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Capítulo 2: Do triunfo cortesão à ascensão dos trabalhadores urbanos

2.4. Manuais, Preceptivas, Advertências e Conselhos

Como já vimos, o discurso elaborado pelos cavaleiros da nobreza que escreveram sobre as regras de tourear a cavalo abrangiam um amplo aspecto de temas, do qual podemos tirar diversas e profundas informações sobre o período histórico que eles viveram. São tratados que nos oferecem uma visão geral do comportamento que o toureador deveria ter na Plaza Mayor, seus valores pessoais, sua ética, sua glória e os privilégios que ele poderia alcançar, num espaço de intensa interação social e vida política.

Os cavaleiros que escreviam as preceptivas de toureio equestre, nos séculos XVI e XVII, acreditavam que esta prática havia sido criada pela própria nobreza, em tempos remotos, como uma atividade cortesã que demarcava um espaço cultural de afirmação de

seus privilégios, como também ocorria com a prática da caça315. Afirmando este princípio, o próprio rei participava desse tipo de festa de cavalaria, considerada de fato como um exercício de guerra para os tempos de paz, superior aos antigos torneios ou aos jogos de justas, por conter a experiência de um perigo verdadeiro, exaltando de forma mais completa as virtudes do jinete.

Os livros de equitação e cavalaria eram chamados genericamente de livros de

jineta, porque esta forma de montar a cavalo era preponderante na Espanha, desde o

século XVI. Como já vimos, esta maneira de montar à jineta prevaleceu até o princípio do século XVIII, quando em virtude da mudança dinástica as novas normas da corte estabeleceram a montaria de brida, por ser o estilo da tradição francesa de cavalaria, com um estribo comprido, transferindo a ação de controle do cavaleiro por meio da boca do cavalo, e modificando duzentos anos de tradição espanhola em estribos curtos, nos quais preponderava a condução do cavalo pelos joelhos do cavaleiro bem dobrados. Como a montaria à jineta era a única adequada para o exercício do toureio a cavalo, na forma do

rejoneo, a mudança do estilo de montar contribui para o abandono das touradas

cavalheirescas pela nobreza nos oitocentos.

Os antigos tratados e advertências que regulavam o toureio escalonavam, por meio de preceitos e orientações, o desenvolvimento de lances e suertes. Estas preceptivas taurinas não inventavam as regras de como deveria ser praticado o toureio, mas sim fixavam como seriam praticadas com eficiência determinadas suertes, tanto no presente como no passado. Assim, os ensinamentos do cavaleiro toureador, expostos nos tratados, vinham de conhecimentos adquiridos e consolidados por eles no coso taurino. As regras concebidas pretendiam agrupar a teoria e a prática, permitindo espaços para uma liberdade de critério, mas obedecendo aos preceitos do ofício que eram fundamentados na habilidade com o cavalo e no conhecimento comportamental do touro.

Muitos cavaleiros manifestaram uma vocação reguladora do espetáculo, por meio da tarefa de transmitir conselhos, que ajudassem a solucionar as dificuldades que o toureio a cavalo apresentava. Estes cavaleiros preceptistas recomendavam principalmente para os jovens iniciantes que o exercício equestre taurino fosse praticado

315Ortega y Gasset, José. Sobre la caza, los toros y el toreo. Alianza Editorial. Madri. 2007. Páginas 13 até

nas festas de menor visibilidade que aconteciam no campo, antes de se exporem nas

apresentações da corte, como também sugere José Daza em seu manuscrito316.

Já vimos que o toureio cavalheiresco inicia sua presença nas plazas no século XVI, ainda no reinado de Carlos V, com a lanzada a caballo, evoluindo depois para o

rejoneo317 no século XVII.O exercício equestre da lanzada se utilizava da cela a la brida,

também chamada nos manuais de estradiota, tradicional da nobreza europeia e, na época, também da espanhola, onde os cavalos eram mais robustos do que ágeis. A cela era usada porque o toureio era lento, com poucas variações de suertes, de movimento limitado com o cavalo e focado na morte do touro. Este tipo de montaria permitia uma postura do cavaleiro praticamente de pé na cela, apoiado nos estribos com a perna esticada, diferente da montaria a la jineta, popular e muito usada no campo pelos vaqueiros, onde o cavaleiro ficava sentado na cela, com as pernas bem dobradas, quase na altura do pescoço do cavalo.

