4.2 MANUAL DOS CURSOS DE FORMAÇÃO DA ANAC
4.2.3 Manual do Curso de Instrutor de Voo de Avião
O manual do curso de instrutor de voo MMA 58-16 aprovado pela portaria do DAC N° 233/DGAC, do dia 26 de julho de 1992. (BRASIL, 1992)
O manual do curso de piloto privado está dividido em 12(doze) capítulos, nestes capítulos pode-se elencar três capítulos principais para a pesquisa com foco na formação do processo decisório para o aspirante a instrutor de voo.
O manual está divido principalmente em: - Plano curricular;
- Orientação didática;
- Avaliação de desempenho do aluno.
No primeiro capítulo a ser estudado é o do plano curricular na igual ordem pesquisada nos manuais anteriores. O plano curricular está dividido na parte teórica e pratica do curso.
Aparte teórica esta subdivida em área básica que de acordo com a definição do manual:
[...] a) Área básica – reúne os conhecimentos capazes de posicionar o aluno no
âmbito do Sistema de Aviação Civil, familiarizando-o com as normas e os órgãos mais diretamente vinculados à instrução e à prática do aerodesporto, a doutrina da Segurança de Voo e os conhecimentos técnicos relativos à aeronave em que se realizará a instrução futura. Apresenta também a regulamentação emanada do Código Brasileiro de Aeronáutica aplicável ao âmbito de atuação do Instrutor de Voo – Avião. (BRASIL, 1992, p. 31).
Após é iniciada a área técnica especializada que somada a área básica contem 65 (sessenta e cinco) horas aula totais requeridas. A área técnica especializada contém de acordo com o manual os seguintes objetivos.
[...] b) Área técnica especializada – desdobra-se em subsídios teóricos e práticos,
tanto didático-pedagógicos como aeronáuticos, e fornece:
- Os conhecimentos adequados às condições de ensino específicos da instrução aérea, qualificando o futuro INVA para desenvolver aulas teóricas, bem como para realizar o briefing/debriefing de forma tecnicamente conveniente;
- Os conhecimentos aeronáuticos que reforçarão a bagagem já possuída pelos alunos em Teoria de Voo, conferindo-lhes uma base sólida na compreensão dos fenômenos que se fazem presentes durante o voo e uma pequena fundamentação teórica que lhes explica as alterações fisiológicas decorrentes do voo;
- A familiarização minuciosa com as manobras pertinentes no treinamento prático e suas respectivas peculiaridades. (BRASIL, 1992, p.31).
A instrução teórica para o curso de instrutor de voo aborda de forma logica conteúdos mais voltados a comunicação professor aluno, noções de pedagogia, além de revisar os conteúdos técnicos já abordados nos cursos anteriores de piloto privado e comercial de avião. Na disciplina “O Instrutor de Voo – Avião: Preparação e Atividade” com duração mínima de 2(duas) horas aula, esta previsto a abordagem ao perfil desejado para o de instrutor de voo:
[...] 2.1 Importância da dedicação aos estudos teóricos, treinamento e reciclagem 2.2 O bom desempenho do instrutor – Características pessoais físicas e psicológicas importantes: iniciativa, objetividade, organização, disciplina, segurança, comunicação e relacionamento
2.3 Influência da saúde sobre as condições necessárias à prática da pilotagem. Limitações psicofísicas à pilotagem.
2.4 O fator disciplina – Respeito às normas. Avaliação das possibilidades e limitações da aeronave. (BRASIL, 1992, p. 35).
A busca pelo perfil pedagógico adequado para a função de ministrar instrução teórica e prática de voo já é abordado no início das aulas teóricas.
Após a revisão de disciplinas que revisam conhecimentos técnicos das aeronaves e legislação pertinente, outra disciplina também importante ministrada é a da segurança de voo, com os fatores contribuintes para acidentes e incidentes. Esta contém os mesmos conteúdos ministrados no curso de piloto comercial, sem maiores diferenciações.
A disciplina que mais pode-se destacar para o incentivo a formação do processo decisório da parte teórica do curso de instrutor de voo, é a disciplina “ A Crítica”.
