ASPECTOS DISCURSIVOS, MULTIMODAIS E SOCIOCULTURAIS
2.2 Maitena e aspectos socioculturais das suas personagens
Maitena iniciou sua carreira na revista cômica argentina Sex and humor na década de 1980 e enfrentou uma difícil trajetória devido à ditadura militar, até que sua obra fosse consolidada. Os cartuns e as compilações decorrentes de seu trabalho são populares em diversos países, inclusive no Brasil (amplamente divulgados na revista Claudia), ocupando espaços significativos em revistas e jornais.
A autora afirma que seus quadros não são autobiográficos, mas que algumas coisas que acontecem com ela a inspiram, como a experiência de quatro casamentos e três filhos. Acrescenta que nem tudo o que presencia ou vive é passível de transcrição, mencionando que às vezes a realidade supera a ficção, tornando difícil reproduzir nos quadros as coisas incríveis demais que acontecem no dia-a-dia.
O humor é visto por Maitena como uma tentativa de eliminar os grandes sentimentos e faz graça, principalmente, com as relações humanas, representando a
83 mulher e o homem contemporâneos com os temas: preconceitos, elementos morais e éticos, critérios para opções de vida, expectativas sociais, dentre outros. É fundamental ressaltar que, na maioria das vezes, esses temas representam visões estereotipadas, permeadas de ironia.
Essa autora apresenta um trabalho gráfico de excelente qualidade, a qual se reflete, principalmente, na expressão corporal e facial que ela imprime às suas personagens, principalmente os olhos e a boca, nos recursos gráficos indicativos do movimento delas, nos sinais diacríticos, no uso de cores vibrantes7. O humor inteligente é alimentado nas situações mais comuns e banais, no vestuário moderno e elegante de suas personagens e na riqueza dos detalhes que permeiam suas representações.
Pode-se verificar que, em termos gerais, as situações cotidianas apresentadas por Maitena dizem respeito a dois grandes temas8. O primeiro é a manutenção de estereótipos, em que as personagens são representadas realizando tarefas consideradas tipicamente femininas, bem como a permanência de situações nas quais as feminilidades e as masculinidades reproduzem o senso comum e o discurso patriarcal. Já o segundo grande tema, a preocupação com a aparência feminina, associa-se às questões de saúde e, principalmente, à sexualidade, haja vista que estão inseridas no corpo feminino.
A obra da autora divide-se em três séries, que são: Mulheres alteradas, Mulheres superadas e Curvas perigosas. A primeira série da autora, Mulheres alteradas, expõe que as mulheres, novas na maioria das vezes, fazem muitas coisas e têm muitas preocupações ao mesmo tempo, o que inclui corpo, alma, casa, filhos, amor, amante e trabalho. Nessa série, a autora olha ironicamente as estranhezas da condição feminina e percebe que é impossível dar conta de tudo sozinha.
Já na segunda série, Mulheres superadas, enfocam-se as mulheres mais velhas às voltas com os dramas de amor, as dificuldades para se manter bonita e as idiossincrasias da maternidade e da vida a dois. Nessa seqüência, a mulher está, pelo menos aparentemente, mais madura, ou melhor, sem idade e ainda quer
7
Neste trabalho, não há um estudo específico das cores utilizadas nos cartuns, pois entende-se que os vários elementos gráficos selecionados são suficientes para a análise e os objetivos pretendidos.
84 desesperadamente encontrar o seu “príncipe encantado”, parecer eternamente jovem, magra, sem rugas e sem celulite.
Na terceira série, Curvas perigosas, na qual ocorreu a análise devido à contemporaneidade no momento da seleção do corpus desta pesquisa (2006) Maitena amplia seu alvo, mas continua ironizando as neuroses femininas contemporâneas, tais como: mulheres à beira de um ataque de nervos, preocupadas com a última moda, a conta do cartão de crédito, o pretendente que desapareceu depois do primeiro encontro, as rugas e a celulite que teimam em reaparecer.
Nessa série, a autora revela com precisão o seu estado de espírito como cartunista, pois as piadas9 vão muito além das idiossincrasias femininas e lançam um olhar cruel e enternecido sobre as agruras da sociedade contemporânea. Considera-se que essas piadas fazem rir (e muito), mas deixam uma sensação incômoda quando o/a leitor/a se reconhece em alguma das pequenas neuroses.
As situações do cotidiano estão lá, como, por exemplo, no cartum O que nos irrita no futebol, quando o marido começa a ver um jogo de futebol pela televisão, proprietário do controle remoto, ou quando o homem/marido expõe a dependência feminina. Em vários cartuns, verifica-se que, para a mulher, o homem é invasivo, anti-estético, barulhento, rompedor de diálogos, influência negativa no estado de ânimo e, o mais importante, causador da dependência feminina ao universo masculino. Dessa forma, percebe-se que, por estar em primeiro lugar, esse esporte – o futebol – é julgado como um empecilho o qual dificulta o relacionamento do casal, já que a dependência feminina está altamente marcada com base na figura central masculina.
