Depois de muitos encontros com diversos professores, grupos, leituras pude perceber que a minha investigação e escolhas teórico-metodológica se alinhava com ideias pós-estruturalistas, que se elaboram por movimentos e deslocamentos, sem a pretensão a priori de saber aonde se quer chegar, mas que aproximam as lentes nos processos e nas práticas, sempre múltiplas e conflitantes, que vão conformando os - e se nos conformando - próprios caminhos investigativos (MEYER, SOARES, 2005). Contudo, trilhar este caminho é permitir um pensamento fluido, indeterminado, cheios de dúvidas, assim como afirma Guacira Lopes Louro,
A incerteza e dúvida não me parecem pecados que precisem ser exorcizados por um pesquisador ou pesquisadora; em vez disso, podem se constituir numa espécie de gatilho para qualquer investigação, podem ser exercitadas ao longo de um estudo e, desse modo, estimular a atitude de busca continuada do continuada do conhecimento. (LOURO,2007, p.239)
De certo, a perspectiva pós-estruturalista não traz uma postura descompromissada com os conceitos, teorias, ou procedimentos analíticos, mas reconhece o borramento entre as fronteiras disciplinares. Por não aceitar narrativas totalizantes e finalistas, mas por acreditar que teorias e conceitos possam ser ditos por distintas vertentes e diversos contextos, e que os discursos que se assentam como verdades possam ser problematizados, assim como questionar o inquestionável e o naturalizado. Duvidar das certezas definitivas, operar com o transitório e o provisório e ter que admitir que a ação de conhecer esteja sempre na sua incompletude (LOURO,2007).
Dessa forma, gosto de pensar na ideia de que as minhas certezas, heranças, quando entrei no mestrado, foram postas como suspeitas e as incertezas me permitiram a “deixar viver”, não no seu gesto banal, corriqueiro, como se as coisas estivessem passeando aos nossos olhos. Mas aceitar a desprender-me de velhas heranças, aquela que carrego e que me subjetiva como
professora de artes, como mãe, como companheira, como menina, como criança. E a partir daí, permitir-me a prender a outra e velhas heranças, construindo-me sujeito outro.
A noção de herança que menciono aqui é a mesma que Jacques Derrida nos dimensiona,
Não é apenas aceitar essa herança, mas relança-la de outra maneira e mantê-la viva. Não escolhê-la (pois o que caracteriza a herança é primeiramente que não é escolhida, sendo ela que nos elege violentamente), mas escolher preservá-la viva. A vida, no fundo, o ser- em-vida, isso talvez se defina pela tensão interna da herança, por essa interpretação do dado do dom, até mesmo da filiação. (2004)
Que heranças eu suporto? Que teorias e conceitos trago como verdades e que serão dissolvidas por essa trajetória? De que verdades me constituem e de quais verdades estão em jogo nesta minha caminhada? O imprevisível estava porvir! Será diferente de tudo aquilo que já vivenciei? Tenho medo do mar aberto, das correntes que levam para lugares distantes, mas enfim, me joguei em alto-mar. E agora?
Questionar a minha existência nessa pesquisa e de como a construo é como me aproximo da noção de problematização de Foucault. Uma problematização que envolve a produção de um objeto de pensamento livre de visões a priori, e a “sabedoria” de práticas e crenças reconhecidas (MARSHALL, 2008). Uma problematização que é entendido como “conjunto de práticas discursivas ou não-discursivas que faz entrar alguma coisa do jogo do verdadeiro e do falso e o constitui como objeto para o pensamento (quer isso seja sob a forma da reflexão moral, do conhecimento científico, da análise política, etc)” (FOUCAULT,1984, p241). A partir daí, se estabelece um exercício crítico do pensamento que não pretende buscar verdades, mas que “passa por infindáveis disputas ideológicas e argumentos polêmicos, embora não se proponha oferecer soluções” (MARSHALL, 2008p.29).