No período inicial do toureio a cavalo, as lanzadas não tinham regras fixas, mas com o tempo começaram a ser normatizados os procedimentos para quando o touro

embestia. Gonzalo Fernandez de Oviedo318 conta-nos que Don Pero Ponce de León319 introduziu a enfrentamento com o touro parado, chamado de suerte rostro a rostro, com os olhos do cavalo tampados para que ele não se assustasse com o ataque do touro, e uma lança esticada na altura do pescoço do cavalo, com o corpo perpendicular em relação ao touro320.

A suerte do alanceamiento, ou seja, tourear com lanças, tornou-se tão usual para os cavaleiros da corte que o imperador Carlos V matou um touro pessoalmente em uma

316Daza, José. Precisos manejos y progressos del arte del toreo. Edit. R. Reyes Cano y Pedro Romero de

Solís. Universidade de Sevilha. Real Maestranza de Caballería de Sevilla. Fundação de Estudos Taurinos. Sevilla. 1999. Manuscrito original inédito de 1778.

317 Também chamado de suerte de garrochón.

318 Gonzalo Fernandez de Oviedo y Valdés (1478-1557). Nobre asturiano, escritor, cronista e capitão do exército imperial de Carlos V. Escreveu uma importante obra de genealogia, as Quinquagenas de los Reyes, Duques, Caballeros y personas notables de España, em 3 volumes no ano de 1555. Apenas o primeiro foi publicado.

319 Pero Ponce de León (1509-1573). Cavalheiro da casa nobiliária de Arcos, título hereditário concedido a casa Ponce de León. Filho do Marques de Zahara e irmão do Duque de Arcos.

320 Fernandez de Oviedo y Valdés, Gonzalo. Las Quinquagenas de la nobleza de España. Tomo I. Publicação da Real Academia de la História. Imprenta y fundición de Manuel Tello. Madrid. 1880. Apud Cossío, José Maria de. Los toros. Tratado Técnico e histórico. Volumes 5. Edit. Espasa Calpe. Madrid. 2007. Página 109.

lanzada em Valhadolide321, para celebrar o nascimento de seu filho Felipe322. Há diversas outras narrativas que descrevem o trato de Carlos V com touros, inclusive diante de sua imperatriz e damas da corte, enfrentando um touro grande e negro chamado Mahoma, segundo relatos feitos por testemunhas oculares que transformaram o acontecimento

taurino num manancial simbólico de engrandecimento da figura real323.

Portanto, para o cavaleiro, enfrentar o touro tinha um caráter de autêntico desafio ligado às finalidades da cavalaria e de nobreza, nas quais via-se obrigado por questões de honra a enfrentar o perigo e a correr riscos. Se por um outro lado, as touradas a cavalo eram repletas de elementos que confirmavam esta honra cavalheiresca, seu maior temor era que houvesse o efeito contrário, e o cavaleiro fosse motivo de riso, escárnio ou desonra, diante do público que o assistia.

Quando um cavaleiro fidalgo comparecia na plaza e executava suertes com o touro, não podia parecer que era motivado apenas por uma razão de entretenimento ou

afición. Em diversos tratados de tourear a cavalo se afirmava explicitamente que na lidia

o cavaleiro tinha por obrigação amparar e defender, o lacayo ou qualquer outra pessoa do povo que toureasse a pé.

Entre os diversos tratados que veremos a seguir, Fernando Valenzuela324

afirmava categoricamente que o nobre tinha como único pretexto para tourear a suerte de

socorro, que prestava aos lacayos. Da mesma forma, Don Jeronimo Villasante Laso de la

Vega, reitera que socorrer os chulos325 com prontidão é o principal motivo da lídia

321 Moratín, Nicolás Fernández. Carta histórica sobre el origen y progresos de las fiestas de toros en

España. Imprenta de Pantaleon Aznar. Madrid. 1777. Este acontecimento também é relatado por Frei Prudêncio Sandoval e Fernandez de Oviedo y Valdés, Gonzalo. Quinquagenas de los Reyes, Duques, Caballeros y personas notables de España. Manuscrito em 3 volumes. 1555. Biblioteca Nacional de Madrid. Praticamente toda bibliografia taurina se refere a este acontecimento, que foi público, para a corte e convidados estrangeiros.

