3.1 O MANUAL PARA ELABORAÇÃO DO PDE-ESCOLA E A CONCEPÇÃO DE GESTÃO
3.1.1 O manual do PDE-Escola elaborado pelo Estado do
O Estado do Paraná aderiu aos programas implementados pelo MEC quando
firmou o Compromisso Todos pela Educação em 2007, apesar de saber que a
concepção presente em muitas das ações e programas, dentre os quais o
PDE-Escola, iam de encontro com a concepção, sobretudo de gestão escolar, defendida
pelas políticas estaduais desenvolvidas durante o governo Requião. No entanto, ao
articular a execução de suas ações em âmbito estadual e municipal ao recebimento
dos recursos federais, o MEC indiretamente obriga os estados e municípios a
aceitarem o Compromisso, pois a não aceitação deste implica na ausência de
recebimento de recursos provenientes da esfera federal.
Porém, mesmo firmando o compromisso com o governo federal, o Estado do
Paraná, na tentativa de fazer enfrentamento à concepção posta no manual do MEC
e de torná-lo mais adequado à realidade das escolas da rede estadual, solicitou ao
MEC a autorização para alterar o conteúdo dos instrumentos, ainda que não
pudesse alterar totalmente a ordem e as etapas da metodologia de planejamento
estratégico sugerida pelo PDE-Escola. Assim, a SEED, com a colaboração de
técnicos pedagógicos de NREs, reelaborou o manual do MEC com a intenção de
alinhá-lo às concepções defendidas nas políticas estaduais.
35Este enfrentamento se fez necessário visto que a SEED entendeu que as
concepções postas no manual do PDE-Escola elaborado pelo MEC não
correspondiam aos princípios da gestão democrática da educação, como, por
exemplo, eleição para diretores escolares, constituição e formação dos órgãos
colegiados de gestão: Conselho Escolar, Grêmio Estudantil, Conselho de Classe
Participativo – princípios que foram defendidos e, em alguma medida,
implementados na rede estadual nos últimos anos.
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Freitas et al. (2004) relatam que, quando da implementação do PDE-Escola no município de Dourados em 2002, cujo governo da gestão municipal era representado pelo PT, foram realizados debates, reflexões e análises decorrentes do movimento da Constituinte Escolar em andamento no município, os quais contribuíram para desvelar as contradições existentes entre a gestão
democrática da educação e outras formas de gestão. Assim, por entender que a concepção de gestão posta no PDE-Escola vai de encontro aos princípios da gestão democrática, muitas escolas solicitaram desistência de adesão ao PDE. Contudo, no âmbito municipal, a proposta do PDE foi aceita, uma vez que uma opção que não contemplasse o Fundescola e os programas a ele vinculados significaria perder recursos para a educação.
[....] a SEED-PR e suas instâncias descentralizadas, os Núcleos Regionais de Educação (NREs), optaram por remodelar os instrumentos do Programa PDE-Escola, que ora apresenta-se às escolas estaduais integrantes do rol de prioridade do PDE Nacional. Visa adequar a metodologia dos instrumentos do PDE Escola aos princípios elementares de gestão democrática da educação que vem sendo defendidos e coletivamente implementados na rede estadual ao longo dos últimos anos (PARANÁ, 2008, p. 6).
Nesse sentido, o manual reformulado adota como pressuposto básico a
gestão democrática como princípio. Amaral (2010) explica que a gestão democrática
se insere num campo de disputa, resultado do caminho percorrido pelos diferentes
enfoques e ganhou corpo nas últimas décadas surgindo como um contraponto à
ênfase organizacional baseado nos princípios da gerência científica, com sua divisão
pormenorizada do trabalho. Portanto, a gestão democrática tem como intenção
superar as práticas administrativas consideradas neutras, visto que estas
expressam, conscientemente ou não, engajamento com alguma ideia. Destaca ainda
que no Brasil a busca pela democratização dos espaços públicos foi um processo
conturbado, pois diferentes interesses estavam em jogo. De um lado, interesses
patrimoniais e, de outro, interesses da sociedade civil na participação da gestão das
instituições públicas e na busca pela qualidade do ensino.
Apesar de não concordar com a concepção de gestão escolar posta no
manual do MEC, a SEED destaca a positividade do PDE-Escola como mais um
instrumento de planejamento das atividades desenvolvidas pela escola, o qual deve
expressar o Projeto Político-Pedagógico, deixando claro que um não substitui o
outro, mas que o PDE-Escola decorre do Projeto Político-Pedagógico.
