de pesquisa, utilizar a categoria “homossexual” em um sentido histórico capaz de suscitar, documentalmente e em processos de escuta, o encontro com lembranças de sujeitos que foram ocultados segundo vestígios menos, conceitualmente, científicos, do que impregnados pela narrativas e terminologias de moralidade que animaram, mesmo, as práticas científicas que os esmiuçou e produziu depois.
36 eu, meu amigo, Rebeka, e todas as outras enfrentamos uma infestação, andavam em nossos rostos - ao menos éramos acordadas, quando conseguíamos dormir, pelos carinhos que suas patas faziam em nossos rostos -, lembro junto de quando Keila Simpson e Kulick (2008), em um episódio etnografado por esse último, depois de matarem 26 baratas em uma sessão de trabalho, descobriram estar apenas lidando com uma “ponta-de-lança” da invasão. Nessa época, havia se mudado um casal trans, oriundos também da região nordeste, um homem transgênero e uma travesti, para o antigo quarto de Rebeka, que tinha passado a viver no escritório da Edna, transformado em quarto: duas coisas, primeiro, Rebeka gritava de desespero ao mesmo tempo em que gargalhava, eu vou dá uma cachimbada aqui dentro, trancada, quero ver se elas aguentam, morre eu e morre elas!, ríamos de desespero em volta; segundo, era a primeira vez que eu via um casal transcentrado - nome dado pela militância, aprendido com a militância negra em debate pelo afrocentramento das relações afetivas -, uma possibilidade afetiva que eu sequer podia imaginar, à época. Falemos disso depois. Continuando: baratas.
Talvez seja interessante operacionalizar uma ficcional perspectivação interespecífica: quais questões poderíamos levantar se pudéssemos vislumbrar a mesma espacialidade-cena da perspectiva de uma barata, ao menos, risos, o de uma barata humanizada? Bobagem! Mas não posso prescindir de sugestões espaciais que a barata me sugere:
“(...) uma paisagem ou um quadro podem ao mesmo tempo adquirir uma consistência estrutural de caráter estético e me interrogar, me encarar fixamente de um ponto de vista ético e afetivo que submerge toda discursividade espacial” (Guattari, 1992, p. 154)
Quais sistemas de ordenação, de significação, quais imagens poderiam condensar uma perspectiva de barata, capaz de me afetar, me interpelar em um diálogo que seja ético, nos termos de uma responsabilidade conceitual que faça justiça a seus limites, mas dos quais, submerge-me toda uma discursividade sobre o espaço? Seres de imensa adaptabilidade e de antiquíssima ancestralidade, as baratas são seres cosmopolitas, de hábitos noturnos, à noite buscam alimentos e parceiros de acasalamento, permanecendo escondidas durante o período diurno - quando acontece de serem vistas pelas manhãs, isso está associado, geralmente, há um adensamento populacional. De modo algum
37 sinantrópicas, habitam mesmo as mais variadas edificações humanas; quando podem, alimentam-se de doces, de doçuras, mas não se fazem de rogadas, comem mesmo a merda da civilização quando se lhes bate a fome. Sentem o perigo pela movimentação do ar, e são mesmo animais muito velozes. Podem sobreviver a dias sem suas cabeças, elas são seus corpos inteiros, vivem por aberturas ao longo do corpo, por onde a vida se lhes anima por inteira. São tidas, no geral, como seres solitários, mas que nas cidades, acabam assumindo comportamentos gregários. Gostaria, ainda, de chamar atenção para mais um ponto: as baratas, assim como as travestis da fala de Neon, correm da sociedade, produzem danos de ordem psicológica aos membros da cidade, reações de asco, de pisoteamento, de brutalidade.
Como animais de dieta também saprófaga, ocupada com as decomposições, indicam, assim, por vezes, a presença da morte, da morte a ser digerida, transformada. A coabitação entre as travestis e as baratas, na pensão, sugerem caminhos de entendimento quando pensadas segundo as proposições de Guattari (op. cit.) sobre a inseparabilidade, em uma abordagem fenomenológica, entre o espaço e o corpo vivido: aspectos ecológicos concorrem na produção da subjetividade, colocado de uma outra maneira, a presença das baratas, na pensão, promovem possibilidades à cartografia dos territórios ocupados por nós, à época, deslinda sentidos cruciais para as operações que desejo registrar, aqui, em escrita.
