2 REALISMO, CONSTRUTIVISMO E REALISMO CONSTRUÍ DO: OS CAMINHOS DA SOCIOLOGIA DO CONHECIMEN-
2.1.3 Mannheim e o início da Sociologia do Conhecimento
Na primeira metade do século XX, a Sociologia do Conhecimento começa a ser sistematizada e reconhecida como campo de investigação, passando a ser aceita como uma área da sociologia. Karl Mannheim (1893 – 1947) teve papel central nesse processo. O autor desejava questionar os pressupostos iluministas de uma razão a- histórica e estática. Assim, ele parte do pressuposto de que há um condicionamento histórico do conhecimento. Diferentemente de Scheler, para Mannheim a sociedade é entendida como determinante não apenas da forma, mas do próprio conteúdo do conhecimento – ou das 'ideias enquanto tais'. Mesmo destacando que o contexto social poderia explicar o conhecimento das ciências culturais ou humanas, para ele o conhecimento das ciências da natureza (exemplificado pela matemática) ficaria fora das influências sociais:
(...) há determinadas esferas de pensamento nas quais é impossível conceber a verdade absoluta existindo independentemente dos valores do sujeito e do contexto social. Nem mesmo um deus poderia formular uma proposição sobre questões históricas semelhantes a 2x2=4, pois o que é inteligível na história somente pode ser formulado com referência a problemas e construções conceituais que emergem no fluxo da experiência histórica (MANNHEIM, 1968, p.105).
De fato, para Mannheim (1967), o desenvolvimento ou progresso – utilizando a terminologia adotada pelo autor – das ciências naturais se daria de forma imanente, sendo os problemas, dessa maneira, solucionados numa ordem lógica. Já nas ciências da cultura, não haveria questões imanentes (a não ser por curtos espaços de tempo) e, diante dessa perspectiva, o autor questiona: “que fatores intelectuais e vitais tornam possível o aparecimento de um problema dado nas Ciências Culturais, e até que ponto eles garantem a solubilidade do problema?” (MANNHEIM, 1967, p.15).
Na busca para essa resposta, Mannheim afirma que a sociologia do conhecimento está continuamente na busca pela compreensão da
situação intelectual do seu tempo, e teria o seguinte papel a desempenhar:
Especificar, para cada corte transversal do processo histórico, as várias posições intelectuais sistemáticas nas quais o pensamento dos grupos e indivíduos criativos foi baseado. Uma vez feito isto, contudo, essas diferentes tendências do pensamento não deveriam ser confrontadas como posições num debate meramente teórico, mas dever-se-ia explorar suas raízes vitais, não- teóricas. Para fazer isto, primeiramente temos que descobrir as premissas metafísicas subjacentes às várias posições sistemáticas; depois devemos perguntar quais dos 'postulados sobre o mundo' coexistentes numa dada época são correlatos de um determinado estilo de pensamento. Quando estas correspondências ficarem estabelecidas, teremos identificado os estratos intelectuais que se combatem (MANNHEIM, 1967, p. 78).
Assim, a Sociologia do Conhecimento de Mannheim focava na reconstrução histórica e relacional do conhecimento, relacionando vários processos que, no entendimento do autor, estariam ligados ao conhecimento.
O nosso conhecimento do próprio pensamento humano se desenvolve numa sequência histórica; e fomos levados a levantar este problema da 'constelação' pela convicção de que o próximo estágio possível do conhecimento será determinado pelo status alcançado pelos vários problemas teóricos e, também, pela constelação de fatores extra-teóricos, em um momento dado, tornando possível prever se determinados problemas se mostrarão solucionáveis (Ibid, 1967, p. 14 -15).
É significativo o fato de Mannheim preocupar-se com a ideologia. Como afirmado anteriormente, não haveria, para o autor (a não ser no caso das ciências da natureza), pensamento humano que não estivesse impregnado de influências ideológicas do contexto social. Dessa forma, é possível inferir que, para Mannheim, a sociologia do
conhecimento não é um campo de estudo que se preocupa com a discussão do conhecimento, da ciência ou do conhecimento científico, mas é um campo que foca seu olhar sobre as influências do contexto nesse conhecimento. Para o autor, o importante é discutir as implicações do contexto na produção do conhecimento.
2.2 OS CONSTRUTIVISTAS
Em uma direção distinta do realismo, encontra-se o construcionismo ou construtivismo. É verdade que os termos construtivismo social ou construcionismo social têm sido usados em uma grande variedade de abordagens da ciência, do conhecimento e da natureza. Castañon (2005) explica que a origem etimológica do verbo construir é do verbo latino struere, que significa dar estrutura ou organizar: “Necessariamente, uma inteligência que organiza e dá estrutura a algo”. Para o autor, Kant é o percursor do construtivismo contemporâneo, já que este fez:
(...) a inversão do sentido da relação entre sujeito e objeto que é a raiz do construtivismo. Tradicionalmente, a filosofia ocidental pensava o conhecimento como uma determinação do sujeito cognoscente pelo objeto conhecido. Kant apresenta o processo do conhecimento como a organização ativa por parte do sujeito – através das estruturas da mente – do material que nos é fornecido pelos sentidos. Ou seja, para o construtivismo, o sujeito constrói suas representações de mundo, e não recebe passivamente impressões causadas pelos objetos. O sujeito, para o construtivismo, é proativo, é foco de atividade do universo, e não um aglomerado de células que recebe passivamente estímulos do ambiente, sendo movidas por estes (CASTAÑON, 2005, grifo do autor).
