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Uso de jogos para exercitar o

4. Manipulou o painel do

vídeo

Figura 25. Acesso ao vídeo do show de Altemar Dutra, TV Cultura, SP, s.d. Fonte: You Tube (2007).

A música, com maior ou menor intensidade, está presente na vida dos aprendizes e contribuiu para despertar significados e sentimentos de maneira prazerosa. Ela pode desvendar relações que envolvem os grupos sociais e práticas culturais em comum, seja a partir das canções mais simples ou das mais complexas. Dessa forma, visualizar e ouvir os cantores de época contribuiu para que os aprendizes recordassem os bailes que frequentavam e oportunizou diálogos com os colegas referentes às lembranças musicais, com citações de músicos e canções.

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4.2.3.2. TELENOVELAS DE ÉPOCA

Na juventude e na adultidade dos aprendizes, a TV era a mídia do momento e a TV a cores era a novidade no lar das famílias. Nesse período, a telenovela tornou-se um dos produtos de sucesso da televisão brasileira. Ela compunha parte do cenário de quando eram recém casados, os filhos estavam na infância e os aprendizes trabalhavam, não eram aposentados.

Os mediadores utilizaram essas lembranças para auxiliar os aprendizes a se aproximarem mais da tecnologia e se sentirem mais à vontade. Foi solicitado a eles que comentassem essas lembranças e escolhessem uma telenovela de época que os tivesse marcado e que gostariam de rever. Eles citaram vários títulos de telenovelas; após, entraram na plataforma YouTube, com a ajuda dos mediadores, procuraram cenas das telenovelas citadas e escolheram uma para mostrar e comentar.

Os vídeos de telenovelas de época escolhidos foram: Direito de Nascer (1964), Cara Suja (1965), Véu de Noiva (1969), Irmãos Coragem (1970), Meu Pé de Laranja Lima (1970), Selva de Pedra (1972), Cavalo de Aço (1973), Mulheres de Areia (1973), Pecado Capital (1975), Anjo Mau (1976), Casarão (1976), Escrava Isaura (1976), Estúpido Cupido (1976), Saramandaia (1976), Dona Xepa (1977), Dancing Days (1979), Pai Herói (1979), As Três Marias (1980), Paraíso (1982), Roque Santeiro (1985), Tieta (1989) e Pantanal (1990).

A figura 26 mostra os aprendizes assistindo diversas cenas de telenovelas que marcaram suas juventudes. Como eles já tinham acessado vídeos de música no YouTube e já conheciam o procedimento, os mediadores deram suporte apenas quando solicitados.

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Figura 26. Acesso às cenas de telenovelas de época.

Os aprendizes se encantaram com as cenas de telenovelas, vendo-as várias vezes. Eles chegaram a anotar os endereços dos arquivos para poder assisti-

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las novamente. O acesso à internet permitiu aos aprendizes a possibilidade de assistir, quando quisessem, a essas cenas que fizeram parte da história de cada um. Ao assistirem-nas, os aprendizes voltaram no tempo. Elas contribuíram para desencadear sentimentos e lembranças de épocas que envolvem o contexto sócio-histórico e familiar. Por exemplo, uma aprendiz se lembrou de quando assistia novelas na casa de sua tia a contragosto dos pais, que acreditavam que a TV poderia ser prejudicial. Uma outra relatou que ficava sabendo das telenovelas por meio da mãe que assistia na casa do vizinho, pois em sua casa não havia TV. Essas discussões demonstram uma postura para além de um pragmatismo automático ou mecanicista de apertar botões. Eles escolheram os arquivos de telenovelas que queriam assistir, manusearam a interface do YouTube para visualizar os vídeos e conseguiram realizar reflexões sócio-históricas.

