Capítulo 3 – Vão passar o trator em cima da minha casa: temporalidades e mobilizações por
3.3 O tempo das mobilizações por moradia
3.3.4 Mandados de intimação - a casa está em jogo
Na segunda-feira fui para Jundiapeba logo cedo para acompanhar a entrega do ofício.
Durante o trajeto, Márcio me enviou uma mensagem dizendo que não estaria conosco, pois não conseguiu dispensa no trabalho. Liguei para Gisele, que disse para passar na casa dela para irmos juntas. Quando cheguei em sua casa, não havia ninguém. Logo a avistei do outro lado da rua: “Eu estava na casa da Joana carregando o celular, porque tô sem energia aqui”. Pediu para que a filha de 11 anos cuidasse das crianças enquanto ia resolver a situação. Entramos no meu carro e fomos para a rua na qual Márcio combinou de encontrar o técnico CTEEP.
Avistamos quatro pessoas que entregavam os ofícios. Estacionei o carro e fomos em direção a eles. Eram dois homens, vestidos de camisa preta e calça escura, sem nenhuma identificação e duas mulheres, que usavam um crachá de identificação de oficiais de justiça.
Nós nos apresentamos. Um dos homens disse ser da CTEEP e que estavam apenas
“acompanhando as oficiais de justiça” e que “os ofícios não tinham nada a ver com a empresa”.
Perguntei para eles qual era o conteúdo desse ofício e a oficial de justiça me respondeu tratar de um mandado de intimação nominal aos moradores para uma audiência no mês julho sobre as reintegrações de posse requeridas pela empresa. Pedi para ver o ofício e ela me entregou uma cópia. Perguntei sobre a quantidade de famílias envolvidas nesse processo e eles responderam que 230 famílias receberiam esse documento.
Aproveitei a interação com os técnicos para questionar o cadastramento, se havia alguma relação com a entrega dos ofícios, ao que me respondeu: “o cadastramento foi outra coisa, que era uma atualização para o congelamento da área. Não tem a ver com esse ofício”.
O rapaz começou a explicar sobre os riscos que as famílias corriam ao morarem nessas áreas, evidenciando aspectos técnicos como a metragem permitida para construções em torres com tal voltagem. Falou também sobre a preocupação da empresa com acidentes que poderiam comprometer a capital reputacional da empresa. Citou os casos em Brumadinho e Mariana como exemplos dos riscos que a CTEEP corria ao manter as famílias na localidade.
Enquanto conversávamos, um grupo de mulheres se aproximou de nós e uma delas disse: “ô moça, a gente tá aqui tentando ouvir a conversa de vocês para entender o que tá acontecendo”. Nisso os técnicos da CTEEP e as oficiais de justiça se afastaram e continuaram a entrega dos documentos. Gisele e eu continuamos a conversa com as mulheres. Nessa conversa Gisele já se mostrou mais à vontade64. Com as mulheres, Gisele assumiu seu lugar de liderança, argumentando que “agora a empresa tá entrando com um novo pedido de reintegração de posse, a população precisava se unir, ir às reuniões, porque as remoções acontecem aos poucos para enfraquecer a luta”.
Uma das mulheres estava com um copo americano na mão, contendo uma bebida alcoólica. Segundo ela: "desde o dia em que eu soube dessa história de perder a casa, eu não passo um dia sem beber”. Gisele respondeu ser difícil mesmo, que desde que perdeu a casa, toma remédio controlado para depressão e ansiedade. Gisele lembrou-se do Seu João, que
64 Lendo os meus diários de campo, questionei a minha atuação em campo neste dia. Diante da minha ansiedade
e aflição com a situação, considero que interferi demasiadamente nas possíveis interações.
também teve a casa removida e, após o evento, teve dois acidentes vasculares cerebrais (AVC).
Gisele fez questão de recontar às mulheres o caso do filho que quase foi levado pelo Conselho Tutelar após a remoção, por conta da foto dele deitado em frente à fogueira. Gisele as convidou para a reunião agendada para o dia 31 de maio na igreja. Elas confirmaram presença e se comprometeram a convidar os vizinhos.
Decidimos andar pelo bairro para convidar outras pessoas para essa reunião. Paramos para conversar com uma mulher, que estava sentada em uma cadeira de plástico em frente ao barraco de madeira. Era uma mulher bem magra, de batom vermelho, que tirava pelos da sobrancelha com uma pinça, se olhando em um espelho de mão. Gisele a conhecia, então logo começou a conversa brincando “olha, tá aí se arrumando!” e logo perguntou se a mulher recebeu o papel. Ela respondeu que sim. Gisele falou sobre a reunião do dia 31 e a importância das mobilizações, pois a situação que ocorreu com ela no ano passado poderia se repetir.
Virando a rua vimos uma roda formada por quatro mulheres65, em frente a outro barraco de madeira. As convidamos também para a reunião e conversamos um pouco sobre a situação, sobre a audiência e a possibilidade de remoção. Do outro lado dessa mesma rua havia uma mulher encostada na porta de sua casa, que Gisele também conhecia. Logo que nos aproximamos, a mulher iniciou a interação com o relato sobre o dia do cadastramento. Segundo ela, os técnicos perguntaram um tanto de coisa sobre a sua família, além de terem fotografado a fachada da casa. Agora, com a intimação nas mãos, estava muito preocupada de perder a casa. Novamente Gisele reafirmou a importância de participarem das reuniões, “para não acontecer com vocês o que aconteceu comigo”.
É possível afirmar que, entre as moradoras, Gisele assume um protagonismo e legitimidade enquanto representante da luta por moradia. Em suas interações, relembra a remoção ressignificando a sua experiência. Ou seja, de que o sentido de sua experiência serviria para que outras pessoas não vivenciassem a mesma tragédia que viveu. Apresentava a importância da luta e de participar das reuniões como forma de impedir que a remoção ocorresse. Gisele se coloca como uma liderança pela necessidade, ou seja, foi o conjunto de situações que ocorreram em sua vida, em especial a situação da perda de casas, que fez com que ela se tornasse protagonista desse tipo de luta. Ao mesmo tempo, nunca teve o interesse em participar de movimentos organizados de luta por moradia, “porque eles não estiveram aqui
65 Mesmo sem ter deixado explícito uma para a outra, Gisele e eu buscávamos as mulheres para conversar.
quando mais precisamos”. Neste sentido, Gisele acreditava que eram as pessoas que realmente estavam envolvidas nas remoções que deveriam se juntar para lutar pelas suas casas, embora acreditasse na importância da ação de parlamentares, militantes e apoiadores, que se materializava na formação Movimento Jundiapeba por Moradia.