Não solucionar, mas problematizar! Tomar distância, se desprender. Diante disso, Foucault propõe dar um passo para trás, não para descobrir verdades, mas para ganhar a liberdade de separar-se do que se faz, de tornar um objeto de pensamento como um problema. E dessa forma, traçar talvez, uma experiência foucaultinana, que me permita arrancar de mim mesmo, impedir de ser eu mesma, dessubjetivar-me.
Caminhar num sentido de problematizar as minhas ações, atitudes e pensamentos na pesquisa, assim também a relação com o outro.
Pensar que os caminhos investigativos podem passar pela construção das nossas experiências, no sentido de como vamos fabricando a nós mesmos, as nossas pesquisas e os sujeitos com quem relacionamos, tudo isso pode indicar uma estratégia de como percorrer na pesquisa. Dentre as minhas escolhas de percurso, a primeira intenção foi trabalhar com entrevistas narrativas. Não por falta de escassez de outras fontes de pesquisa sobre o meu tema, mas por acreditar que os relatos orais possam abrir novas perguntas sobre ele, evidenciar outras respostas e provocar novos temas. (LOURO,2012). Segundo Mattos,
Trabalhar com narrativas significa também trabalhar com memórias construídas no momento de constituição de relatos, durante as entrevistas [...] Trabalhar com memórias não pressupõe pensá-las como marcas de um passado organizado linearmente, nem tampouco com a ideia de tempo cronológico, o que é mais recente e o que é mais distante, que represente facilidades ou dificuldades, mas em formas múltiplas de recontar o passado recente em meios a saberes e poderes que atuam na sua organização a partir do tempo presente da narrativa. (MATTOS, 2014, p.30)
Que sujeitos? O que trará as memórias desses sujeitos? Quais serão as sensações dos sujeitos que marcam? Como esse processo envolve narrativas, memórias, discursos, as relações de poder, saber e sujeitos, buscarei problematizar as multiplicidades da vida é dar espaço aos modos de existência do sujeito que produz esta imagem desviada, deslocada. As produções de fontes a partir das entrevistas narrativas não devem buscar “objetividades, mas trabalhar com modos de objetivação e subjetivação para que as problematizações sejam sensíveis as pluralidades das realidades pesquisadas” (MATTOS, 2014, p.32).
Entretanto, a medida que fui me aprofundando no campo, percebi que as vozes dos sujeitos da minha pesquisa nas escolas, na CasAbsurda, no projeto "Gente em primeiro Lugar", nas ruas, nas mídias foram surgindo de maneira inesperada, sem nenhuma planejamento de espaço e tempo para que acontecesse. Logo tornei-me uma observadora e participante, pois não criei distanciamento, ao contrário, fui afetada e também provocadora em certas situações. A partir dos acasos, das contingências de percurso, fui fazendo da minha pesquisa um modo de problematizar a minha existência, e também a minha escuta. De certa forma, a produção de subjetividades daqueles que estão envolvidos nesses estudos foram construindo e constituindo a minha história, a minha experiência e assim, fui me processando, saindo do lugar onde a renúncia a alguns julgamentos morais, me fizeram avançar.
Nesse sentido, utilizo da minha memória, das minhas anotações do campo, das minhas vivências com cidades, como uma forma de ampliar a visão, audição, de aguçar todos os
sentidos e de me posicionar frente a pesquisa. Mas dizer de que forma será feito, de como isso pode ser sistematizado, de como se faz as escolhas, está para além da dimensão das certezas e objetividades. O que importa talvez, não é como se escreve ou como se faz pesquisa, mas como saímos dela. Segundo Sandra Corazza,
Pra mim, o difícil mesmo, como Foucault escreveu, é sai-se do que se é, para criar outros possíveis de ser; e aqui não se trata disso porque tal dificuldade já vem sendo experimentada no próprio processo de investigação. (CORAZZA, 1996, p.107)
A pesquisa se torna, assim como na visão de Corazza, uma espécie de labirinto, onde nós criamos e enfrentamos obstáculos, onde decidimos retornar, refazer percursos, entretanto não se pode sair no mesmo ponto de partida. Não importa se os caminhos são mais ou menos tortuosos, somos nós que sairemos deles, e como se sai? Não há nada prescritivo, tal como a vida.