Na disciplina proposta com apenas 4 (quatro) horas aula, possuem objetivos que instigam o aspirante a instrutor de voo para aprimorar o seu processo de crítica além de também:
[...] Reconhecer a importância da avaliação no processo ensino aprendizagem; - Identificar a avaliação por apreciação como um dos métodos avaliativos; - Distinguir os requisitos desejáveis nos instrumentos utilizados na avaliação por
apreciação;
- Diferenciar os erros comuns de apreciação;
- Reconhecer a importância da crítica como processo de aprimoramento de desempenhos;
- Identificar a finalidade da crítica; - Identificar os tipos de crítica;
- Caracterizar os princípios norteadores de uma crítica;
- Distinguir as fases de planejamento na organização da crítica. (BRASIL, 1992 p. 53).
A seguir na parte do programa da pratica de voo de instrução de voo, o curso de instrutor compreende 27(vinte e sete) horas de voo mínimas dividas em 4(quatro fases):
- Fase I – Adaptação – 5(cinco) horas e 30(trinta) minutos; - Fase II – Preparação do Instrutor – 16(dezesseis) horas; - Fase III – Navegação – 4(quatro) horas.
- Fase IV – Cheque de INVA – 1(uma) hora e 30 (trinta) minutos.
Cada fase conta com um objetivo especifico. Na fase I de adaptação é a fase onde o aspirante a instrutor de voo a se familiariza com a aeronave utilizada no treinamento.
Na fase II denominada de preparação do instrutor, o objetivo é dar mais confiança do aspirante a instrutor na pilotagem da aeronave, deixando este voar solo a maior parte do tempo, mas com avaliações periódicas de voo em algumas missões que preveem duplo comando4
Na fase III tem como objetivo aperfeiçoar o voo de navegação por contato5 com
precisão.
No capítulo “orientação didática”, estão elencados basicamente os mesmos elementos presentes no manual de piloto comercial. No manual estão presentes orientações acerca da importância da boa comunicação e o motivo na qual a maioria das disciplinas abordadas no curso teórico enfatizam essa importância.
[...] Como se trata de alunado que, após o curso, vai exercer atividade que requer um bom poder de comunicação, são recomendadas situações em que os alunos possam de fato comunicar-se em classe. Trabalhos em grupo, debates e simulações de fatos verídicos seguidos de comentários são experiências que propiciam maior desembaraço na expressão verbal. Como culminância destas atividades recomenda-se que cada futuro instrutor seja avaliado numa situação de aula expositiva, utilizando técnicas de ensino abordadas durante o curso. (BRASIL, 1992, p. 84).
No manual do curso de instrutor de voo se reconhece o fato do aspirante a instrutor de voo possuir pouca experiência de voo ao iniciar o curso, visto que como já fora tratado no capitulo do RBAC 141 e 61 onde é abordado o nível de experiência requerido para ministrar instrução de voo real e as dificuldades de se colocar requisitos muito altos de experiência previa (mesmo que isso seja altamente recomendável sob o ponto de vista pedagógico), para exercer a função de instrutor de voo.
4 Duplo comando é o termo usado quando em voo de instrução, o aluno está sob supervisão do instrutor de voo durante a pilotagem, situação oposta ao denominado voo solo, onde o aluno estará sozinho voando a aeronave.
5 Navegação baseada apenas nas referências do solo utilizando cartas WAC e por estimados calculados em voo utilizando computador de bordo (ferramenta analógica utilizada para cálculos e conversões).
Ao final do capitulo encontra-se menção a orientações da postura do instrutor de voo, buscando incentivar o ensino de processo crítico ao aluno e aumentar a comunicação e gerenciamento de recursos de cabine utilizando do briefings pré-voo e dos debriefings após as missões de treinamento.
A partir do item 10.1, o manual trata da avaliação pratica do aluno, ou seja, o exame prático para a obtenção da licença de instrutor de voo. (BRASIL, 1992).
O primeiro aspecto avaliado é a parte teórica do curso com limites mínimos para a aprovação de 70% e de 75% de presença nas aulas.
Na avaliação pratica de voo o manual não apresenta orientações detalhadas sobre os aspectos avaliados, colocando apenas a ficha de avaliação de voo como base para a aprovação ou não do aspirante a instrutor de voo.
Este é um ponto importante a ser levantado, pois no manual de curso do piloto privado e do piloto comercial, estão específicos em cada fase e em cada item avaliado os parâmetros que devem ser cobrados. Parâmetros mínimos e recomendados para cada manobra avaliada.