A figura 27 apresenta uma sequência assistida pelos aprendizes, de uma cena da telenovela O Casarão (1976). Esta telenovela foi escrita por Lauro César Muniz, dirigida por Jardel Mello e teve a supervisão geral de Daniel Filho. A narrativa da telenovela O Casarão possui como período cronológico três épocas distintas – 1900, 1926 e 1976. Durante esses períodos, é mostrada a decadência das oligarquias cafeeiras e são tratados assuntos como a política, as mudanças de comportamento, o feminismo e a velhice. Este último assunto ganhou destaque entre os aprendizes, motivado pela cena final de O Casarão (figura 27). A cena selecionada foi do último capítulo da telenovela. Ela mostra o encontro romântico entre os personagens idosos João Maciel (Paulo Gracindo) e Carolina (Yara Cortes), gravado na Confeitaria Colombo do Rio de Janeiro. A personagem Carolina chega atrasada ao encontro com João Maciel. Ela pergunta: “Te fiz esperar muito?”. E João Maciel responde: “Só 40 anos”, numa analogia ao encontro marcado com a amada, na época da juventude, mas ao qual ela não compareceu, por falta de coragem de se confrontar com a própria família que era adversa ao relacionamento.

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Figura 27. Acesso à cena da telenovela O Casarão. Fonte: You Tube (2007).

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O uso da telenovela como instrumento de aprendizagem se deve muito à forma de tratamento da mensagem e não apenas pela mensagem propriamente dita. A telenovela é resultante da indústria cultural da sociedade de época, sendo assim, ela apresenta parte dessa sociedade. O tratamento da mensagem, igualmente dos elementos estéticos, na telenovela traz em si os valores da ocasião, os costumes e a maneira de se organizar da sociedade.

O tempo das imagens das telenovelas de anos atrás é diferente das de hoje. Nas novelas passadas, há um tempo maior para a observação. Na figura 27 é possível visualizar as sequências de closes e zoons da última cena de O Casarão, selecionadas pelos aprendizes. O tempo de duração mais cadenciado das imagens, pelo que foi notificado pelos mediadores, foi fundamental para a identificação com a cena de O Casarão. Outros elementos também foram fundamentais para promover a identificação com a cena: conhecer os artistas que interagem, a trilha sonora e o texto sobre o encontro das personagens. Esses elementos somados ao contexto da época dos aprendizes reforçaram o vínculo afetivo com a cena.

Na telenovela, o tratamento da mensagem e dos elementos estéticos é definido pela aceitação do público, ou melhor, pelo quadro de valores desse público - conteúdos axiológicos. A indústria cultural lança mão desses valores para divertir o público com estímulos visuais e sonoros e, nesse momento de repouso ou divertimento, transmitir as informações de interesse. No caso da telenovela O Casarão, as informações dizem respeito à sociedade de classes hierarquizadas. O Casarão mostra como essas classes se relacionavam, além de levantar problemas de época ao tratar de questões sobre o papel da mulher na sociedade em diversos períodos da novela, o progresso marcado pelo desenvolvimento da ferrovia e o patrimônio histórico representado pela arquitetura colonial do casarão.

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As telenovelas eram assistidas apenas por meio da tecnologia analógica, sem oportunidade dos aprendizes reverem cenas ou momentos marcantes. Agora, eles poderiam acessar cenas das telenovelas que estão armazenadas e disponíveis pela tecnologia digital.

As imagens com enquadramentos formados por constantes zoons e closes no rosto dos personagens reforçam o sentimentalismo e o romantismo da cena. Essa cena antológica da teledramaturgia brasileira desencadeou, entre os aprendizes, comparações entre os relacionamentos românticos de antes com os atuais, e a duração desses relacionamentos. Principalmente porque muitos eram casados há décadas, como uma aprendiz que havia completado 58 anos de matrimônio. Em diálogo, manifestaram que os valores anteriores eram pautados no sentimento, enquanto que na contemporaneidade há um apelo mais sexual.

Ouvir e ver o artista de interesse na interface do computador promoveu uma aproximação maior dos usuários com a máquina, semelhante às atividades com os jogos e com os vídeos musicais. A tecnologia deixou de ser o obstáculo e passou a ser a ponte, se não para matar saudades, para participar da criação de novas experiências.

Com essas atividades de jogos, músicas, textos e audiovisuais, os aprendizes se sentiram mais à vontade para lidar com o computador e com as plataformas. Embora eles não tenham alcançado plena autonomia em manipular o mouse, o teclado, o processador de texto e as interfaces dos sites, houve uma maior independência dos aprendizes. Dessa forma, eles puderam discutir questões que iam além do hardware ou software. Entre as atividades, as telenovelas foram as que mais despertaram discussões envolvendo seus passados de vida. Os aprendizes, por meio das telenovelas, faziam comparações entre os modos de vida de suas épocas de juventude com o atual. De certa maneira, pelos debates, demonstravam consciência de que os

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acontecimentos cotidianos eram consequências de alguma causa.

