5. CAPÍTULO II:
5.2 MANDAMENTOS IMORAIS
Para o crente ou o filósofo crente, a morte de Deus provoca o colapso de todo o sistema do mundo. Já para o gottlos – o liberado de Deus, aquele que não é meramente o ateu, mas o que se livrou das amarras que a ideia de Deus representa para a razão e para a vida como quem se livra de um fardo –, a morte de Deus é o anúncio de um mundo novamente habitável, em cujas paragens a vida pode se tornar novamente mais intensa, mas também mais perigosa, mais grave. E o grande desafio que ele deve enfrentar após a morte de Deus não é outro senão o desafio do tempo, da mortalidade (...)
(WEBER, 2011, p.229-230) 1º mandamento: Afaste-se da praça pública.
Zaratustra, ele mesmo um espírito livre, cometeu esta estupidez ao descer da montanha após sete anos de solidão humana e aprendizagem: dirigiu-se à multidão.
“E como me dirigia a todos, não falava a ninguém. (...) Que me interessam a praça pública, o populacho e as orelhas compridas do populacho?” (ZA IV, Do homem superior 1)
Atribui-se nessa época companheiros noturnos que eram ‘cadáveres’ – novamente uma metáfora corporal –, referindo-se a pessoas mortas em vida: impotentes, sofredoras, carentes; ideais da virtude cristã. Ele mesmo assume que “mais parecia um cadáver”, ou seja, um cristão; melhor ainda, um sacerdote ou pastor cristão, que prega às massas. O populacho, além de não acreditar no homem superior, crê que todos os homens são iguais. As orelhas compridas – outra metáfora corporal – aludem à deficiência dos homens do povo, que querem ouvir tudo, independente da qualidade do que seja anunciado, como se fossem “corcundas às avessas”, aos quais falta tudo exceto as orelhas em excesso; alude também aos “asnos” ou “jumentos”, metáfora presente em outros capítulos da mesma obra – como na “Festa do Jumento” –, que costumam dizer “sim” a tudo, sem filtrarem ou escolherem por conta própria, preferem servilmente aceitarem, serem dominados. Essa perspectiva cristã claramente se assenta em um valor que a engendra: Deus existe. Se Deus existe, os homens são todos iguais perante ele.
Nesse jogo genealógico de escavar a não-universalidade dos valores, o valor que engendrou um conjunto de valores, Nietzsche
subverte as crenças arraigadas mediante uma ‘interpenetração agonística’ entre perspectivismo e genealogia: esta perscruta o fundamento e a linhagem de um valor; aquele relaciona este valor a outros valores e a certa(s) perspectiva(s). O ‘reino de Deus’, valor cristão, engendra posturas sofredoras, ascéticas, e perspectivas que levam à privação da carne, do corpo, da vida. Um povo seguindo essa doutrina de mortificação: mortos-vivos, cadáveres. Pior – ou melhor? – é saber que eles reinavam até o século XX: mudou algo hoje?
“Perante Deus! Porém esse Deus morreu; e perante o populacho nós não queremos ser iguais. Homens superiores, fugi da praça pública!” (ZA IV, Do homem superior 2)
A igualdade, em vez de benéfica e almejada, é depreciada e considerada um dos maiores malefícios já impingidos. O contraponto ao “espírito livre” seria justamente o “espírito cativo”, o qual se contenta em ser igualado, em fazer parte da massa amorfa, manipulável e alienada das “verdadeiras intenções”. Nas três transformações do espírito, o leão – 2ª transformação – aparece para quebrar o dever, o “você deve” imposto por toda cultura e tradição. Quando um homem se dilui no povilhéu, na turba, na multidão, ele abdica de seu leão, renunciando às suas escolhas, ao seu querer, à sua vontade, para permanecer nesse camelo coletivo, que apenas recebe passivamente e carrega por longos prados e desertos os pesos da “tradição moral”. Um espírito assim jamais será libertador ou livre; é cativo, preso, pesado, controlado, servil, dócil, submisso, passivo, paciente, dominado: qualidades enaltecidas pela moral cristã; defeitos ridicularizados por Zaratustra.
2º mandamento: Deus morreu! Para que viva o além-do-homem, o homem superior – espírito livre – deve se tornar dominante.