322 Futuro rei Felipe II.

323 Zapata, Luis. Miscelánea: varia história. Edición preparada, anotada y nuevamente transcrita por

Manuel Terrón Albarrán. Badajoz. Institución Pedro de Valencia. Edición fac-símile. 1983. Apud. Cossío, José Maria de. Los toros. Tratado Técnico e histórico. Volumes 5. Edit. Espasa Calpe. Madrid. 2007. Página 113. Luis Zapata de Chaves (1526-1595). Escritor espanhol e comendador da Ordem de Santiago. De família nobre, viveu na corte desde os nove anos de idade junto à imperatriz Isabel e depois a serviço de Felipe II. Em 1592 escreveu a obra que o tornará célebre, Miscelánea, que se trata de um conjunto de histórias pitorescas sobre a vida política, literária e social do seu tempo, misturado com piadas, aforismos, narrativas de superstições, milagres, atos cavaleirescos, duelos, costumes, fofocas e conflitos diversos da sociedade mundana. Para Menéndez Pelayo a obra é uma fonte inesgotável sobre a vida cotidiana no século XVI espanhol. O manuscrito encontra-se na Biblioteca Nacional de España. Zapata, Luis. Miscelánea. Manuscrito. Valladolid. 1592.

324 Fernando de Valenzuela y Enciso (1636-1692). Primeiro marques de Villasierra, valido da rainha Mariana da Áustria, quando regente do rei Carlos II.

taurina. Don Luis de Trexo nos informa no título de seu manual que encontraremos regras, advertências e obrigações, entre elas a de que o cavaleiro tem o dever de mostrar aquilo que o diferencia dos demais súditos, exibindo o sangue nobre e generoso que se arrisca pelos necessitados e tem no socorro o principal objetivo da lidia. Por isso este tratado, por exemplo, é mais voltado para o rigor do comportamento cavalheiresco do jinete do que propriamente para a evolução técnica do toureio.

Os tratados de tourear a cavalo adotavam como técnica normas de comportamento e convenções de honra, aspectos éticos de como proceder em cada situação da lídia, regulamentando onde deveriam atuar as obrigações do cavaleiro, fundamentado numa lógica moral correspondente àquela que deveria ser praticada na sociedade diante das situações de conflito, com o objetivo de preservar a reputação e o bom nome de sua casa familiar. Assim, os tratados de tourear a cavalo foram verdadeiros

Espelhos de Príncipe, conjuntos de regras de conduta, documentos fundamentais para se

entender como era pensada a ética e o comportamento cortês no século XVII.

Mas esse engenhoso argumento, que procura justificar a presença apaixonada da nobreza na lídia taurina, como elemento ordenador e protetor, não corresponde exatamente às descrições das relações de festas do período, quando o assunto é sobre os enfrentamentos com o touro em festas mais populares. Há vários relatos que narram

rejoneos menos formais, nos quais a participação desordenada da plateia interferia na

performance do cavaleiro, e na maior parte das vezes eram as pessoas do povo que acabavam auxiliando o jinete caído, colocando sua vida em risco ao enfrentar o touro sem

as ferramentas adequadas326. Nas corridas de touros oficiais isto não acontecia, porque

eram mais regradas e tinham nos lacayos o papel de socorro a pé aos cavaleiros quando necessário. O empeño a pie nas touradas cavalheirescas, presente no rejoneo, foi um precedente técnico taurino importante, porque atuou na opinião pública do aficionado para o ordenamento futuro do toureio.

A síntese e análise pontual dos principais tratados de tauromaquia, que faremos a seguir, tem como finalidade aprofundar o entendimento das transformações que ocorreram nas corridas de touros durante os séculos XVI, XVII e XVIII, e por meio de suas particularidades melhor compreender o fenômeno do desenvolvimento das touradas profissionais.

326 Cossío, José Maria de. Los toros. Tratado Técnico e histórico. Volumes 5. Edit. Espasa Calpe. Madrid. 2007. Página 116.

As transformações acorridas na lídia taurina correspondem às profundas mudanças sociais que ocorrem na Espanha no século XVIII, como a queda do prestígio da monarquia e a ascensão de uma nova mentalidade mais afinada com a burguesia. As disputas em torno das apropriações identitárias das corridas de touros, relativas a quais grupos elas pertencem e a quais grupos elas representam, fenômeno que ocorre desde o século XVI, tornam-se fundamentais para a compreensão dos sentidos ocultos nos tratados de toureio a cavalo seiscentistas, na defesa que fazem de uma tese de origem nobre, para a lídia taurina.

