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Em 1868 nasceu, em Aracajú, Manoel Bomfim,42 oriundo de uma família com posses.43 Dos homens, ele era o filho mais velho, por essa razão as pretensões sobre ele recaíram como se fosse o primogênito, não por acaso aos 12 anos de idade foi mandado para viver em um engenho da família no interior de Sergipe e aprender mais sobre os negócios da família. Somente aos 16 anos, com a decisão de que faria o preparatório para o exame de admissão à faculdade de medicina é que ele retornou a Aracajú. Contrariando os planos dos pais, que desejavam que Manoel Bomfim assumisse a direção dos negócios, engenho açucareiro e comércio, ele insistiu na carreira médica, de tal modo que a família acabou cedendo à vontade do jovem.

39 São Paulo desempenhou papel importante nesse processo, apesar de na época já ter realizado a sua própria reforma sanitária, desenvolvida de maneira autônoma, a percepção da interdependência que a doença causava exigia uma ação mais efetiva e ampla dos demais estados e do poder central. Diante disso, São Paulo se constituiu como exceção no acordo entre estados e governo federal, mantendo sua autonomia em relação aos outros estados. Ibidem, p. 15-16.

40 Ibidem, p. 16.

41 Este, a partir de 1903, tornou-se mais amplo, complexo e articulado, reunindo trabalhadores de diversas nacionalidades e tendências políticas – socialistas, anarquistas, sindicalistas revolucionários e reformistas.

MATTOS, Hebe. Op. Cit. p., 119-120.

42 Todas as referências sobre a vida de Manoel Bomfim foram retiradas da biografia sociológica O rebelde esquecido: tempo, vida, e obra de Manoel Bomfim (2000), de Ronaldo Conde Aguiar.

43 O pai de Bomfim era de origem humilde, mas após anos de trabalho, conseguiu desfrutar de uma situação econômica privilegiada.

Em 1886, Manoel Bomfim ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia. E lá iniciou amizade com o fluminense Alcindo Guanabara (1865-1918), que também estudava medicina e, posteriormente se tornaria um dos maiores jornalistas do país no início do século XX. Em 1888, aconselhado por Alcindo Guanabara, transferiu-se para o Rio de Janeiro, a fim de seguir seus estudos na então capital federal. Em sua chegada, foi recebido por seu amigo Guanabara juntamente com Olavo Bilac que também se tornaria amigo de Bomfim.

Olavo Bilac levou o jovem sergipano a frequentar a redação do jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio (1853-1905). Sua chegada ao Rio de Janeiro lhe permitiu a entrada no círculo da intelectualidade carioca, passando a conviver com prestigiados escritores brasileiros da época,44 e acompanhar de perto as transformações políticas e sociais pelas quais o Brasil passou no final do século XIX. Manoel Bomfim encontrava-se no Paço Imperial, na ocasião da abolição da escravidão, quando Joaquim Nabuco (1849-1910) anunciou em, 13 de maio de 1888, a lei Áurea, assinada pela Princesa Isabel (1846-1921).

A convite de Alcindo Guanabara, Bomfim passou a escrever semanalmente crônicas sobre temas políticos e culturais no Correio do Povo, conciliando esta atividade com a faculdade de medicina.

Em 1889, Manoel Bomfim assistiu a passagem da monarquia para a República que, apesar de ser republicano, desde o início, esse escritor fez críticas à jovem república. Suas críticas estavam relacionadas à intervenção militar, e ao que ele percebia como permanências e mesmo agudização dos problemas existentes na monarquia e a consolidação do poder oligárquico.

Em 1890, Bomfim concluiu o curso de medicina, apresentando a tese Das nefrites, na cadeira de Patologia Médica da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Por meio da interferência de amigos, o sergipano foi nomeado médico da Secretaria de Polícia e, poucos meses depois, promovido a médico-cirurgião da Brigada Policial, como tenente. Bomfim permaneceu dois anos no posto. Em 1891, ele participou de uma expedição militar45 percorrendo o baixo Rio Doce, que visava verificar a situação dos índios botocudos que após a desativação dos aldeamentos, vagavam pelas matas. Com a proclamação da república e a adoção dos princípios federalistas, a política indigenista, que já era escassa, ficou praticamente inexistente. Essas questões passaram a incumbência dos estados, que optaram

44 Entre estes escritores, além dos já mencionados, Bomfim conviveu com Machado de Assis, Luís Murat, Guimarães Passos, Aluísio Azevedo, José Veríssimo, Graça Aranha, Coelho Neto, entre outros.

45 Expedição organizada pelos ministérios do Interior, da Guerra e da Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

pelo fechamento dos aldeamentos e a expulsão sistemática dos indígenas para as florestas.46 Isso gerou muitos conflitos com os fazendeiros da região e contribuiu para o desaparecimento de vários grupos indígenas.47

Nesse mesmo ano, Manoel Bomfim se casou com a portuguesa Natividade Aurora de Oliveira. Ano também em que estourou a crise econômica, conhecida como “encilhamento” e a crise política, decorrida da tentativa de golpe de Deodoro da Fonseca. A chegada de Floriano Peixoto à presidência dividiu opiniões e causou uma cisão entre a intelectualidade carioca, dividida entre os que apoiavam a permanência de Floriano no poder, como Raul Pompéia, Medeiros e Albuquerque, Paula Nei, Lúcio de Mendonça e Emílio de Menezes, e os que defendiam a realização imediata de eleições como Pardal Mallet, Coelho Neto, Luís Murat, Guimarães Passos, Aluísio Azevedo, José do Patrocínio, Rui Barbosa, Carlos de Laet, Emílio Roède, Capistrano de Abreu, Olavo Bilac. Bomfim se encontrava no segundo grupo.