Na sociologia, é possível afirmar que Max Weber foi um dos precursores do construtivismo, já que se identificou com as propostas do neokantismo (Dilthey, Windelband, Rickert) ao afirmar que cabe às Ciências Sociais a compreensão do significado da ação humana, e não apenas a descrição dos comportamentos. Para Weber, as ciências da
cultura não poderiam seguir o mesmo caminho das ciências da natureza. Dessa forma, o método das ciências da cultura deveria ser diferente das ciências da natureza, já que as primeiras buscam a compreensão dos fenômenos e a segunda, a explicação desses fenômenos. Essa diferença não daria à sociologia uma validação menor em relação as ciências da natureza; para o autor marcariam, na verdade, o seu caráter diferente. Schultz, e depois representantes do interacionismo simbólico e da etnometodologia, foram fortemente influenciados pela sociologia compreensiva.
Se Weber foi o precursor do construtivismo, seu estabelecimento como abordagem sociológica se deu juntamente com o surgimento do campo da Sociologia do Conhecimento. Foi com a constituição da sociologia do conhecimento que se institui a tradição de pensamento sobre o processo de ciência como uma construção social, fator decisivo para a sociologia do conhecimento ser institucionalizada. Castañon aponta Mannheim13 como antecessor filosófico dessa corrente, uma vez que, como apontamos acima, defendia a ideia de que a sociedade determinava a forma de pensamento humana, ainda que deixasse de lado os conceitos físico-matemáticos. Esse caminho é, de certa forma, seguido por Merton, que avança nessa percepção e busca explicar a influência da sociedade na construção da ciência..
O termo Construtivismo Social passa a fazer parte da discussão sociológica a partir da obra de Berger e Luckman (1985) em 'A construção Social da Realidade', de 1966. Para os autores, que desenvolveram uma análise das representações sociais do conhecimento, a realidade social é entendida não somente como um processo de construção individual, que se apresenta como uma realidade objetiva aos sujeitos, mas também como construída e reconstruída intersubjetivamente nas interações cotidianas.
Mais recentemente, o construtivismo social mostra-se presente em diversos autores da sociologia do conhecimento científico e da sociologia da ciência, que teve seus primeiros representantes no Programa Forte da Sociologia da Ciência. As premissas desse Programa serão discutidas mais adiante. Por ora, é importante destacar que nele rejeita-se o realismo ontológico e entende-se que as concepções da realidade, socialmente construídas, são a própria realidade. Dessa forma, afasta-se da sociologia do conhecimento tradicional, representada, nesta
13 Neste trabalho, por razões anteriormente citadas, Mannheim é considerado um autor filiado ao realismo, e não ao construtivismo, como aponta Castañon.
tese, por Mannheim e Merton. As premissas desse Programa são assumidas pelas abordagens construtivistas da ciência na atualidade, já que o construtivismo no contexto da sociologia do conhecimento científico, é agnóstico com relação as verdades enunciadas por cientistas, para descrever o mundo, e se interessa em compreender como tais enunciados passam a ser vistos como válidos para explicar o mundo natural: “Ao invés de simplesmente afirmar que as descrições científicas passam a ser aceitas como fatos, porque elas são 'verdadeiras' (...), o construtivismo geralmente analisa o processo social e institucional através do qual as declarações adquirem 'status’ de verdade” (IRWIN, 2001, p.73-74)
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É certo que há diferentes 'graus' de construtivismos, tanto que podemos enquadrar como construtivistas autores com perspectivas bastante distintas. Inicialmente, será discutida a concepção de sociologia ou ciência da cultura em Weber, mesmo entendendo que esse autor não é tradicionalmente visto como um construtivista. Para os fins desta tese, Weber foi enquadrado nessa categoria em função de sua discussão sobre o caráter múltiplo da realidade e sobre a sua percepção de que a ciência não apreende a realidade, mas fragmentos da realidade. Em seguida, será discutida a sociologia da ciência de Merton, que pode ser classificado como um construtivista por discutir a construção das ciências, tanto as Ciências Sociais, como as ciências naturais. Finalmente, será abordada a teoria de Bloor e o seu Programa Forte de Sociologia do conhecimento científico.
Como toda seleção, esta também não poderia deixar de ser, de alguma forma, arbitrária. Os autores foram escolhidos a partir da relevância de suas ideias para a discussão, especificamente, da sociologia da ciência, e não para a discussão da ciência de modo mais abrangente. Assim, foram deixados de fora autores que deram grandes contribuições à discussão sobre ciência, mas que não focaram diretamente na sociologia, como é o caso de Thomas Khun, considerado um dos primeiros a desenvolver uma crítica consistente à tese positivista de uma linguagem científica neutra. Pelos mesmos motivos, não serão abordadas as críticas à ciência desenvolvidas por autores da tradição pós-moderna, como Rorty e Lyotard.
2.2.1 Compreender é compreender; explicar é explicar: Weber,