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CAPÍTULO III UMA NOVA IGREJA PARA UMA NOVA REALIDADE

1.1 Manoel de Mello e o novo modelo de programa

Apesar de Manoel de Mello não ser o pentecostal pioneiro no rádio, 46 foi por meio de seus programas em emissoras paulistas, com alcance nacional através das ondas curtas, que ele tornou-se um dos evangelistas mais populares do país, entre os anos 1950 e 1980. O crescimento do Movimento OBPC recebia diariamente novos adeptos, inclusive promovendo uma mudança no perfil dos freqüentadores de seus cultos, apesar de caracterizar seu grupo como “igreja dos desprovidos” por atrair uma população de baixa renda, com expressivo contingente de migrantes nordestinos. A socióloga Souza, constatou que em meados dos anos 60 os cultos celebrados na igreja improvisada no subterrâneo, onde estava sendo construído o mega templo, no Largo da Pompéia, recebiam pessoas da classe média paulistana. Segundo ela, dois fatores contribuíam para esse tipo de público, comum nas igrejas PHM, mas não entre os pentecostais que se caracterizavam como a religião dos pobres e analfabetos. 47 O primeiro fator era a posição pouco sectária que Mello demonstrava nas suas preleções radiofônicas e o segundo diz respeito aos cultos menos barulhentos e com músicas de ritmos mais lentos (SOUZA, 1969, p. 41).

Foi através dos programas radiofônicos que iam ao ar diariamente, a princípio através de uma única emissora, mas alguns anos depois eram repetidos em vários estados brasileiros através dos pastores das igrejas de Mello, que recebiam fitas magnéticas com mensagens gravadas e as reproduziam em emissoras locais, mas certamente através das programações radiadas pela Rádio Tupi de São Paulo, que Mello ganhou visibilidade nacional. O rádio não

46 Há muitos anos as igrejas evangelizam através do rádio e da televisão. Um dos pioneiros nesta área foi o

missionário Lawrence Olson, que, em 1955, lançou, e manteve por muitos anos em importantes emissoras, o programa “Voz das Assembléia de Deus no Brasil”. Neste mesmo ano, em Belém, PA, um grupo de jovens, reunidos na casa do missionário Hultgren, decidiu fundar um programa a que deram o nome de “O som do Evangelho”. Os autores da iniciativa foram: Josué Bezerra Cavalcanti, Eliel Rodrigues, Walmir Cohen, João Leitão, Abelardo da Silva e Firmino Feliciano. Este trabalho vem sendo mantido através dos anos. (OLIVEIRA, 1997, p. 195-6)

47 O perfil dos pentecostais brasileiros, em seus primeiros 80 anos, era composto de pessoas de baixa renda e

era um sucesso por si só, pois tão importante quanto o meio foi o conteúdo. Read, quando pesquisou o movimento pentecostal brasileiro em meados dos anos 60, fez as seguintes constatações acerca de Manoel de Mello:

Em meados da década de 1950, começou ele a fazer experiência com um programa de rádio, matinal. Seu modo popular e rústico alcançou êxito entre grande número de ouvintes dos lugares mais longínquos. Utilizou-se do tipo de música evangélica, popular no interior brasileiro, de ritmo marcado com os pés, pregando uma mensagem evangélica simples e clara. O rádio tornou- se a voz do Missionário, para anunciar suas campanhas, reuniões e cruzadas por todo o Brasil. Bastava anunciar no rádio que o missionário Manoel de Melo estaria em determinada cidade, em tal lugar a tal hora, isso era suficiente para garantir a reunião de grande massa popular. Diferentes cruzadas foram assim divulgadas, obtendo os mesmos resultados — grandes multidões aguardavam a chegada do dinâmico pernambucano, para vê-lo e ouví-lo. Anunciavam-se curas miraculosas pelo rádio, e por esse meio também faziam-se orações pelos casos difíceis. Um jovem pastor caiu de trinta metros de altura, ficando inconsciente durante quase um mês, mas todos os dias Manoel de Melo dava nova esperança aos seus ouvintes, orando pela recuperação do pastor, em estado de inconsciência. Realizou-se o milagre. O jovem pastor recobrou os sentidos e levantou-se para continuar a pregar o Evangelho! Apoiando-se em Manoel de Melo, subiu ao púlpito, numa segunda-feira à noite. Era uma resposta visível às orações. Muitos outros haviam sido curados, juntando-se todos num culto de ação de graças por essa vitória. (READ, 1967, p. 150)