Essa divisão significava a divergência política entre os que rechaçavam o militarismo e rejeitavam o autoritarismo de Floriano Peixoto, e os que percebiam no “marechal de Ferro”, o único meio de salvar a república, ameaçada por uma suposta conspiração monárquica.48

Com o decreto de estado de sítio, em abril de 1892, as perseguições e prisões de opositores do governo se intensificaram, muitos dos amigos de Bomfim foram presos e deportados para a Amazônia como José do Patrocínio e Pardal Mallet (1864-1894), ou Olavo Bilac que ficou quatro meses preso na Fortaleza de Laje.

Em 1893, com a explosão da Revolução Federalista e a sublevação da esquadra no Rio de Janeiro, ocorreu uma onda de decretos de estado de sítio na capital que foi estendido para os estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Isso fez com que muitos escritores saíssem do país ou de suas casas para não serem presos. Manoel Bomfim, ao ser informado de que seria preso,49 fugiu com sua família para o interior de São Paulo, Mococa, onde vivia seu irmão José Augusto.

Em 1894, após um drama familiar, a morte de sua filha que não havia completado dois anos e Bomfim não conseguira salvar,50 ele decidiu sair de Mococa com a esposa e o filho de dois meses e abandonar a medicina. Retornou ao Rio de Janeiro, passando a viver como professor particular e de suas contribuições para variados jornais.

46 Em uma época em que os índios, como os negros, eram vistos como não merecedores da atenção dos poderes públicos.

47 AGUIAR, Ronaldo Conde. O rebelde esquecido: tempo, vida e obra de Manoel Bomfim. Rio de Janeiro:

Topbooks, 2000, p. 154.

48 Ibidem, p. 165.

49 Bomfim foi informado por um oficial da polícia cuja esposa havia sido tratada pelo médico sergipano.

50 A filha de Manoel Bomfim morreu de tifo, enfermidade endêmica em Mococa na época.

Em 1896, tornou-se redator do jornal A República. No ano seguinte, com a nomeação do deputado Medeiros e Albuquerque (1867-1934), amigo de Bomfim, para o cargo de Diretor da Instrução Pública, o escritor sergipano se tornou Diretor Geral do Pedagogium. A partir disso, Bomfim levou a cabo uma serie de projetos e atividades nessa instituição.

Em 1897 Manoel Bomfim fundou e dirigiu a revista Educação e Ensino, revista oficial da Diretoria de Instrução Pública, e a revista Pedagógica.51 Ainda nesse ano, foi fundada a Academia Brasileira de Letras e Machado de Assis (1839-1908) convidou Bomfim para compor o quadro dos quarenta primeiros imortais, mas este recusou o convite.

Em 1902, Bomfim foi, com sua família, para a Europa, estudar psicologia experimental com Alfred Binet (1857-1911) e Georges Dumas (1866-1946), na Sorbonne. Em Paris, o escritor sergipano deu início à escrita da obra que nos interessa neste trabalho, América Latina: males de origem (1905). Essa obra reunia suas observações e reflexões acerca dos temas da época, que na França, estimulado pelo ambiente acadêmico em que se encontrava, ao mesmo tempo, incomodado com o desconhecimento e preconceito dos europeus pela América Latina, decidiu levar adiante seu projeto.52 No seu regresso ao Brasil, em 1903, Bomfim, com o amigo Alcindo Guanabara, fundou o jornal A nação, que se propunha ser “radical, independente e socialista”.53

Em 1905, Bomfim publicou América Latina: males de origem e, juntamente com os jornalistas Luís Bartolomeu e Renato de Castro, criou a revista infantil O Tico-tico. Essa revista foi lida, durante cinquenta anos, por gerações de crianças do Brasil. Inclusive por crianças que se tornariam grandes escritores nacionais como Alceu Amoroso Lima (1883-1983), Érico Veríssimo (1905-1975), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Gilberto Freyre (1900-1987), entre outros.

Nesse mesmo ano, Bomfim foi nomeado por Pereira Passos, então prefeito do Rio de Janeiro, diretor da Instrução Pública do Distrito Federal. E logo depois, esse autor entrou para a vida política, por intermédio de Pinheiro Machado (1951-1915), sendo eleito deputado federal em 1907. Durante esse período, ateve-se, quase inteiramente, aos debates sobre a reforma educacional.

Manoel Bomfim dirigiu o Pedagogium por dezessete anos, de 1896 a 1905 e de 1911 a 1919, quando a instituição foi extinta.54 Na década de 1920, o sergipano se dedicou quase

51 Desta revista só foram produzidos cinco números.

52 AGUIAR, Ronaldo Conde. Op. Cit., p. 255.

53 Cabe lembrar que Manoel Bomfim participou da fundação da Universidade Popular, em 1904, projeto idealizado pelo alagoano Elysio de Carvalho. Essa experiência inédita durou poucos meses.

54 Pelo prefeito Paulo de Frontin.

exclusivamente às aulas na Escola Normal e a preparar seus livros, além de contribuir para jornais. A produção de Manoel Bomfim se intensificou no final dessa década e início de 1930, quando o escritor estava enfermo.55 Diagnosticado com câncer e passando por muitas cirurgias, Bomfim ainda escreveu O Brasil na América: caracterização da formação brasileira (1929), obra que ele destacou como sendo uma continuidade de América Latina:

males de origem; O Brasil na história (1930); O Brasil nação (1931); Cultura e educação do povo brasileiro (1932), essa última, obra póstuma. Manoel Bomfim morreu em abril de 1932, aos 63 anos, no Rio de Janeiro.