Se a genealogia derivada do valor cristão “o reino de Deus” conduz – e etimologicamente “educar” é “conduzir” – invariavelmente à mortificação do corpo e da vida, outras perspectivas só germinarão após a subversão desse monumento engendrante, gerador. Monumento mais perigoso para qualquer liberdade espiritual – e, por hiperonímia, também corporal. É isto o que Zaratustra prega, uma pregação repleta de riscos e imprevistos: Deus morreu! Porém, para que não reine mais o populacho, o homem superior deve assumir o comando, preparando o terreno para o “além-do-homem”. Se o espírito livre é a ponte que conduz ao superar humano, nada impede de se inferir que o espírito livre é um homem superior – e até vice-versa. Só um espírito livre é capaz de se livrar desse fardo, de assumir o paganismo do ser e da vida, expresso
no mito trágico e nas experiências dos mistérios, cultos e vivências dionisíacas.
(...) até o excesso de forças plásticas, curativas, reconstrutoras e restauradoras, que é precisamente a marca da grande saúde, o excesso que dá ao espírito livre o perigoso privilégio de poder viver por experiência e oferecer-se à aventura: o privilégio de mestre do espírito livre! (...) uma pálida, refinada felicidade de luz e sol que lhe é peculiar, uma sensação de liberdade de pássaro, de horizonte a altivez de pássaro, um terceiro termo, no qual curiosidade e suave desprezo se uniram. (HH, Prólogo 4)
Só ele pode se colocar acima da “crença nos governantes” (ABM 34), a ponto de falar: “Avante! Também a nossa velha moral é coisa de comédia!” (GM, Prefácio 7) A antítese que aparece ao ideal cristão, Cristo crucificado, símbolo da abdicação e do sofrimento; é o espírito livre: Zaratustra, um sem-deus, pagão, transformador, entusiasta e dançarino. Este é, realmente, um espírito livre; aquele, um espírito atado. O espírito livre, experienciador e aventureiro por natureza, consegue ver em si e abaixo de si múltiplas possibilidades – e perspectivas. Consegue ter pés ligeiros para elevar seu coração a uma sensação de liberdade alada: coração e espírito livres, enfim.
“Homens superiores! Somente agora dará à luz a montanha do futuro humano. Deus morreu: agora nós queremos – que o além-do- homem viva.” (ZA IV, Do homem superior 2)
3º mandamento: Não se pergunte ‘como se conserva o homem?’, mas sim ‘como se supera o homem?’
Se para os valores cristãos deve-se haver preocupação com o homem: o próximo, o mais pobre, o mais angustiado, o melhor e outros; para os “novos valores”, apenas para o “além-do-homem” a preocupação deve se dirigir. Se para os dominantes atuais é lícito conservar a situação como está (pelo maior tempo possível), inclusive o “estado espiritual” – e corporal – humano em que se encontra; para os espíritos livres a mudança já demorou, está mais do que na hora de destruir valores antigos para que novos surjam: esse é o papel da “superação” – inclusive e especialmente do homem mesmo.
Um ‘espírito livre’ – esta fria expressão faz bem nesse estado, aquece quase. Assim se vive, não mais nos grilhões de amor e ódio, sem Sim, sem Não, voluntariamente próximo, voluntariamente longe, de preferência escapando, evitando, esvoaçando, outra vez além, novamente para o alto; esse homem é exigente, mal-acostumado, como todo aquele que viu abaixo de si uma multiplicidade imensa – torna-se o exato oposto dos que se ocupam de coisas que não lhe dizem respeito. De fato, ao espírito livre dizem respeito, de ora em diante, somente coisas – e quantas coisas! – que não mais o preocupam... (HH, Prólogo 4)
Para este, o que é digno de amor no homem é ele ser uma ponte, uma finalidade, uma transição para algo superior. Para aqueles, que se tornaram senhores, a pregação da renúncia, da modéstia e da serenidade deve permanecer, para que continuem se assenhorando do destino humano – essa espécie feminil, turba plebeia de condição servil.
“Ó, irmãos, superai esses senhores do agora, – essas pessoas pequenas: elas são o maior perigo para o além-do-homem.” (ZA IV, Do homem superior 3)
4º mandamento: Tenha algum valor – não aquele valor perante testemunhas, mas valor de solitário, valor de águia: daquele que não tem nenhum deus por espectador.