Já no cartum, Por que os homens sempre estão com alguém?, Maitena justifica a dependência masculina com as seguintes situações: porque se envolvem com a primeira que encontram, só se separam quando a mulher toma a iniciativa, não conseguem jantar sozinhos e voltam a se envolver com a primeira que encontram. Isso equivale a dizer que os homens não conseguem ficar sozinhos e, para tanto, torna-se imprescindível a figura da mulher, ou melhor, de qualquer
9
Gênero humorístico não animado, predominantemente verbal, de funcionamento tipicamente anônimo, a piada (anedota) se caracteriza por ser uma história curta de final surpreendente, às vezes, picante ou obscena, contada para provocar risos (COSTA, 2009, p. 149).
85 mulher. A dependência deles é tanta que, para viverem, eles necessitam sempre da companhia feminina.
De acordo com Leon e Belsito (2006), as protagonistas femininas que aparecem em Curvas Perigosas encarnam os ideais da cultura hedonista e individualista pós-moderna, pois são mulheres que se encontram motivadas por interesses particulares, como a preocupação com o cuidado do corpo, o realce da beleza do rosto, a melhora da sua imagem e aparência. Em síntese, como bem demonstram suas próprias palavras por serem “eternamente jovens, belas, magras e sem celulite”.
Também se deve destacar que as personagens femininas, em sua maioria, trabalham fora de casa e são obrigadas a obter sucesso em sua carreira profissional, contudo pode-se notar que seu interesse se circunscreve ao mundo íntimo e privado das mulheres: preocupam-se com o bem-estar de seus filhos, em atender às exigências de seus cônjuges, realizar tarefas domésticas e cumprir suas obrigações familiares.
Da mesma forma, por questões ligadas ao mundo sentimental e afetivo, essas personagens sofrem e choram pelo seu amor, anseiam encontrar o companheiro da sua vida, discutem e brigam com seus parentes e, o melhor, fazem/tornam a vida de seus ex-maridos impossível. Entende-se que a enunciadora em Curvas Perigosas representa as mulheres em estado de estresse permanente, sobrecarregadas de tarefas, devido à sua dupla jornada de trabalho: fora de casa e em seus afazeres domésticos.
Por outro lado, verifica-se que as personagens masculinas representadas nos cartuns são anônimas e, em geral, estereotipadas, tanto quanto as femininas, nos assuntos masculinos, tais como são apaixonadas por futebol e televisão, pelos canais esportivos, por comprar acessórios para carro ou computador, por ferramentas e máquinas. Já as mulheres, por sua vez, interessam-se pela compra de roupas e produtos de beleza, pelas novelas e pelos filmes românticos, pelas revistas de moda, pelos artefatos, como também por fazer dieta e ginástica.
As personagens masculinas são concebidas pela enunciadora como egoístas, machistas, individualistas, carentes de romantismo, reticentes para demonstrarem suas emoções e sentimentos em público e, às vezes, como vítimas de suas ex- exposas, as quais são definidas como ressentidas e vingativas. Dessa forma,
86 Maitena representa o poder falocrático masculino por meio do domínio que os homens exercem sobre o controle remoto da televisão que é uma alegoria ao machismo, ao poder patriarcal, ao domínio que tradicionalmente eles exerciam sobre a vida das mulheres.
Em relação aos temas tratados pelas personagens de Curvas Perigosas, observa-se que elas se ocupam de questões concernentes à sua vida privada e pessoal, como se verifica em: conflitos familiares, sociedade, divórcio, infidelidade, legitimação da sexualidade antes do matrimônio, sexo casual, homossexualidade, controle de natalidade com o uso de métodos anticoncepcionais, pílulas e preservativos, além da moda, beleza estética e corporal. Todos esses temas são marcos da sociedade individualista pós-moderna atual que impõe um modelo de vida em que se valoriza a cultura da magreza e da anti-idade, a cultura da imagem e do consumo, a cultura do êxito e da fama.
Constata-se o predomínio do tipo de mulher autônoma, que busca trocar aquilo que lhe desgosta, que deseja ser dona da sua própria vida e se esforça por conseguir sua independência econômica. É uma mulher que se valoriza e reivindica também a valorização das tarefas domésticas realizadas pelas donas-de-casa, pois são sacrificadas e desqualificadas socialmente.
Também cabe referir que se considera Curvas Perigosas anti-utópicas, porque desmistificam com humor os valores e costumes da mesma sociedade que consomem. Sem dúvida, questionam-se os padrões socioculturais impostos pela sociedade da imagem, em que se valorizam corpos magros, torneados, esbeltos e tonificados; a juventude como estilo e forma de vida: dietas para diminuir de peso, ginástica e, em casos extremos, cirurgias estéticas para extinguir as rugas do rosto e as gorduras corporais. Além disso, há a supervalorização da cultura do êxito e da fama. Critica-se especialmente o modelo de mulher jovem, bela, magra e ganhadora imposto pelos meios de comunicação de massa, por meio dos anúncios publicitários, revistas e programas de moda. Em síntese, a idéia de beleza e juventude como símbolo de felicidade, poder e êxito social.
Em Curvas Perigosas, reconhece-se a presença de formas múltiplas e variadas de famílias e de convivência como parte dos processos de democratização da vida quotidiana e da extensão do direito a ter direito (inclusive ao prazer, como é o caso de algumas mulheres dos cartuns que têm sexo casual ou aventuras sexuais
87 ocasionais, tanto hetero quanto homossexuais, de acordo com os ideais de autonomia e emancipação individual legitimados pela sociedade.