Em Kulick (2008) e Pelúcio (2009), podemos acompanhar práticas e efeitos de práticas de gentrificação nos territórios onde etnografaram a população travesti, gentrificação como processo de identificação de grupos sociais a serem mobilizados para fora de determinadas zonas urbanas, pelo Estado e suas forças de repressão, bem como da comunidade “correta” que já habitaria tais zonas ou de potenciais investidores, com o intuito de fazer sair um grupo (localizado como “perigoso” segundo índices de pobreza, de desvio em relação às normas sociais de conduta de gênero e sexualidade, de apresentação de caracteres fenotípicos racializados, isso tudo em um associação significante com violência como fenômeno intrínseco à população a ser removida de tais zonas) e entrar outro (grupos que, moralmente e economicamente, apresentassem dinâmicas de sociabilidade tidas como “saudáveis” ou “corretas”). Eufemisticamente e politicamente chamados de “revitalização”, tais procedimentos de deslocamento, tendem
38 a estabelecerem-se por meio da autoridade45 que emana dos sujeitos que denunciam os perigos, mais do que um foco ou esforço de regulação/assistência às populações
“perigosas”, ou ainda, mesmo que haja - e inegável que há - esforços de assistência a essas populações, esses podem incorrer em sutis procedimentos de controle/responsabilização dos sujeitos pelas suas condutas, normatizando e regulando seus modos de vida46.
Essa “presença da morte”, essa territorialidade de morte, compõe sentidos com as propostas de “revitalização” urbanística que costuma acompanhar as zonas por onde costumam habitar essas desobediências; a palavra “revitalização”, nesse sentido eufemisticamente político, além de indicar a presença de morte, dissimula tais procedimentos de deslocamento pelos quais incorre na produção de novos espaços limpos: processos de desinsetização social que estão em funcionamento desde a colônia, o DDT colonial constrói a cidade dos sonhos da burguesia (Foucault, 1978) sob as expensas da vida leprosa47, empurrada para fora dos muros da cidade, para os ermos da mata, para longe dos olhares vigilantes das Devassas quinhentistas/seiscentistas (Mott, 1985), dos desejos de emulação de uma civilidade europeia na belle époque; no curso que se abriu após o aportamento caravélico, inúmeras foram as fogueiras, os apedrejamentos, as prisões, as internações, todas técnicas de aniquilação da memória, portanto do corpo
45 Landini (2018), em sua análise sobre o pânico moral e suas reações, no caso, a construção - ou dissimulação - de um conservadorismo em relação à gênero e sexualidade -, procede a uma análise de supostas incitações à pedofilia, zoofilia, à corrupção dos “bons costumes”, que algumas exposições artísticas teriam sido alvo durante o ano de 2017 e 2018, no Brasil. Para Landini, o estabelecimento de um pânico moral, configura-se no deslocamento de um ”olhar tradicionalmente dirigido ao desviante e suas características ou deficiências (...) dirigindo-os aos definidores do desviante, àqueles que rotulam em lugar dos rotulados” (Landini, 2018, p. 513). As pesquisas de Trevisan (2000) e Quinalha (2017) chamam atenção para as mobilizações públicas e midiáticas, por parte de autoridades morais e sociais, como a polícia, a classe comerciante, os defensores da “família e dos bons costumes”, na construção dos sujeitos perigosos, evidentes na fala de Neon Cunha, por exemplo.
46 Pelúcio chama atenção para aquilo que chama de “sidadanização” - promoção da cidadania por meio de uma responsabilização do sujeito pelas questões de saúde, em especial pelos “riscos” de contaminação à aids - ou “aSUSjeitamento” - sujeição ao Sistema Único de Saúde - da população travesti, em uma estratégia conceitual que visa associar os “riscos” ao “desvio”, em uma perspectiva de “mudança de comportamento como estratégia de proteção em relação à aids e outras doenças sexualmente transmissíveis” (Pelúcio, 2009, p. 48).
47 Fernanda, a Princesa, em 1982, depois de uma tentativa de suicídio, quando da alta do hospital, registra a sensação de ser evitada pelas pessoas, sozinha, em um ponto de ônibus: “me evitando como uma leprosa”.