Zaratustra, ao falar de valor, recorre a metáforas ilustrativas. Primeiro o solitário, já tratado anteriormente, o que foge das multidões, o que se recolhe a seu silêncio profundo para ouvir o próprio corpo, a terra, a vida. Em seguida a águia, com sua simbologia da coragem de alcançar grandes alturas, da independência para voar com suas próprias asas, da altivez e arrogância para conhecer o medo, porém o dominar. No Tzolkin, calendário ‘espiritual-agrícola’ – sinal de proximidade entre o espírito e o terreno – sagrado dos maias, civilização à parte da convencional “tradição ocidental”, a águia (em Yukateko: men) apresenta-se como uma das vinte forças (ou energias) solares-telúricas que influenciam os seres – inclusos os humanos, obviamente –, simbolizando a criação, a visão ampla e a razão ‘maior’: três termos de extrema força e presença nas analogias de Nietzsche: o criar, o aprender a ver e a ‘grande razão’. Fora a relação que tal símbolo tem, para os maias, com o poente, os lugares altos – montanhas, por exemplo –, a
solidão e a coragem; Zaratustra permaneceu dez anos no cume montanhoso – intrépido e só – e depois desceu da montanha; o que ele valoriza no homem é ser um “poente”; os maias foram uma das civilizações mais conectadas com os ciclos naturais e com o meio- ambiente; meras “coincidências”? Olhar o abismo com orgulho, prender-se ao abismo com garras fortes como as da águia: é preciso muita intrepidez para isso – a perspectiva de um ser alado: “liberdade de pássaro, panorama de pássaro, desenvoltura de pássaro” (HH, Prefácio 4). E não é um valor a la Cristo crucificado que é capaz de tal façanha; somente um valor tão forte a ponto de assumir toda tragicidade e caoticidade da vida e do mundo: um valor dionisíaco.
Usa ademais a metáfora do ‘coração’: enquanto os espíritos livres o têm em larga escala, os “cegos, bêbados e os de alma fria” não o possuem. O coração, além da acentuada associação com todo sentir e desejar, é o bombeador de sangue, este uma das metáforas prediletas de Zaratustra e Nietzsche: é recomendável se escrever com sangue, falar com sangue, saber que o espírito é sangue. ‘Alma fria’ adjetiva os crentes em além-mundos, os desprovidos de sangue, para os quais o dualismo alma x corpo, criado pela metafísica ocidental e “fabulado pelo Cristianismo” (MARTON, 2012, p.2-3), tornou-se essencial e irreconciliável. A ‘cultura moderna’ cooperou com isso, o que foi (ou será) visto em outro capítulo desta dissertação. Conforme tratado no capítulo anterior, a alma, para Zaratustra, “é o nome de alguma coisa do corpo”, então os de ‘alma fria’, por extensão, também – muito provavelmente – têm o corpo frio (fraco, débil, tísico, sem calor). ‘Cegos’ adjetiva aqueles que não podem, não conseguem ou não aprenderam a ver; o ‘aprender a ver’ é tarefa indispensável de uma formação ou cultura (Bildung) elevada no “Crepúsculo dos Ídolos”, de 1888, especialmente no capítulo “O que falta aos alemães”. Neste mesmo capítulo, Nietzsche alega que em nenhum outro lugar (referindo- se a Alemanha) foram usados mais abusiva e viciosamente os dois grandes narcóticos europeus: álcool e cristianismo. No Brasil esses narcóticos não embebedaram muita gente também? O léxico escolhido é de uma precisão incrível: “narcótico”, sinônimo daquilo que amortece – ou mortifica? – os sentidos (leia-se aqui o corpo, os instintos, as pulsões), causando apatia, indolência, prostração. – será mera coincidência a aproximação dos efeitos da bebida aos do cristianismo? Não custa lembrar ademais que a industrialização e consequente mercadorização e distribuição das bebidas alcoólicas ocorreram na “modernidade”. “Bêbados” remete analogicamente ainda aos cambaleantes, que não conseguem andar bem por sua própria conta, ou
seja, incapazes de voar, de se libertar; pois para voar é necessário primeiro andar, para depois correr, saltar, dançar e – finalmente – poder alçar voo.
5º mandamento: O mal é a melhor força do homem, por isso o maior mal é necessário para o maior bem.