Tanto o alcance como o modelo de programa produzido Manoel de Mello tinham características peculiares, que não eram encontrados nos demais grupos pentecostais. A audiência era nacional e tinha em torno de 5 milhões de ouvintes, segundo estimativas do próprio Missionário. Ele fazia programas de improviso e preferia apresentá-los ao vivo, evitando gravações. Entre um comentário do assunto do dia, trazidos pelos jornais, e as prédicas ele apresentava música evangélica, do tipo mais popular. Disse Read:

Os números vocais são acompanhados por violão ou acordeão, com muito rítmo. Manoel de Melo toma como objeto de suas programações, acontecimentos recentes, fatos politicos, escândalos nacionais, e outros temas para realizar uma típica cruzada Manoel de Melo. Éle não tem mêdo de entrar no campo da Política para denunciar atos sórdidos, expondo-os, citando nomes e clamando por reformas. E assim prossegue, mostrando que, não obstante, o caminho do Evangelho constituí-se na melhor e única solução. (READ, 1967, p. 153-4).

Outra característica que tornava o programa melleano atraente, sobretudo das camadas mais pobres da população, era o fato de ler as cartas enviadas pelos ouvintes e orar pelos pedidos que eram feitos. Como no Brasil, naquela época, o telefone era algo para uma elite, o meio mais comum de comunicação entre a população pobre eram as cartas enviadas pelos Correios. Conta Tavares, que a quantidade de cartas que o programa recebia e o número de pessoas que compareciam às concentrações anunciadas pelo rádio, eram os principais meios de aferir a audiência do programa. (TAVARES, 2007). Alvarez diz que, o fato das pessoas simples, que viviam distantes, ouvirem seus nomes mencionados no ar, pelo evangelista, fazia com que se sentissem importantes e fortalecidas na fé, por saber que outras pessoas estavam orando por elas. (ALVAREZ, 1992, p. 33).

Os primeiros programas realizados por Mello receberam críticas de alguns líderes de outras denominações religiosas, por discordarem dos seus métodos. Além disso, se não bastasse o fato de ter sido excluído da principal denominação pentecostal de seus dias, a AD, que oficialmente não aprovava o uso do rádio por parte de seus membros (ARAÚJO, 2007, p 724), ele não apenas organizou sua denominação, mas também fazia diariamente programas radiofônicos pregando a cura divina e tocando músicas de estilo nada convencional (READ, 1967, p. 153). Isso se consistia em abominação para os grupos conservadores. Relata a biógrafa de Mello: “Viviam numa época em que tudo era pecado para muitos segmentos evangélicos. Assistir televisão era proibido, o aparelho de rádio era chamado de “a caixa do diabo” e o crente que possuísse um podia ser excluído do rol de membros” (MELLO, 2006, p. 47). Como se não bastasse à oposição por parte dos pentecostais, porque Mello usava o rádio, havia também uma corrente de igrejas históricas do seguimento PHM que o criticavam por tocar músicas nada convencionais48 para seus dias, como aquelas onde havia a presença de instrumentos considerados mundanos. Diz Cunha que nos anos 50 e 60 havia uma reação negativa por parte dos referidos grupos para as músicas que tinham instrumentos considerados profanos como violão e teclado. (CUNHA, 2007, p.71). Entretanto, não havia consenso entre os crentes tanto das igrejas pentecostais como das PHM, ou pelo menos parte dos integrantes desses grupos não partilhavam da opinião de seus líderes. Basta dizer que, entre os ouvintes dos programas de Mello estavam fiéis dessas denominações, que não apenas participavam das programações como atendiam os apelos do radialista e compareciam nas concentrações.

48 As igrejas PHM e pentecostais, como AD e CC, não tinham por hábito usar instrumentos musicais como

violão, guitarra, bateria e outros comuns em músicas populares não religiosas. Até recentemente esses grupos permitiam apenas instrumentos clássicos como piano, órgão e aqueles que compõem as orquestras clássicas. (CUNHA, 2007, p.71)

Foram dias em que houve migração de membros das AD, CNE e outras denominações PHM, entre eles estavam os ex-metodistas que faziam parte de um grupo de mentores do movimento, Levy Tavares e Geraldino dos Santos.

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