Capítulo 3 – A ASCENSÃO DA CONVENÇÃO NEOLIBERAL NO BRASIL
III. 1.1 – O “mal-entendido entre as duas escolas competidoras ”
Antes da exposição da crise que levou a substituição da convenção desenvolvimentista pela neoliberal é mister a elucidação concisa da estruturação daquela convenção.
Podemos destacar os seguintes pontos centrais de orientação da convenção desenvolvimentista: (i) a industrialização como motor do desenvolvimento; (ii) o processo de substituição de importações (PSI) como pivô do processo de mudança da posição ricardiana, na internalização do eixo dinâmico e na transferência de progresso técnico; (iii) a carência de dinâmica no setor exportador de commodities; (iv) uma concepção estrutural (gargalos de oferta) da inflação; (v) que somente políticas discricionárias seriam capazes de lidar com estes problemas (BIELSCHOWSKY, 1988).
O setor industrial torna-se o porta-estandarte nesta convenção. O Estado, entendido como condutor do processo, é identificado como pivô na alavancagem do desenvolvimento, sendo-lhe incumbido de instrumentos de política, em particular de planejamento e protecionismo, “que eram vistos como meios de se alcançar
industrialização rápida e eficiente e, consequentemente, de se alterar o curso da história dos países subdesenvolvidos” (BIELSCHOWSKY, 1988, p. 12).
O modelo de desenvolvimento defendido pelo ideário desenvolvimentista era de substituição de importações. Para explica-lo devemos entender que a crise da década de 1930 foi indutora deste processo (TAVARES, 1983).
A crise prolongada dos anos trinta deve ser encarada como ponto crítico da ruptura do modelo primário-exportador. A violenta queda sucessiva na receita de exportação acarretou uma diminuição drástica da capacidade para importar. Com o fim de defender o mercado interno dos efeitos do estrangulamento externo, o governo brasileiro adotou uma série de medidas de restrições e controles das importações. Assim procedendo, foi possível substituir uma parte dos bens que anteriormente se importavam. Posteriormente, “utilizou-se a capacidade para importar disponível com o fim de obter do exterior os bens de capital e as matérias-primas indispensáveis à instalação de novas unidades destinadas a continuar o processo de substituição” (TAVARES, 1983, p. 33).
O suporte e a validação de qualquer agenda política requer que seu conteúdo seja legitimado, objetivo ao qual se prestam comumente os economistas e as teorias econômicas (embora nem todo “fazer ciência” seja intencionalmente movido por interesses) (TEBECHRANI NETO, s/d). A sustentação teórica, ou o núcleo rígido da convenção de desenvolvimento que ora se analisa se dá pela teoria do desenvolvimento periférico de Prebisch e da Cepal20.
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Acredita-se localizar na teoria do desenvolvimento periférico de Prebisch e da Cepal o núcleo duro da convenção desenvolvimentista já que, conforme BIELCSHOWSKY (1988), este sistema teórico deu apoio a uma parte considerável da análise desenvolvimentista das economias latino-americanas. Contudo, deve-se ressalvar que nem todo pensamento considerado desenvolvimentista se embasou explicitamente nestas teorias. Ao longo da hegemonia da convenção desenvolvimentista houve várias ramificações teóricas e políticas, tais como a corrente desenvolvimentista do setor privado, o desenvolvimentismo “não-nacionalista” e o nacionalista (idem, 1988). Além do mais, vários pensadores desta filiação teórica criticaram enfaticamente o pensamento e a política de outras formas de desenvolvimentismo. Não esquecendo o fato de que muitos ideólogos desta corrente de pensamento foram perseguidos e tiveram que se exilar pelos militares do Golpe de 1964, os quais também adotavam políticas tendentes a corrente desenvolvimentista.
A proposição central desta corrente de pensamento é uma proposição política, segundo a qual seria imprescindível industrializar-se como meio de superar a pobreza ou de reduzir a diferença entre os países periféricos e os países ricos, e de atingir independência política e econômica através de um desenvolvimento auto-sustentado (BIELSCHOWSKY, 1988).
Na ótica teleológica, há uma agenda de problemas (industrialização), soluções (acumular capital), instituições capacitadas (o Estado) e aquelas impotentes (o mercado). Para tal, incorre-se em sacrifícios (quotas de importação e os desafios do processo de substituição de importações). Assim, aponta para onde vamos: industrialização, menor dependência externa e aproximação das condições de vida das sociedades latino-americanas ao nível de vida dos países mais desenvolvidos. Em outras palavras, os países do Terceiro Mundo alcançariam a “Terra Prometida” do Primeiro Mundo ou do mundo industrializado.
Vemos, com muita clareza, que as convenções desenvolvimentista e neoliberal apoiam suas agendas políticas em teses simetricamente opostas. Vejamos: a presença do Estado, por exemplo, enquanto vanguarda para o desenvolvimentismo, é vista como sinal de distorção e ineficiência alocativa para o neoliberalismo. Já o mercado, enquanto para o primeiro caso, é incapaz de, sozinho, transformar a realidade mutante, para o segundo caso, só pode fazê-lo de modo livre e autônomo.
Esta mudança de articulação dos conceitos que ocorre na contraposição dessas convenções é muito importante para compreender o processo de inflexão epistemológica dos “homens práticos” brasileiros, uma vez que, conforme KUHN (2006), é um requisito fundamental na substituição de um paradigma por outro. O que estaria faltando seria somente uma grave crise passada pelo paradigma vigente. É
Portanto, optando em fixar o núcleo irredutível do pensamento desenvolvimentista na teoria do desenvolvimento periférico de Prebisch e da Cepal não se quer reduzir esta como representante de uma forma de pensamento homogênea, na qual todos os pensadores filiados nesta corrente tenham a mesma leitura sobre os problemas e as soluções para o desenvolvimento dos países subdesenvolvidos. Até porque só se é capaz de fazer o esforço analítico de apreender uma base teórica de toda uma corrente heterogênea de pensamento uma vez que já decorreram anos de seu apogeu e declínio hegemônico. “A coruja de Minerva levanta vôo ao cair do crepúsculo”.
exatamente esta que se analisará neste momento. Primeiramente, a crise internacional. Num segundo momento, a crise doméstica desencadeada pela primeira.