Com a morte de Álvaro VI em 1641, Garcia II (também chamado por Garcia Afonso II) tornou-se rei do Congo por longos 20 anos e foi o responsável por restaurar a coesão interna do reino, após um período de crises de sucessão e enfraquecimento do poder centralizado. 193 Segundo Anne Hilton, Garcia II mostrou-se bastante hábil para abrandar e resolver fissuras políticas que existiram por vários anos.194 Além disso, registrou-se o fato dele se comunicar muito bem em língua portuguesa.195 Foi durante seu reinado que os capuchinhos iniciaram sua missão no Congo e ao longo do tempo em que aí permaneceram (1645-1835), ocuparam funções políticas importantes para o mani Congo, constituindo por diversos momentos as embaixadas, como representantes do rei do Congo em situações-chave, ora intermediando com outros chefes locais, como por exemplo o mani Soyo, ora com o papado ou com a coroa portuguesa, aí incluídos os governadores de Angola. Por conta da aproximação comercial com os holandeses inicialmente e posteriormente, com a retomada das boas relações com os portugueses, o mani Congo não somente aceitou de bom grado os capuchinhos, como constatou que poderia utilizar-se deles como intermediários entre ele próprio e a coroa portuguesa.
Quando Garcia II assumiu o trono, um de seus maiores desafios era a reorganização do poder interno do reino do Congo. No Soyo por exemplo, com a morte do mani Soyo Miguel em 1641, uma nova sucessão deveria ser feita e o escolhido foi um irmão da principal esposa de Garcia II, Daniel da Silva. No entanto, ele se negou a ir a Mbanza Kongo para a costumeira confirmação, dizendo que tinha sido legitimamente escolhido e que portanto essa confirmação era desnecessária.196 Obviamente, mais do que uma ruptura de tradição, essa negação se apresentava como uma demonstração de poder autônomo do Soyo e de seu lado, o descontentamento do mani Congo em relação a isso.
Por conta deste quadro político, quando o primeiro grupo de capuchinhos chegou ao Soyo em 1645, enfrentaram a situação descrita acima e por isso, ficaram retidos alguns dias antes de partir para Mbanza Kongo. A este respeito, Cavazzi relata:
193 Cf. VANSINA, Jan. Kingdoms of the Savanna, op. cit., p. 142.
194 HILTON, Anne. The Kingdom of Kongo, op. cit., p. 142.
195 Cf. CAVAZZI. Op. cit., v. I, p. 286.
196 HILTON, Anne. The Kingdom of Kongo, op. cit., p. 152; VANSINA, Jan. Kingdoms of the Savanna, op.
“Ele [o mani Soyo], porém, caiu das nuvens e com mil habilidades procurou detê-los. Contou-lhes que o rei do Congo era inconstante, feroz e hipócrita. Estava pervertido pelos Holandeses e só desejava apanhar qualquer religioso que viesse da Europa para sacrificá-lo ao seu mau génio e à impiedade dos hereges. A razão destas palavras, como se conheceu depois, era a profunda inimizade do dito conde com seu soberano. Quinze dias antes da chegada dos nossos travara-se uma grande batalha em que o conde alcançou a vitória; chacinou muitos fidalgos e oficiais do exército régio e capturou o próprio primogénito do rei, trazendo-o com todo o respeito para a sua residência de Sonho”.197
Frente à recusa do mani Soyo, o mani Congo ignorou sua eleição e nomeou seu primogênito, Afonso, entregando-lhe um exército para que ele mesmo tentasse conquistar o Soyo. Travou-se um embate em 29 de Abril de 1645 e Afonso foi derrotado e feito prisioneiro. Depois de saber da batalha, os capuchinhos se predispuseram a seguir a São Salvador e intermediar um tratado de paz entre as duas partes, proposta aceita pelo mani Soyo, Daniel da Silva – ainda que sob advertência da indisposição do mani Congo em relação a qualquer religioso vindo da Europa. Aqui se faz presente uma das primeiras intervenções políticas destes missionários na região, atuação que se mostrou sempre atrelada ao trabalho religioso.198
Segundo Cavazzi, D. Garcia II teria recorrido à ajuda dos holandeses, por intermédio do padre capuchinho Boaventura, para resgatar seu filho que se encontrava detido no Soyo, sob ameaça de guerra caso a liberação não se efetivasse. À negativa do mani Soyo seguiu-se uma nova batalha entre Soyo e Congo, com nova derrota congolesa e a permanência do primogênito do mani Congo, Afonso, como prisioneiro.199
Seguiram-se alguns conflitos, inclusive com interferência dos holandeses a favor do mani Soyo e em 1646, o Soyo teve reconhecida sua independência. Cavazzi atribuiu essa conquista à interferência decisiva dos dois missionários embaixadores Angelo de Valença e João Francisco Romano. Estes, que em 1646, antes de partirem em direção à Europa, tinham também a missão de realizar uma nova tentativa conciliatória entre Soyo e Congo. Desta vez, atingiram seu objetivo, libertando o primogênito do rei congolês, recebido com