El tratado de la brida y jineta y de las cavallerías que en entrambas sillas se hacen y ensejam a los cavallos y de las formas de torear a pie y a cavallo, de Don Diego

Ramírez de Haro327, destríssimo328 praticante do toureio a cavalo, foi escrito em um ano

indeterminado entre 1540 e 1578 e não foi impresso em seu tempo329. Três manuscritos

se conservam na Biblioteca Nacional de Espanha. Um do século XVI, contendo setenta e três lâminas desenhadas a bico de pena, outro mais completo do mesmo período, mas sem as ilustrações, e há uma cópia manuscrita do século XVIII. É a mais antiga obra de cavalaria de jineta, que trata do toureio a cavalo e também das suertes a pé do cavaleiro,

sendo considerada como o marco inicial da Bibliografia Taurina330.

O manuscrito é dividido em três partes, duas partes exclusivamente para o toureio a cavalo. A primeira trata do comportamento do cavaleiro e a segunda aborda a parte técnica das suertes. Também analisa os tipos de touros e como atacam. Daquelas

suertes do toureio a cavalo, o autor destaca o uso do rejón de uma forma diferente e única,

entre aquelas vistas nos manuais e tratados de tauromaquia de períodos posteriores. Esta particular descrição do uso do rejón pode indicar o resquício de uma prática de época mais remota. Também descreve suertes com a espada, de cima do cavalo, como arma

auxiliar para o caso de o touro acometer331, e a lanzada para as selas à Brida.

327 Don Diego Ramirez de Haro (1520-1578). Nobre e cavaleiro da corte de Felipe II, terceiro senhor de Bornos, tratadista de equitação e tauromaquia, toureador a cavalo e aficionado. Apud. Rodriguez-Ponga y Salamanca, Pedro. Dicionário Biográfico Español. Vol. 42. Real Academia de la História. Madrid. 2013. . Vários autores de manuais taurinos citam o cavaleiro Diego Rodrigues de Haro, entre eles Argote de Molina e Tapia y Salcedo no seu tratado Exercício de la Gineta.

328 Destríssimo: Um dos sinônimos de Toureiro. A palavra também significa habilidoso, mas no caso, ser toureiro e ser habilidoso é a mesma coisa.

329 Ramírez de Haro, Diego. El tratado de la brida y jineta y de las cavallerías que en entrambas sillas se hacen y ensejam a los cavallos y de las formas de torear a pie y a cavallo. Manuscrito. Escrito entre 1540 e 1578. Biblioteca Nacional de Madrid. Biblioteca Digital Taurina.

330 Carmena y Millán, Luis. Bibliografia de la Tauromaquia. Imprenta de José M. Ducazcal. Madrid. 1883.Página 98.

O terceiro volume foi dedicado, entre outras coisas, ao toureio a pé realizado pelo cavaleiro, uma prática ainda sem prestígio. O autor detalhou neste volume a ação do cavaleiro quando precisava descer do cavalo e enfrentar o touro no chão, aproximando-o das tauromaquias que foram produzidas posteriormente, relativas ao toureio a pé.

Os conselhos e advertências de Ramírez de Haro para o toureio a pé tem grande exatidão e minúcia, sendo suas regras, apesar de escritas no século XVI, já totalmente de acordo com aquelas praticadas no século XVIII. Discute questões de como o touro deve ser fechado nos currais, as suertes a pé com a capa, as suertes a pé com a espada, com

nomenclaturas que ainda não são exclusivas da lidia, mas emprestadas da esgrima332. São

raros os tratados desse período que se referem às suertes a pé que devem ser executadas pelo cavaleiro, sendo este o pioneiro.

O Tractado de la Cavallería de la Gineta333, de Don Pedro de Aguilar, natural

de Antequera, Andaluzia, publicado em Sevilha no ano de 1572, é considerado um clássico da equitação e um marco na tratadística taurina do século XVI, por sua estrutura narrativa e clareza dos conceitos. Teve uma segunda edição, revista e ampliada em 1600, na cidade de Málaga, com mais conselhos a respeito do comportamento exemplar do cavaleiro. É obra sobre montaria, com algumas regras sobre a lanzada, que ainda considera o toureio uma atividade cavalheiresca secundária, para ser realizada no caso de o nobre se deparar com um touro bravo nas proximidades das ruas ou nas festas. Ou seja, para Aguilar o nobre não deveria ir para a praça de touros com a intenção do embate.