Outra alteração bastante importante realizada pela SEED foi a mudança do
foco do gestor enquanto líder, descrito pelo MEC como principal responsável pelo
programa, atribuindo ao Conselho Escolar, enquanto instância máxima da gestão, o
papel do Grupo de Sistematização, responsável pela discussão e sistematização
dos instrumentos do PDE-Escola, além de participar da execução e
acompanhamento das ações definidas pelo coletivo escolar. De acordo com Souza
(2009, p.136), a gestão democrática é:
Um processo político que é mais amplo do que apenas as tomadas de decisão e que é sustentado no diálogo e na alteridade, na participação ativa dos sujeitos do universo escolar, na construção coletiva de regras e procedimentos e na constituição de canais de comunicação, de sorte a
ampliar o domínio das informações a todas as pessoas que atuam na/sobre a escola.
Contudo, alterações mais visíveis foram realizadas nos os questionários do
Instrumento 2, nos quais a SEED buscou contemplar elementos das políticas
estaduais propostas ao longo do governo Requião (2003-2006; 2007-2010), tais
como: i) a elaboração das Diretrizes Curriculares Estaduais em contraposição aos
Parâmetros Curriculares Nacionais; ii) participação democrática das instâncias
colegiadas; iii) o papel da equipe pedagógica – composta exclusivamente por
profissionais graduados em Pedagogia, em contraposição à amplitude do papel do
coordenador pedagógico ou direção escolar no acompanhamento do trabalho
docente; iv) o Projeto Político-Pedagógico, destacando o seu caráter político e
pedagógico, em contraposição a uma suposta neutralidade da chamada pelo
documento de Proposta Pedagógica; v) o processo de ensino-aprendizagem voltado
à análise crítica dos conteúdos escolares em contraposição ao desenvolvimento de
valores e atitudes pelos alunos. Nesse sentido, uma das pretensões da SEED era,
também, avaliar, em alguma medida, o resultado da implementação de suas
políticas nas escolas da rede estadual (FANK, TAQUES, OLIVEIRA, 2009).
Em 2009, técnicos pedagógicos da Coordenação da Gestão Escolar da
SEED-PR realizaram levantamento das respostas dos questionários do Instrumento
2 do PDE-Escola preenchido por escolas da rede estadual e, segundo Fank, Taques
e Oliveira (2009, p. 10.679):
[...] do total de 77 características apontadas no instrumento como indicadores do desempenho e qualidade escolar, as 14 primeiras que atribuíram a escala “nunca” referem-se à gestão. Dessas 14 características, nove delas apontam a fragilidade da participação da comunidade na escola ou responsabilizam a família pelo desempenho escolar dos filhos. Dessas 14, apenas três referem-se à metodologia ou à organização do trabalho da escola, sendo elas: 40%: professores não propõem atividades fora da escola; 33%: escola não participa de atividades da comunidade e 13%: alunos não avaliam professores. Ou seja, 67,5% das 112 escolas que aplicaram o instrumento indicaram que as principais dificuldades estão na falta de conversas no ambiente doméstico; 61% responsabilizaram os pais pela baixa qualidade de ensino, por estes não acompanharem os filhos nas atividades escolares; 45% das escolas indicam que o problema está no fato de que os pais não procuram as escolas; 25% revelam que os pais sequer sabem quem é o presidente do Conselho Escolar, bem como não há reuniões promovidas por esta instância de gestão; e para 36,30% das escolas, os pais não se envolvem com a escola.
De acordo com os autores, esses diagnósticos apontam duas questões que
devem ser analisadas. A primeira delas, de suma importância, implica nos
condicionantes sociais e econômicos, os quais impedem a participação dos pais na
vida escolar dos filhos. A segunda questão é a falta de cultura de participação dos
pais na escola, não propiciada por ela mesma, sendo a efetivação do papel do
Conselho Escolar uma das maiores dificuldades indicadas pelas escolas,
evidenciando que apenas a existência desta instância colegiada não garante que as
decisões sejam tomadas por representantes dos segmentos da comunidade escolar
(2009, p.10.681).
Assim, após a análise dos questionários do instrumento 2, Fank, Taques e
Oliveira (2009, p. 10.682) concluem que:
[...] embora o Estado do Paraná tenha envidado esforços na contraproposta bem acolhida pelo MEC (em reformular o instrumento conceitual com vistas a adequar aos preceitos da democracia defendida na escola), ainda há muito o que se avançar na cultura escolar no que se refere à participação dos pais no processo democrático. Ademais, o que se pode concluir foi que, embora o argumento utilizado pela SEED/PR para reformular o documento inicial era de que o mesmo deveria contemplar a realidade das escolas estaduais paranaenses, não foi exatamente isso que a análise dos instrumentos das escolas indicou.