197 CAVAZZI. Op. cit., v. I, pp. 283-284.
198 Sobre sua eleição e a batalha advinda, o mani Soyo narra detalhes em: Carta do Conde de Sonho ao Papa Inocêncio X (25-3-1648). BRÁSIO. MMA, v. X, pp. 122-125.
grande festa, procissão e missa, não faltando palavras de devoção por parte de Garcia II, que atribuía o retorno do filho à graça de “Maria Imaculada Mãe de Deus”.200
Como chefe de um reino independente, o mani Soyo Daniel da Silva teve o cuidado de garantir uma comunicação direta com o papado, por meio de carta à Sagrada Congregação de Propaganda Fide e ainda com Filipe IV, rei de Espanha. Nas cartas, de mesmo teor e mesma data, ele agradecia o envio de missionários capuchinhos e solicitava mais padres para salvação “daquelas pobres almas desamparadas”. Não perdia a oportunidade de ressaltar que o Soyo fora o primeiro lugar a tornar-se cristão, graças ao batismo do mani Soyo em 1492, precedendo o do mani Congo.201 Ainda em 25 de março de 1648, Daniel da Silva escreveu ao papa Inocêncio X e detalhou melhor a sua situação em relação ao Congo, assumindo uma posição de vassalo ao rei do Congo, mas esclarecendo a legitimidade com que fora escolhido no Soyo. Acrescentou ainda informações sobre as duas guerras travadas entre ele e o mani Congo e aproveitou para solicitar ao papa uma imagem de Santo Antônio, outra de Santiago e outra do santo de seu nome, São Daniel, além de uma espada bendita para aumento da Cristandade.202
Numa época em que o poder holandês espalhara-se dos dois lados do Atlântico, o mani Soyo enviou ao Brasil dois embaixadores acompanhados de 200 escravos de presente e mais um embaixador para tratar de seus interesses na Holanda. Se isso não garantiu uma oposição mais direta dos holandeses ao mani Congo e conseqüentemente a favor do mani Soyo, ao menos os impediu de ficar deliberadamente contra este último. Vale destacar a importância estratégica do Soyo, nos primeiros tempos de ocupação holandesa, única passagem possível para o comércio de escravos, graças ao bloqueio efetivado pelos portugueses em outras rotas.203
Apesar do reconhecimento da independência do Soyo, alguns pequenos conflitos permaneceram entre ambos os reinos, ou mais especificamente, entre Garcia II e os filhos de seu predecessor, Álvaro VI, que haviam ocupado o poder político no Soyo e onde passaram a se refugiar os opositores de Garcia II.204 De todo modo, a independência do
200 CAVAZZI. Op. cit., v. I, pp. 317-321.
201 Carta do Conde de Sonho a D. Filipe IV (25-3-1648). BRÁSIO. MMA, v. X, pp. 118-119; Carta do Conde de Sonho à Propaganda Fide (25-3-1648). Idem, v. X, pp. 120-121.
202 Carta do Conde de Sonho ao Papa Inocêncio X (25-3-1648). BRÁSIO. MMA, v. X, pp. 122-125.
203 HILTON, Anne. The Kingdom of Kongo, op. cit., pp. 152-153.
Soyo trouxe algumas conseqüências importantes. Uma delas foi a unidade do reino do Congo posta em xeque, determinante no último quartel do século XVII, quando o Congo enfrentou uma crise sem precedentes. Além disso, os problemas com o Soyo fizeram com que o dirigente congolês perdesse uma das poucas possibilidades de comunicação com a Europa sem depender de Luanda, uma vez que esta se fazia anteriormente pelo porto do Soyo. Assim, o Soyo pôde se fortalecer cada vez mais e garantir sua própria relação política e comercial com os holandeses.
