CULTURA DE CANA-DE-AÇÚCAR NO BRASIL: MANEJO, IMPACTOS
2.1. MANEJO AO LONGO DO TEMPO – ALGUNS ASPECTOS
A cultura de cana-de-açúcar é frequentemente inserida em pro- gramas de melhoramento, visando características de interesse agronô- mico, como resistência a pragas e patógenos, tolerância a herbicidas e aumento no teor de sacarose. Há também uma busca constante por téc- nicas de cultivo menos agressivas ao meio ambiente e ao trabalhador.
Atualmente, o plantio da cana-de-açúcar é mecanizado, e esse tipo de manejo possibilita que, em pouco tempo, grandes áreas sejam
plantadas em um período relativamente curto. Além disso, promove me- lhores condições aos trabalhadores e ganhos econômicos. Entretanto, falhas nos cultivos de cana-de-açúcar são muito mais frequentes com o uso desse tipo de técnica. Isso ocasiona prejuízos significativos na pro- dutividade, além do alto número de colmos utilizados, atingindo níveis superiores a 20 t/ha. Muitos desses colmos poderiam ser destinados à indústria, e essa prática também aumenta o risco de difusão de pragas e doenças, dificultando o controle. Assim, foi desenvolvido recentemente o sistema de Muda Pré-Brotada (MPB) (Figura 1) com objetivo de reduzir o volume de colmos por hectare, melhorar o controle na qualidade de vigor e sanidade das mudas, resultando em canaviais mais homogêneos, com melhor distribuição espacial das mudas e melhoria na operaciona- lidade do plantio (LANDELL et al., 2012). Nesse sistema, a construção e manutenção de viveiros são necessárias para a multiplicação de mudas; é um método simples que pode ser adotado por pequenos produtores e associações, não ficando restrito às usinas. E isso proporciona fontes di- ferenciadas de renda para as comunidades agrícolas.
FIGURA 1. Cultivo de cana-de-açúcar usando o sistema de Muda Pré-Brotada.
Além do plantio, a colheita também está sendo mecanizada em muitas áreas de cultivo. Nas décadas de 1950 e 1960, acompanhando a revolução mundial ocorrida na agricultura, o setor sucroalcooleiro apresentou grande avanço, estimulando práticas culturais para facilitar o manejo e reduzir a mão de obra (RESENDE et al., 2006). A colheita da cana-de-açúcar foi durante muito tempo manual, onde a queima da palha era imprescindível (ARAÚJO et al., 2004) (Figura 2). Aliado à de- manda de novas práticas de manejo, ações de entidades ambientais no estado de São Paulo culminaram na Lei n0 11.241, de 19 de setembro de 2002. Essa lei trata da queima controlada da cana-de-açúcar para des- palha e de sua gradual eliminação, e exige um planejamento que deve ser entregue, anualmente, à Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (CETESB), a qual tem como objetivo adequar as áreas de produção ao plano de eliminação de queimadas (ROSSETTO, 2016).
FIGURA 2. Queima e corte manual da cana-de-açúcar. Imagens: Luiz Carlos de Almeida.
A colheita mecanizada da cana-de-açúcar também ajuda na elimi- nação de ervas daninhas do canavial. A palha mantida sobre o solo im- pede a germinação e o estabelecimento de espécies com poucas reservas armazenadas na semente, o que diminui a dependência de herbicidas (FERREIRA et al., 2010; SANTIAGO; ROSSETTO, 2016). A cobertura do solo pela palha traz muitos outros benefícios para o meio ambiente, saúde da população e aspectos econômicos. Por outro lado, se discute que a manutenção da palha no cultivo ocasiona o aumento de pragas, especialmente de Diatraea saccharalis.
Dentre os insumos utilizados na lavoura de cana-de-açúcar, os herbicidas correspondem a uma grande parcela do custo da produção total. Um tratamento com herbicida aplicado na cultura da cana-de- -açúcar colhida pelo sistema de queima da palhada custa, em média, de US$25 a 60 por hectare (MACHADO; HABIB, 2009). Além disso, cerca de 10 a 15 toneladas de palha picada por hectare podem ser utilizadas como fonte de alimentos para animais ou como combustível na cogera- ção de energia para as próprias usinas e destilarias, que ainda vendem o excedente. A queima do bagaço gera a produção de bioeletricidade, que é uma das atividades da indústria sucroenergética mais significativas e com maior potencial de crescimento no setor (UNICA, 2016).
Ainda na cadeia produtiva sucroalcooleira, têm-se a liberação de líquidos susceptíveis à fermentação, que formam um vinho. Destilando- se esse produto, recupera-se o etanol, mas é formada uma grande quan- tidade de um resíduo denominado de vinhaça (veja Capítulo 4). Em 2014, foram gerados no Brasil cerca de 280 bilhões de litros de vinhaça, e 97% desse volume foram usados na própria lavoura.
vinhaça: líquido derivado da destilação do vinho, que é resulta- do da fermentação do caldo da cana-de-açúcar ou melado (NT. CETESB P4.231/2006)... Resíduo sólido Classe II-A não perigoso e não inerte (ABNT 10.004).
FIGURA 3. Fertirrigação com vinhaça em cultivo de cana-de-açúcar no estado de São Paulo.
Quando a vinhaça é aplicada no solo, altera as características edá- ficas do mesmo, promovendo modificações em parte de suas proprie- dades químicas, uma vez que altera o pH e os teores de potássio trocá- veis (SILVA et al., 2014), o que favorece o aumento da disponibilidade de alguns elementos para as plantas (SILVA et al., 2007). Também é uma alternativa econômica, pois as indústrias sucroalcooleiras gastam me- nos com adubo (SILVA et al., 2015). Entretanto, esse subproduto pode contaminar corpos d’água (LUNA; COUTINHO, 2008; PREVITALI, 2011) e, quando em excesso, causa diversos tipos de impactos ambien- tais (CHRISTOFOLETTI et al., 2013). Por outro lado, o seu descarte no solo é a alternativa menos poluente (GRANATO, 2003; LAIME et al., 2011). Estudos relacionados à lixiviação e contaminação de águas subterrâneas pela reciclagem da vinhaça mostram que não há impac- tos danosos quando as aplicações são inferiores a 300m3/ha (LIBONI; CEZARINO, 2012).
As modificações das propriedades físicas do solo por meio da apli- cação da vinhaça podem ocorrer de duas formas: (1) melhorando a agre- gação das partículas, capacidade de infiltração da água, lixiviação de íons e contaminação das águas subterrâneas; e (2) promovendo a dispersão de partículas do solo, com redução da taxa de infiltração de água e elevação do escoamento superficial, com possível contaminação de águas super- ficiais. Como há diferentes tipos de solo e composições de vinhaça, os resultados das pesquisas são bastante variáveis. Entretanto, é necessário levar em conta que sua distribuição deve ser feita de acordo com a capa- cidade do solo em trocar e reter íons (SILVA et al., 2007).
A fertirrigação por vinhaça no estado de São Paulo atende à norma técnica P4.231/2006 (Vinhaça – Critérios e procedimentos para aplica- ção no solo agrícola) da CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo), que é uma agência ambiental vinculada à Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Essa norma regulamenta a aplicação da vinhaça em vários aspectos: áreas de risco (proibição), dosagens permitidas e tecnologias de produção. Uma das exigências é manter concentrações de potássio pré-estipuladas em função do tipo de solo e variedade de cana-de-açúcar; a outra é em relação aos tanques de armazenamento e drenos que devem ser impermeáveis, impedindo contaminação dos solos e águas.