Apesar de ser uma obra mais voltada para a equitação do que para a lidia taurina, o livro foi muito popular e teve rapidamente uma terceira edição, em Portugal. Isto é revelador da importância do tratado, principalmente se levarmos em conta que a grande quantidade de publicações de livros taurinos no século XVII, tornavam as velhas

preceptivas obsoletas rapidamente, diante da quantidade de novas publicações, que

traziam técnicas mais inéditas334.

Devemos sempre lembrar, para entendermos o processo de construção das touradas cavalheirescas, que os tratados eram equestres, com a presença do exercício do

332 Cossío, José Maria de. Los Toros. Tratado Técnico e histórico. Volume 4. Espasa Calpe. Madrid. 2007. Páginas 513 até 516.

333 Aguilar, Pedro de. Tratado de la Cavallería de la Gineta. Manuscrito com ilustrações. Sevilla. 1572. Biblioteca Nacional de Espanha. Apud Cossío, José Maria de. Los Toros. Tratado Técnico e histórico. Volume 4. Espasa Calpe. Madrid. 2007. Página 516 até 519; e Carmena y Millán, Luis. Bibliografia de la Tauromaquia. Imprenta de José M. Ducazcal. Madrid. 1883. Página 135.

334 Díaz Arquer, Graciano. Libros y folletos de toros. Administración Librería de Pedro Vindel. Madrid. 1931. Página 6.

toureio a cavalo, mas que com o crescimento da prática taurina tornaram-se manuais exclusivos deste gênero de equitação.

O Livro de la Montería escrito a pedido de Don Alfonso XI (1311-1350) e seu famoso anexo, feito posteriormente, o Discurso sobre la montería de Gonzalo Argote de Molina, foi publicado em Sevilha no ano de 1582. A obra é composta de três tomos e trinta e nove ilustrações, e trata-se de fato de um livro de viagem, escrito na primeira metade do século XIV, em que lugares e paisagens da Espanha são descritos

detalhadamente335. No século XVI vários capítulos foram acrescentados e então a obra

foi publicada com textos de Argote de Molina. O capítulo XXXIX336 indica que a

atividade taurina se encontra para ele ainda dentro de uma tradição venatória no século XVI, ou seja, ligada à caça. O Discurso sobre la montería de Argote de Molina é considerado das mais belas e antigas tradições em termos de cultura escrita dedicada à

tauromaquia337.

Libro de la Gineta y descendência de los caballos Guzmanes338, de Don Luis de

Bañuelos y de la Cerda. Escrito em Córdoba no ano de 1605339, do capítulo VIII ao XI

dedica-se ao toureio a cavalo. Nesta obra confirmam-se as corridas de touros como um atributo de valor e de brio da nobreza, para valorizar-se diante do rei ou diante de grandes

senhores do reino. O livro aborda todas as quatro suertes do toureio a cavalo da época340,

mas aponta uma importante novidade na relação do cavaleiro com o touro na suerte de

varas, descrevendo e exigindo uma atitude mais ativa do cavaleiro. Isto trouxe inovação

significativa no toureio, tornando esse tratado conhecido no seu tempo.

335 Argote de Molina, Gonzalo. Livro de la montería que mando escrevir el muy alto y muy poderoso Rey Don Afonso de Castilla y León, ultimo deste nombre. Impreso por Andrea Pescioni. Sevilla. 1582. Biblioteca Nacional de Madrid. Documento digitalizado; e Biblioteca Provincial de la Universidad de Sevilla. O manuscrito mais completo e conservado encontra-se na Biblioteca do Palácio do Escorial. Gonzalo Argote de Molina (1548-1596) foi um Escritor, poeta, historiador e genealogista. Também autor da famosa obra Nobleza de Andaluzia de 1558.

336 Título: De la forma que se ha de tener en dar a los toros lanzadas.

337Cossío, José Maria de. Los toros en la poesia. Tomo I. Editorial Espasa-Calpe. Madrid. 1959. Página 106.

338 Bañuelos y de la Cerda, Luis de. Libro de la Gineta y descendência de los caballos Guzmanes que por otro nombre se llamam Valençuelas. Manuscrito. Córdoba. 1605. Biblioteca Nacional de Madrid. Documento digitalizado.

339 Bañuelos y de la Cerda, Luis de. Libro de la Gineta y descendência de los caballos Guzmanes. Publicado