Ademais, as oposições ao mani Congo também encontravam ecos em outras partes. Em 1649, houve uma revolta em Nsundi (uma das províncias) fomentada pelo seu dirigente, um outro filho de Álvaro VI. Situação controlada por Garcia II apenas em 1651 com o afastamento e execução de seu opositor. Em 1654, um irmão de Garcia II, o marquês de Mpemba, e seu pretenso sucessor, ouvindo rumores de que o mani Congo quisesse impor seu filho mais velho, Affonso, para sua sucessão, revoltou-se contra o mani Congo, mas sem sucesso, o que o fez fugir para o Soyo. O próximo marquês de Mpemba rebelou-se dois anos depois e foi decapitado. Os problemas relacionados à sucessão continuaram, pois em 1657, Garcia II enfrentou Antonio, seu segundo filho e marquês de Mpangu, que voltou-se contra o duque de Nsundi, partidário de Affonso, o filho mais velho de Garcia II, mas não foi bem-sucedido ainda desta vez. Em 1660, a facção que apoiava Antonio convenceu Garcia II de que seu filho mais velho e provável sucessor, Affonso, planejava assassiná-lo, levando o mani Congo a tomar uma atitude radical: ordenar sua execução. Finalmente em 1661, D. Garcia II morreu e o caminho estava livre para Antonio I ocupar o trono em Mbanza Congo. Imediatamente após ser entronizado, Antonio I se precaveu processando e executando todas as pessoas que tivessem alguma ligação com seu irmão mais velho. Pouco tempo depois, Antonio I teve que enfrentar a rebelião conduzida pelo duque de Wandu e soberano em Ambuíla que, aliado aos portugueses, levou a cabo uma guerra generalizada de Angola contra o Congo.205
Um dos fatores marcantes no governo de Garcia II foi seu reinado ter-se iniciado no mesmo ano em que os holandeses ocuparam militarmente Luanda, fazendo com ele se preocupasse em estabelecer com estes uma relação cordial desde logo, ainda que inicialmente de forma cautelosa para não levantar questões com o papado, uma vez que
para a Igreja, os holandeses eram considerados hereges, sem lei nem Deus. Obviamente, a ocupação holandesa de Luanda era prejudicial aos interesses portugueses na região e estes não se aquietaram enquanto não conseguiram tomar de volta os territórios ocupados.
A aproximação entre holandeses e o mani Congo também não poderia agradar aos portugueses, havendo desde logo uma mobilização para um embate militar entre o mani Congo e os portugueses, ainda não efetivado neste primeiro momento.206 No entanto, as rivalidades cresceram à medida que os holandeses pressionavam os portugueses a abandonarem de vez a região. Segundo Anne Hilton, dos portugueses que habitavam na região, salvaram-se apenas aqueles que se refugiaram em Mbanza Kongo, todos os outros foram massacrados e tiveram suas posses tomadas. Dessa forma, os holandeses foram aos poucos conquistando o apoio dos chefes locais, como o mani Mbamba e em 1642, finalmente deu-se a aliança de forma mais direta entre Garcia II e os holandeses, permitindo a construção de fortes e dando abertura para o comércio. 207 Nesse sentido, o mani Congo comprometia-se com o oferecimento de exclusividade aos holandeses, o que se evidencia na carta abaixo:
“Eu não consentirei que em alguns dos meus lugares ou portos qualquer português tenha a sua casa ou o seu comércio, e se nisto alguns seus navios chegarem, podem deixá-los contratar e fazer voltar; e se estou a escrever isto a Sua Alteza o Príncipe de Orange e aos nobres senhores governadores da Companhia das Índias Ocidentais”.208
Aproveitando-se desta aproximação, o governo holandês tentou persuadir Garcia a aceitar um ministério calvinista e professores para que se ensinasse no Congo uma nova “civilização, religião e governo”. Para isso, foram oferecidos livros de presente a Garcia II que, em resposta, queimou-os em praça pública.209 Evidentemente contrário a isso e satisfeito com a atitude de Garcia II, Cavazzi fez questão de narrar o episódio:
“Os piores erros que corriam pelo país eram as perniciosas máximas de Calvino e de Lutero. Foram os Holandeses quem espalhou [sic] o veneno da heresia por meio de
206 VANSINA, Jan. Kingdoms of the Savanna, op. cit., p. 137; HILTON, Anne. The Kingdom of Kongo, op.
cit., p. 144.