As discussões eram presenciais e ocorriam pela oralidade. Ainda não eram partícipes da rede, por isso não estabeleciam interações por meio das ferramentas digitais. Estavam descobrindo as possibilidades dos recursos midiáticos e tentavam se adaptar a eles. Nessa condição, a interatividade no sentido pessoa-máquina ocorria com as mídias. A interação, pessoa-pessoa mediada pela tecnologia, não ocorreu. Não tinham realizado práticas com as redes sociais. Isso quer dizer que suas ações diante das tecnologias digitais eram de recepção de conteúdos prontos, não eram autores, construtores de conteúdos ou produtos utilizando as mídias.

Os aprendizes estavam no processo de consciência transitiva, de passagem da consciência dependente e ingênua para a crítica e autônoma. Apesar de já questionarem situações da vida vinculadas aos aspectos socioculturais e não só místicos, a consciência da causa era precária. Faltava-lhes ação autônoma para transformar os acontecimentos da realidade que eram considerados desfavoráveis e transformar, principalmente, a condição de sujeitos passivos diante das tecnologias para apropriarem-se delas e serem autores ou produtores de conteúdos.

4.3. O RECEPTÁCULO: LETRAMENTOS

CRESCENTES

As propostas com operações mais complexas, que exigem reflexões mais apuradas, foram trabalhadas gradativamente, respeitando o tempo de aprendizagem mais lento, para que eles não se sentissem pressionados e não tivessem um sentimento de fracasso, e desistissem. Como já foi dito, as atividades foram realizadas a partir do diálogo com os aprendizes. Foram

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ouvidos dos mesmos, histórias de vida, desejos e necessidades, o modo de viver, seus trabalhos e hobbies, seus gostos. Com o diálogo, buscou-se manter a relação ensino-aprendizagem-motivação-satisfação constantemente.

Os aprendizes já conseguiam chegar aos encontros e ligar os computadores por conta própria, entrar na internet e digitar algum endereço de site. Haviam rompido com a barreira do fetiche em relação à máquina. Eles almejavam, nesse momento, utilizar a tecnologia para realizar funções específicas. O cumprimento de uma função buscada por eles estava ligado à ideia de participar do universo das tecnologias digitais. Cada um queria aprender a utilizar determinada ferramenta, seja para ter um e-mail para se comunicar com familiares ou amigos, seja para acessar informações divulgadas em canais de TV. Nessa fase, os aprendizes articularam operações mais complexas, abstratas. Eles agiram de maneira menos automática ou repetitiva e mais reflexiva do que nas anteriores - vislumbraram as funções que poderiam executar utilizando os recursos digitais.

A seguir, são descritas atividades de e-mail e busca de informações, que contribuíram para que os aprendizes conseguissem tomar consciência do uso das tecnologias para suprir algumas funções.

4.3.1. ATIVIDADES DE E-MAIL

De início, não foram todos os aprendizes que conseguiram utilizar e compreender o e-mail. Muitos tinham dificuldade em entender a lógica do cadastro - confundiram o login e a senha. Quando entravam no e-mail, atrapalhavam-se nas opções de enviar mensagem nova, ver as recebidas, responder e, principalmente, enviar anexos. As apostilas, nesse momento, também foram úteis. Serviram como fontes de “lembrete” ou consulta para os

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Quando conseguiram se cadastrar e começaram a utilizar o e-mail, com mensagens simples aos colegas e aos mediadores, entusiasmaram-se e se encantaram com a possibilidade de comunicação remota. Os mediadores promoveram diálogos sobre a expansão da comunicação que os aprendizes poderiam atingir. Logo tomaram consciência sobre a possibilidade de conversar com familiares e amigos distantes. No início, nas trocas de e-mails entre colegas e mediadores, utilizaram de informações praticamente prontas da internet: imagens, textos, links para outros sites, links para algum vídeo no YouTube, receitas, notícias, mensagens de Power Point. A figura 28 mostra que a aprendiz conseguiu acessar o e-mail, inseriu o login e a senha, e abriu o arquivo que tinha sido enviado por uma colega. Os aprendizes estavam descobrindo as possibilidades de trocas de informações, utilizando os diversos canais de comunicação.

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