O desmatamento associado à des- valorização da floresta pela exploração desordenada vai continuar na Amazô- nia se a floresta não for reconhecida como um recurso valioso, ao invés de uma área de terra destinada a outros usos associados ao desmatamento. O potencial da floresta amazônica para produzir alimentos, fibras e remédios, assim como madeira, é grande, sem fa- lar na influência da floresta no clima regional e global. Deve levar algum tempo para que haja comercialização dos Produtos Florestais Não Madeirei- ros (PFNM), contudo, o uso da flores- ta já apresenta uma possibilidade tan- gível para desenvolver uma economia sustentável baseada na exploração e no manejo florestal com fins madeireiros.
Figura 6. Possibilidade de expansão da
fronteira madeireira a partir dos custos de transporte de toras.
A maior parte das discussões so- bre manejo florestal vem associada aos problemas das florestas de terra firme, em áreas onde a exploração segue estradas abertas a partir das rodovias Belém-Brasília e Belém- Marabá e no Sul do Pará (região de exploração de mogno). Nesta seção, daremos mais atenção ao manejo na várzea e no baixo rio Amazonas.
As florestas de várzea do estuá- rio oferecem vantagens para o manejo por uma série de razões. Primeiro, por- que elas são mais simples floristicamen- te (em comparação às florestas de terra firme) e mantêm um bom estoque de madeira. Segundo, as árvores da vár- zea crescem mais rápido que as de ter- ra firme (talvez duas vezes mais rápi- do, em média). Finalmente, os danos
causados na copa das árvores, nas ár- vores jovens e no chão da floresta, pela exploração de madeira na várzea, são bem menores do que em terra firme. Isso se deve à menor freqüência de ci- pós na várzea, em comparação a terra firme, e à ausência de máquinas pesa- das durante a exploração - na várzea, o processo de arraste das toras é ma- nual, enquanto na região de terra firme utilizam-se caminhões e tratores.
A mudança da forma atual de uso da floresta, na qual se faz um tipo de garimpo de madeira, para uma explo- ração manejada e sustentável, exige ba- sicamente três pré-requisitos. O primei- ro é o maior conhecimento sobre como manejar a floresta. Os outros dois são a garantia da posse da terra para os mo- radores e o desenvolvimento de um sis- t e m a e f i c i e n t e d e f i s c a l i z a ç ã o e monitoramento. Por fim, para incenti- var a adoção desse novo programa de produção de madeira, recomendamos a reabertura da exportação de toras a fim de valorizar esse produto.
A população do estuário e do bai- xo Amazonas vive na região há gera- ções e acumulou saber sobre a floresta e sua dinâmica. Os ribeirinhos preci- sam apenas de treinamento em inven- tário, derrubada e arraste orientados para tornarem-se verdadeiramente ap- tos para o manejo da floresta.
O segundo pré-requisito para va- lorizar a floresta e obter benefícios do seu uso é garantir para as comunida- des de moradores a posse de grandes áreas de floresta. Em regiões de explo- ração mais antiga, tal como a da rodo- via Belém-Brasília, as indústrias têm
suas áreas de exploração e suas própri- as equipes. No estuário e no baixo Amazonas, para a população entrar no ramo madeireiro, seguindo as exigên- cias do manejo florestal, será impres- cindível que elas tenham suas áreas próprias de floresta. Através de contra- tos e concessões acordados com o go- verno, os moradores do interior, orga- nizados, podem empregar o manejo flo- restal e vender madeira para as indús- trias. Através do manejo, a exploração madeireira pode ser contínua, servin- do às comunidades como uma impor- tante fonte de renda e chance de parti- cipação na economia regional. Além de promover a conservação de uma por- ção de floresta e contenção da expan- são da fronteira de desmatamento. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e o Instituto de Terras do Pará (Iterpa) têm autori- dade para garantir a posse de terra aos moradores do interior. Com a seguran- ça da posse da sua terra, esses mora- dores podem investir tempo e dinheiro na implementação de técnicas de ma- nejo florestal.
O terceiro passo para implemen- tar um novo hábito de exploração ma- deireira com manejo é fiscalizá-la e monitorá-la. A adoção do manejo flo- restal é prevista em lei e, para reforçá- la, deve haver um sistema de fiscaliza- ç ã o e f i c i e n t e q u e g a r a n t a a s u a sustentabilidade. Até hoje, os esforços de fiscalização e monitoramento da ex- ploração de quaisquer recursos naturais têm sido amplamente beneficiados pelo poder público. Contudo, a existência de um bom sistema de monitoramento é
essencial para o uso racional da flores- ta. Com a liberação das exportações de toras e a conseqüente concorrência de um maior número de indústrias os pre- ços deverão subir, funcionando como um estímulo para as práticas sustentá- veis de exploração. Mas isso só deve- rá ser permitido se houver boa fiscali- zação para garantir que as toras expor- tadas sejam realmente oriundas de pro- jetos de manejo. Esse mecanismo de concorrência internacional valoriza a produção florestal, dá maior retorno a quem emprega o manejo (pela possibi- lidade de exportação) e deve incenti- var as indústrias locais a melhorarem seu rendimento, uma vez que a maté- ria-prima tornar-se-ía um produto mais caro. O procedimento político para li- beração das toras é um instrumento ju- rídico simples implementado pela Car- teira de Comércio Exterior (Cacex). Contudo, a combinação das sugestões aqui propostas exige um trabalho mai- or, envolvendo pesquisa, projetos de- monstrativos e trabalho comunitário.
As organizações não-governa- mentais, tais como as de certificação de madeira e aquelas voltadas para pesquisa, devem participar tanto da elaboração dos procedimentos bási- cos para aquisição de terras pelas co- munidades como dos sistemas novos d e f i s c a l i z a ç ã o , m o n i t o r a m e n t o e certificação da exportação de toras.
Essas organizações têm um papel im- portante no processo de mudança, de- senvolvendo, por exemplo, sistemas de monitoramento com eficácia com- provada e testada cientificamente em pequena escala. Uma ONG com ên- fase em conservação, experiência em t r a b a l h o c o m u n i t á r i o , p e r í c i a e m questões florestais e madeireiras e boas relações com o governo deve assumir um papel-chave. O primeiro passo seria desenvolver protocolos para o estabelecimento das florestas comunitárias, assim como para o de- senvolvimento de um serviço de ex- tensão florestal, monitoramento da exploração e exportação de toras com “selo verde”. Em seguida, esses ele- mentos devem ser reunidos num mo- delo a ser demonstrado no campo. Sem dúvida, a promoção da conser- vação e do bom uso da floresta, em qualquer parte do mundo, deve seguir um modelo testado por uma organi- zação não-governamental capaz de demonstrar as vantagens e as possi- bilidades de sua implementação. Num terceiro momento, o governo aliado a essa ONG pode adotar, em escala maior, a solução encontrada.
Em resumo, os três passos propos- tos contêm elementos que podem con- tribuir para a redução do desmatamento e melhoria da renda das comunidades locais.
AGRADECIMENTOS
G o s t a r í a m o s d e a g r a d e c e r a David Edelstein, pela ajuda na coleta de dados; Oriana Almeida, pela assis- tência e sugestões de análises econô- micas; Paulo Barreto, John Browder, Johan Zweede e Adalberto Veríssimo,
por comentarem as primeiras versões deste artigo; Flávio Figueiredo, pela confecção das figuras; e à Fundação W. Alton Jones e ao Fundo Mundial para Natureza (WWF), por financiarem esta pesquisa.
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