207 HILTON, Anne. The Kingdom of Kongo, op. cit., p. 144.
208 Carta de D. Garcia II, Rei do Congo, ao Governador Holandês no Brasil (23 de fevereiro de 1643). BRÁSIO. MMA, 1ª série, v. IX, p. 15.
livrecos cheios de doutrinas pestíferas e de calúnias contra a Santa Igreja Católica e contra o romano pontífice, verdadeiro vigário de Cristo. (...) Mas como se extirpam melhor aquelas envenenadas raízes por meio do exemplo do chefe, um dia o rei convocou o povo para uma grande praça e declarou pùblicamente quais eram os seus sentimentos sobre a fé católica. (...) Por fim mandou que todos os que tivessem ainda aquelas publicações as entregassem a ele ou ao seu lugar-tenente, no prazo de oito dias. (...) Juntaram-se assim muitas destas publicações, com as quais se fez uma grande fogueira. (...) No decorrer do tempo, como narrarei mais adiante, desabafariam eles [os holandeses] a sua raiva contra os Capuchinhos, por terem ouvido dizer que eram eles quem com maior fervor lutava contra os seus erros.”210 Esta atitude de Garcia II corrobora a assertiva de que ele não teve interesse na religião protestante, mesmo quando estabeleceu aliança com os holandeses. Garcia manteve-se oficialmente católico durante todo o seu governo e independente das mudanças em suas relações com os portugueses ou com os holandeses, já havia estabelecido uma comunicação direta com o papado, garantindo-lhe um maior controle do catolicismo praticado no Congo, além de representar mais um instrumento político a seu favor.
De todo modo, a aliança de Garcia II com os holandeses não teve longa duração. Em 1643, pressionados por conjunturas locais e pelo controle no comércio de escravos exercido pelos portugueses, os holandeses fizeram um acordo amigável com os portugueses, na intenção de usufruir do mesmo comércio de escravos, uma vez que todas as rotas encontravam-se bloqueadas pelos portugueses. Até o estabelecimento do acordo, os holandeses tinham conseguido uma cifra muito aquém dos esperados 50 a 60 mil escravos por ano, comerciando nos primeiros oito meses apenas 150 pessoas. O resultado deste acordo, no entanto, foi uma longa espera, sem favorecimento para os holandeses.211
Mais tarde, em 1644, D. Garcia II, completamente repugnado com os holandeses, tentou aliar-se com Nzinga, mas não foi bem-sucedido. No final de 1646, os holandeses já estavam bastante enfraquecidos e os portugueses estavam retomando cada vez mais seu poder na região. Precavido, Garcia II resolveu buscar novos aliados na Europa.212
Partiram então dois capuchinhos como embaixadores de Garcia II, Pe. Angelo de Valença e Pe. João Francisco Romano, a fim de tratar na Holanda e em Roma dos maus tratos sofridos pelos capuchinhos. Garcia pedia apoio e reconhecimento ao papa,
210 CAVAZZI. Op. cit., pp. 289-290. Há uma narração deste evento também em: Carta do Padre Frei José de Milão ao Procurador-geral dos Capuchinhos (30-10-1647). BRÁSIO. MMA, X, pp. 51-53.
211 HILTON, Anne. The Kingdom of Kongo, op. cit., pp. 146-149.
solicitando ao mesmo uma coroa abençoada para que ele e seus sucessores pudessem usar, construindo mais uma insígnia importante para seu poder.213 Nessa ocasião, o mani Congo também aproveitou para estreitar laços com D. Filipe IV de Espanha, dizendo-se contra a independência de Portugal e sugerindo que o rei espanhol invadisse Luanda, retirando os holandeses, ao mesmo tempo em que colocaria os portugueses definitivamente para longe da região. Solicitava ainda o envio de homens para explorar as minas de ouro e prata do Congo. Essas intenções encontravam-se explicitadas em sua petição:
1 - Primo que su Magestade Catholica se sirva embiar armada competente por mar al puerto principal de Angola, hechando parte della en el de Pinda, o Rios de Dandi, o Vengo, para que junto con su gente (que tendrá prevenida) pueda facilmente tomar la Ciudad y puerto de S. Pablo de Loanda.