O devir-barata das travestis em suas trajetórias, seja nos momentos de alta vulnerabilidade ou de autossegurança triunfantes, costumam pôr em funcionamento reações perceptivas de degredo, degenerescência, contágio, asco, muito presentes nos discursos das desobediências sobre as maneiras de serem percebidas.
39 vivo e de seus vestígios arqueologizáveis, com níveis de recorrências que nunca perdem o maldito frescor de contemporaneidade; os procedimentos de revitalização dos territórios morais por onde circularam os corpos desobedientes vão de crime de lesamajestade a políticas públicas, uma razão mesmo de Estado que é generificada, sexualizada, como por exemplo, durante o período ditatorial militar, onde “uma política sexual oficializada e institucionalizada” (Quinalha, 2017) tinha a missão de controlar manifestações tidas como perversas ou desviadas, uma “guerra santa” das forças policiais, que incorriam nos numerosos casos48 de perseguição às travestis, por exemplo, no centro de São Paulo à época da “abertura” política do regime militar, ainda muito presentes na memória das travestis mais velhas: “vocês não sabem como era na época do Richetti!”49.
A pensão de Edna e a pensão de Kulick apresentam diferenças significativas:
enquanto na de Kulick as travestis pagavam mais caro, eram mesmo extorquidas pelos inquilinos, seguros de que as travestis não tinham muitas opções de residência, mas sobretudo porque podiam levar seus clientes; já na de Edna, as coisas era um pouco diferentes, havia um desejo de limpar a área, de transformar aquele lugar, ir minando o estigma da pensão como pensão para “travestis que roubam”50: além do alto preço a ser pago para se viver ali, não se podia levar clientes, proibia-se o uso de quaisquer substância entorpecente, tudo em uma tentativa de “revitalizar” o estabelecimento, sugerindo entendimentos de que haveria uma certa assimilação dos projetos de higienização da região, Val mesma dizia pra gente, ainda bem que vocês vieram pra cá, a Edna quer mesmo gente diferente aqui - vocês precisavam ver, quando a Edna chegava ou quando anunciava-se sua visita depois da mudança da sede de seu escritório, todas corriam,
48 Para um esmiuçamento dos casos de perseguição aos “desviados” durante a ditadura, ver, por exemplo, Quinalha (2017) e Trevisan (2000).
49 Trecho de depoimento colhido por Garcia (2007). José Wilson Richetti foi um delegado da Polícia Civil de São Paulo, comandante da “Operação Limpeza”, responsável por uma caça à travestis, prostitutas e homossexuais no centro de São Paulo, na década de 1980.
50 Garcia (op. cit.) chama atenção para a violência (os roubos, as perseguições, os extermínios) como traços componentes da identidade travesti. Gostaria de, em uma tentativa de contribuir para as discussões que visam à desestigmatização da vida travesti – da vida desobediente de gênero, de um modo mais amplo – com um ponto de vista encontrado em Paulo Freire (1996) sobre a violência perspectivada sob o signo da raiva, da “justa raiva”: “E tenho também alegria de ter tido a raiva que, no fundo, ajudou que eu continuasse no mundo por mais tempo” (Freire, id., p. 18). Mesmo levando em consideração que há um aspecto de odiosidade que é perverso nessa raiva, quando ela não tem a acolhida devida e prolonga-se em duração pelos tempos, há que se levar em consideração que a presença da raiva é em certa medida justa às condições de habitar o mundo a que estão sujeitas as desobediências; essa violência possui, em certa medida, contornos estratégicos para a sobrevivência.
40 limpavam os corredores, os quartos, uma vez a Edna chegou e pairava no ar o aroma inconfundível de maconha, no que ela se pôs a gritar e ameaçar as que viviam ali, que chamaria “os irmãos” para dar um jeito naquela zona, vocês já foram avisadas, se acontecer de novo, aguentem!
Aquelas e aqueles que já tentaram - e conseguiram - afugentar ou matar uma barata sabem de suas prestimosas habilidades de corrida, de se esconderem nas fendas mais inacessíveis: o devir-barata das desobediências como recurso à sobrevivência em espacialidades moralmente higienistas.