Se a religião cristã, por meio do apóstolo Paulo de Tarso, veio anunciar o reino de Deus; por meio de uma “genealogia da moral”, ela veio impor o reino dos fracos e oprimidos. Se para a cultura grega clássica, “bom” e “bem” eram valores aristocráticos associados à nobreza, beleza e verdade; para a cultura cristã, “bom” e “bem” tornam- se valores mais religiosos do que políticos, mais espirituais do que estéticos, passando a se associar a pobre, compassivo, piedoso, humilde, carente, impotente. Se para os crentes a cultura cristã veio salvar a humanidade, para Zaratustra ela veio degenerar os impulsos vitais. Se para os crentes ela é salvadora, para Zaratustra ela é ressentida, vingativa, decadente. Se para os crentes ela é boa, para Zaratustra ela é má. Apurando os mecanismos de aparição dos valores, Nietzsche verte – para não dizer converte, reverte, inverte – a interdição de questioná-los. Bem e mal, assim como bom e ruim, não são mais eternos, imutáveis, perenes, perpétuos, universais. E não basta dizer que são relativos, referentes, contingentes. Eles são mais do que isso: são ‘perspectivos’, termo emprestado das artes pictóricas, que significa uma representação onde há uma ilusão de espessura e profundidade, pois o que está em 1º plano parece bem maior do que aquilo que está em 2º plano. Um ver perspectivo é, assim, um ver valorativo, no qual se atribui maior importância, significado ou valor a algo (1º plano) em detrimento de outro(s) algo(s). É, ainda, alegórico: ilusório, fictício; uma – e não “a” – imagem, hipótese; a ‘vista de um ponto’.
Quiçá essas conjecturas auxiliem no entendimento – pela grande ou pequena razão? – deste mandamento. Enquanto o maior mal para os espíritos cativos é duvidar da existência de – um único – Deus; esse mal para eles é o maior bem para os espíritos livres. Uma das múltiplas interpretações possíveis para “O maior mal é necessário para o maior bem”. Mais uma vez alguns vocábulos são distorcidos, retorcidos, até sua ressignificação: no caso, para o “bem” e para o “mal” – ou para além deles? Quanto mal o “pecado original” não impingiu aos “santos”, homens e “pecadores”? Quanto mal a culpa por pecar – desde a origem – não introjetou nos homens – inferiores e superiores? Quão bem não fizeram – aos espíritos livres ou a toda a humanidade? – os “filósofos da suspeita”, ao suspeitarem desse bem cristão, do pecado original e da
culpa subsequente? Quanto mal esses mesmos filósofos não fizeram ao Cristianismo? Afinal, bem e mal, genealogicamente falando: questão de valor! Ou melhor, de valores...
Cumpre discutir, mesmo que brevemente, uma confusão frequente e corrente desse mandamento: considerando o maior mal como necessário, imprescindível, deduz-se que então é lícito, para Nietzsche, cometer qualquer crime ou delito; mais do que lícito, é bom, é indicado. Deixo a resposta nas palavras do próprio filósofo:
Assim, nego a moralidade como nego a alquimia, ou seja, nego os seus pressupostos; mas não que tenha havido alquimistas que acreditaram nesses pressupostos e agiram de acordo com eles. – Também nego a imoralidade: não que inúmeras pessoas sintam-se imorais, mas que haja razão verdadeira para se sentir assim. Não nego, como é evidente – a menos que eu seja um tolo –, que muitas ações consideradas imorais devem ser evitadas e combatidas; do mesmo modo, que muitas consideradas morais devem ser praticadas e promovidas – mas acho que, num caso e no outro, por razões outras que as de até agora. Temos que aprender a pensar de outra forma – para enfim, talvez bem mais tarde, alcançar ainda mais: sentir de outra forma. (A II 103)
As pressuposições da imoralidade, assim como as da alquimia, são negadas. As suposições prévias necessárias para a existência de um “sentir-se imoral”, isso que é recusado. Quais seriam essas pressuposições? Uma delas, senão a principal: o agir “mal” – provocando culpa e ressentimento por infringir o “bem”. O problema é que não é contra “o” bem, mas contra “um” bem: não é divino, transcendente, sublime, superior; pelo contrário, foi construído, fundamentado e transmitido por uma valoração moral, até ser “naturalizado”. Ora, esse agir “mal” não é universal, não é válido em qualquer local e circunstância, só se torna mal frente a preceitos morais considerados “bons”, quer dizer, frente a um conjunto de valores genealogicamente construídos e impostos. Dessa forma, a culpa e o ressentimento – aliás dois sentimentos típicos da valoração cristã, associados fortemente à dor incrustada aos homens no nascimento via pecado original – não têm qualquer razão oriunda de uma divindade ou
princípio superior, mas sim têm uma história e uma proveniência humanas, demasiado humanas.