No manual do curso de instrutor de voo isso não está presente, podendo-se concluir que o aspirante a instrutor de voo já deve ter adquirido os conhecimentos ou já fora avaliado nos cursos de piloto privado e piloto comercial, habilitações consideradas como requisitos para o ingresso no curso de instrutor de voo. (BRASIL, 1992).
[...] 5.1 REQUISITOS
São requisitos para inscrição de candidatos ao Curso de Instrutor de Voo – Avião (INVA):
a) Ter a licença de Piloto Comercial – Avião ou, pelo menos, o Certificado de Conhecimento Teórico (CCT) de Piloto Comercial
– Avião e mais de 150 horas de voo;
OBS.: os que forem matriculados sem a licença de PC - Avião terão que obtê-la antes do cheque final de INVA.
b) Ter completado o 2º grau de escolaridade regular ou equivalente. (BRASIL, 1992, p. 25).
Segue a seguir a ficha de avaliação para a obtenção da habilitação de instrutor de voo onde pode-se observar ser uma ficha genérica para qualquer outra habilitação e também não possui qualquer aspecto avaliativo diferenciado para a habilitação.
Figura 9 - Ficha de avaliação de Voo - INVA
Fonte: BRASIL, Ministério da Infraestrutura, ANAC, MMA 58-16, Anexo 12, 1992.
Pela importância que uma avaliação de instrutor de voo tenha de ser tanto quanto ou até mais importante em comparação as demais habilitações devido ao impacto na formação de novos pilotos que serão orientados justamente por esse novo instrutor de voo, o manual e o próprio programa deveriam ser mais elaborados e revistos, principalmente se for comparado aos demais manuais dos cursos de piloto já estudados na presente pesquisa.
5 ACIDENTES E INCIDENTES NA INSTRUÇÃO DE VOO
Os acidentes e incidentes infelizmente são uma realidade em todos os setores em que o homem (ser humano), convive. Para poder evitar esses acidentes e incidentes, criou-se uma cultura de prevenção, onde o estudo das causas, dos fatores contribuintes, dos níveis de riscos e demais indicadores ajudam a humanidade a entender melhor como mitigar riscos e elevar a segurança operacional nos mais variados setores.
Na aviação essa cultura é muito difundida, o que ajudou a aviação civil e militar a alcançar níveis de confiança altíssimos.
Na presente pesquisa o foco está direcionado para um setor bem específico da aviação civil, a aviação de instrução de voo. A aviação de instrução de voo é o primeiro passo onde os profissionais da aviação iniciam as suas carreiras e é nela onde as doutrinas de segurança operacional, gerenciamento de riscos e de cultura de segurança de voo em geral são enraizadas.
O mais recente estudo do CENIPA (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), voltado a aviação de instrução de voo compilou informações de 10(dez) anos de relatórios finais de acidentes e incidentes na instrução de voo. Nesses dados podemos observar a quantidade de acidentes e incidentes com fatores contribuintes relacionados ao julgamento, tomada de decisão e processo decisório.
Figura 10 - Fatores contribuintes relatórios finais CENIPA
Ao relacionar a porcentagem dos acidentes demonstrados na estatística acima no período de 10(dez) anos com 168(cento e sessenta e oito) acidentes, pode-se considerar como fator contribuinte o processo decisório em 13,9% dos acidentes. Ao somar e relacionar o processo decisório com o julgamento de pilotagem, onde são fatores conectados, o percentual sobe para 65,4%. (BRASIL, 2017). Percentual este significativo e dependendo da abordagem estatística, altamente preocupante.
Com esses dados em mãos pode-se fazer uma conexão entre a porcentagem de acidentes na instrução de voo com a importância que o processo decisório, tomada de decisão e gerenciamento de cabine recebem nos programas de formação mínimos exigidos pela ANAC. Durante a presente pesquisa, o processo decisório depende e é influenciado por diversos fatores que devem ser estudados periodicamente, mantendo o nível de atenção elevado em conjunto de uma proficiência de igual patamar. A proficiência essa não está apenas relacionada a proficiência técnica de pilotagem, mas sim a uma proficiência mental assertiva nas mais variadas condições, sejam normais, anormais e principalmente de emergência.
No próximo tópico será elencado um relatório final de voo em instrução com inúmeros elementos estudados pela presente pesquisa onde pode-se observar que a combinação de fatores e estressores no processo decisório, acarretaram em consequências catastróficas.