2 - Suplica tambiem que los Governadores que ponga alli su Magestad no sea uno solo, sino dos, para que con mais acierto y madureza esté governada aquella Plaça. 3 - Que a dichos Governadores les ordene conserv siempre la paz y union con los del Congo, y se ayuden y valgan los unos á los otros contra otros enemigos quando la ocasion lo pidiere.
4 - Que los tales Governadores, soldados o moradores que su Magestad embiare para recidir, o habitar en aquellas partes de Angola, en ninguna manera seã Portugueses.
5 - Que se sirva su Magestad dar embarcaciõ a los Religiosos Capuchinos Missionarios que su Santidad embiare al Reyno del Congo.
6 - Suplica tambien se sirva su Magestad embiarle dos o tres mineros, hombres entendidos en la materia, para que descubrã las minas de oro y plata que ay en su Reyno. 214
Assim, além de acertar com o rei de Espanha uma relação amistosa, disposto inclusive a suplantar suas conexões com os holandeses e externando suas contrariedades com os portugueses, Garcia II aproveitava a ocasião para agradecer o envio de capuchinhos e atrelava diretamente estes missionários ao governo espanhol, dando margem a represálias por parte dos portugueses, que muitas vezes mostraram-se desconfiados do papel dos capuchinhos como espiões de Castela. Esta capacidade de D. Garcia II em estabelecer laços e, com a mesma facilidade, rompê-los, parece ser uma forte característica de sua maneira de
213 Carta do Rei do Congo ao Papa (9-5-1648). BRÁSIO. MMA, X, pp. 136-138. Há neste episódio uma curiosidade. Os capuchinhos queriam levar consigo a coroa para entregá-la logo ao mani Congo e temendo pela demora, declararam não precisar ser muito valiosa para satisfazer ao dito rei: “che con occasione della Congregatione del Santo Uffitio si degni di trattar indorata, con gioie di poco prezzo, et di apparenza, che con poca spesa si darà questa sodisfattione al detto Rè, che fà tanto conto di questa Santa Sede”, p. 137.
214 “Peticiones del Rey del Congo D. Garcia II, a la Magestade Catholica del Rey de España Nuestro Señor”, documento anexo à “Carta de D. Garcia II, rei do Congo, a D. Filipe IV, rei de Espanha (5-10-1646)”. MMA, v. IX, pp. 450-453.
governar. Aqui temos uma forte evidência desta faceta, pois os problemas apresentados entre os holandeses e os capuchinhos genoveses serviram para Garcia II como pretexto contra os holandeses. Sabe-se, no entanto, que neste momento estava sendo estabelecido um acordo para o comércio de escravos que aproximava holandeses e portugueses e distanciava-os dos interesses de Garcia II, que via na aliança com os holandeses uma arma contra o poder luso local.
Ao final da ocupação holandesa em 1648, quando da retomada de Luanda por Salvador de Sá, o governo português em Luanda escreveu a Garcia II a fim de estabelecer novas regras políticas que praticamente colocavam em xeque a autonomia do reino do Congo. Em vez de responder à carta, Garcia II enviou um embaixador capuchinho para negociar diretamente em Luanda a manutenção de seu poder.215 Este episódio e vários outros demonstram o importante papel político desempenhado pelos capuchinhos no Congo.
A aproximação de Garcia II aos holandeses não aconteceu por acaso. Foi a forma pela qual o mani Congo buscou diminuir o poder dos portugueses na região. Aliado ao controle holandês, no mesmo período deu-se o predomínio dos capuchinhos italianos, que não respondiam à coroa portuguesa no trabalho apostólico. Juntos, estes fatores deram a Garcia II a perspectiva de controlar diretamente a igreja católica no Congo, sem subordinação a Portugal. Esta intenção o fez declarar que a ocupação holandesa em Luanda havia sido um castigo de Deus contra os pecados dos portugueses.216
Quando Garcia II escreveu a um padre jesuíta em Luanda, tentando uma aproximação, teve o cuidado de referir-se à “ambição e soberba” de pessoas que lidavam com o tráfico, mas sem generalizar a acusação aos portugueses como um todo.
“Não há couza que mais danifique os homens que a ambição e soberba. Essa reinou nessa Cidade da Loanda. E como asim fosse naõ podia n ca auer pazes com este