As chamadas virtudes cristãs – o altruísmo, o amor ao próximo, a má consciência, além, obviamente, da culpa e do ressentimento – são dissecadas: elas não são mais sagradas, tornaram-se profanas; não são mais intocáveis, tornaram-se vasculhadas; não mais divinas, agora divinamente humanas; não mais transcendentes, agora imanentes, incorporadas. Se negar o pressuposto da Língua Portuguesa – o de que há uma (e somente uma) Língua Portuguesa – não significa apoiar que se ensine qualquer língua; da mesma forma negar os pressupostos do “sentir-se imoral” não significa apoiar qualquer ação imoral. Se negar seus pressupostos de forma alguma significa apoiar ações desumanas ou atrozes; então essas ações devem ser evitadas e – até – atacadas; porém, por razões outras – grandes ao invés de pequenas? – que as de até agora. Assim, quem sabe, consigamos pensar de maneira distinta – com o corpo? – para, depois, sentir de maneira distinta. Marcuse, quase cem anos depois, e não obstante sua perspectiva diferente ao idear instituições e relações socialistas – projeção com a qual Nietzsche definitivamente não compactuou –, escreveu sobre essa transformação que deveria ocorrer:
Mas, nessa transição, a emancipação dos sentidos deve acompanhar a emancipação da consciência, envolvendo assim a totalidade da existência humana. Os próprios indivíduos devem mudar em seus próprios instintos e sensibilidades se quiserem construir, em associação, uma sociedade qualitativamente diferente. (MARCUSE, 1981, p.76)
6º mandamento: Não ame o próximo, ame o distante.
Nem só de crítica e corrosão vive a filosofia nietzscheana. Uma das partes mais controversas – senão indecifráveis por completo – de seu legado é a vertente afirmativa ou construtiva de sua filosofia. Afora os dilemas, algo é consensual: a criação de novos valores – bem como a transvaloração dos valores atuais – está contida nessa vertente. E para edificar novos valores, necessita-se de um homem que ainda não há: o além-do-homem. O afastado ganha, nesse contexto, um aspecto projecional: é desse tipo de ser que a humanidade precisa para se elevar. Numa espécie de paródia, típica do estilo zaratustriano, o mandamento bíblico “Ame ao próximo...” é invertido – ou convertido? Ou revertido?
– para algo bem mais “benéfico”: o amor ao criador de novos valores, ao superador do ser como ele se encontra hoje; resumindo: ao distante. Melhor do que amar o homem de hoje: fragmentado, carregado, insensível, destroçado, aniquilado pela moral. Afinal, o espírito livre caracteriza-se justamente por não pensar de forma alguma como o grupo, o conjunto humano pensa. Até de sua tradição ele, após conhecê- la e carregá-la, desfaz-se. Caracteriza-se ainda por não agir como esperam que ele aja; por não compactuar das opiniões e crenças arraigadas em seus “próximos”. Ele não segue regras. Só a si mesmo. Ele não ama esses homens próximos, amontoados. Ele ama o que supera esse próximo, que vai além, mais para o alto. Ele ama o distante. O mais alto. O superior. Um espírito livre. Um pássaro. Distante do homem de hoje. Distante do próximo. Além do humano. Trans-humano. Ultra- humano. Supra-humano.
O espírito livre, um conceito relativo. – É chamado de espírito livre aquele que pensa de modo diverso do que se esperaria com base em sua procedência, seu meio, sua posição e função, ou com base nas opiniões que predominam em seu tempo. Ele é a exceção, os espíritos cativos são a regra; (...) – De resto, não é próprio da essência do espírito livre ter opiniões mais corretas, mas sim ter se libertado da tradição, com felicidade ou com um fracasso. Normalmente, porém, ele terá ao seu lado a verdade, ou pelo menos o espírito da busca da verdade: ele exige razões; os outros, fé. (HH 225)
7º mandamento: Não desvie o raio, deixe-o cegar os homens atuais. Nessa seção, a metáfora predominante é a do “raio” ou “relâmpago”, associada também à forma como o além-do-homem chegará. A ambiguidade do termo expande suas capacidades conversoras, reversoras e subversoras: radiação emitida por uma fonte luminosa, descarga elétrica produzida na atmosfera entre uma(s) nuvem(ns) e a terra. Zaratustra acrescenta que, para o raio deixar de prejudicar, vai ensiná-lo a trabalhar para si. A tempestade que se forma há tempos é comparada ao acúmulo de sabedoria do profeta, cada vez mais tranquila e monótona – aparentemente. O raio, a descarga, a