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Manuel de Carvalho

No documento A IMPRENSA EM COIMBRA NO SÉCULO XVII (páginas 47-53)

Parte I Os homens, os tipógrafos, as oficinas

A. Considerações gerais

4. Manuel de Carvalho

Manuel de Carvalho terá nascido na primeira década de seiscentos, na cidade de Coimbra, onde o seu pai, Nicolau de Carvalho, estaria já estabelecido como impressor; aliás, o assento do seu casamento com a filha do livreiro Tomé Carvalho, a 5 de Janeiro de 1636, parece apontar para uma naturalidade coimbrã, identificando-o como freguez de São Cristóvão59. É vulgarmente confundido com um impressor homónimo que, nos anos anteriores, estivera activo na cidade de Évora (1623-1637) e, eventualmente, em Lisboa (1613-1614); conforme provámos em estudo anterior60, não é de considerar que se trate do mesmo impressor: em 6 de Novembro de 1625, Nicolau de Carvalho solicita à Universidade de Coimbra a transferência do privilégio de Armador dos Autos e Capelo da Universidade para o seu filho Manuel, que por essa altura viveria na cidade de Coimbra, condição essencial para conseguir tal privilégio61.

Mas, se dúvidas subsistissem, no contrato feito entre a Universidade e Manuel de Carvalho, em seu nome e no de sua mãe, para obtenção do privilégio de impressor da Universidade, que pertencera a seu pai62, aquele é referido como mancebo solteiro e na

dita cidade morador; ora o contrato foi firmado a 24 de Dezembro de 1633, cerca de oito anos mais tarde, e Manuel de Carvalho só contraíria matrimónio com Maria Coutinha no princípio de 1636, conforme pode ler-se no registo feito pelo padre Manuel Ferreira:

«Aos sinquo de ianeiro de mil e seiscentos e trinta e seis annos recebeo in facie eclesiae por palauras de presente o conego ieronimo de bastos com minha licença E sem bencoes por não terem os banhos corridos por mandado do senhor provisor Bento d almeida conforme o Sagrado Concilio Tridentino E constituições do Bispado a manoel Carualho filho de niculao carualho liureiro, E sua mulher Maria flores, com Maria coutinha filha de thome carualho liureiro E sua mulher catharina Gaspar da freguesia da see, e elle contrahente desta fregesia [sic] de São Christouão

testemunhas presentes, migel Martins liureiro, Belchior de leão thesoureiro, pêro carualho E pêro de queiros e francisco manoel liureiros; E pedro homem frade, E o licenciado manoel Rodriguez Moreira E outros

dia, mes E anno ut supra

a) Manoel ferreira

Aos quatorze do sobredito mes E anno dei as bencoes nuptiaes aos contrahentes asima nesta igreia de são christouão

59 Cf. Coimbra, Arquivo Distrital, Registos Paroquiais, Livro Misto da Freguesia de S. Cristóvão 1614-

1652, fl. 91.

60 José Jorge David de Freitas Gonçalves, Em torno dos impressores de nome Manuel de Carvalho: notas

para o estudo da tipografia do século XVII, Lisboa, 2004 (tese de mestrado policopiada entregue à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa).

61 Manuel de Carvalho verá renovado este privilégio a 8 de Dezembro de 1648, pelo reitor Manuel de

Saldanha (cf. Joaquim Martins Carvalho, Apontamentos para a história contemporanea [...], pág. 295).

62 Cf. Coimbra, Arquivo Distrital, Escrituras, Tomo XIX, Livro III, fls. 93-96; pub. por M. Lopes de

Almeida, Livros Livreiros Impressores em Documentos da Universidade 1600-1649, Coimbra, 1964, pp. 46-50.

E por uerdade fis esta lembrança ut supra

a) Manoel ferreira»63

Neste assento refere-se, também, que Manuel de Carvalho pertencia à freguesia de São Cristóvão de Coimbra, de modo que não poderia ser o mesmo impressor que estava, ainda, activo em Évora.

Manuel de Carvalho casou, no início de 1636, com Maria Coutinha, filha do livreiro Tomé Carvalho, que haveria de estabelecer-se com oficina de impressão própria na segunda metade do século XVII; a 12 de Outubro de 1636, foi padrinho de Manuel, filho do livreiro Francisco Manuel e de sua mulher Maria de Oliveira64. Tanto no assento de baptismo do filho de Francisco Manuel, como no do seu casamento com Maria Coutinho, Manuel de Carvalho nunca é referido pelo padre como impressor. Na verdade, a primeira obra por ele impressa em Coimbra parece datar de 1638 (um sermão do Padre Manuel de Escobar); mas é igualmente uma realidade que a sua profissão não é identificada, de modo que é plausível acreditar que se dedicasse à impressão de livros na oficina deixada por seu pai. Quanto à sua mãe, não volta a ser referida e o seu falecimento ocorrerá a 16 de Dezembro de 1639:

Aos dezaseis de dezembro de seiscentos E trinta E noue faleceo maria flores uiuua de Niculao carualho imprensor da Vniversidade enterouse na igreia dos frades de São Pedro onde tinha sua sepultura, disiaõ ter feito testamento, E naõ se lhe achou quando faleceo

dia, mes, E anno, ut supra

a) Manoel ferreira,65

O casal Manuel de Carvalho e Maria Coutinha teve, pelo menos, dois filhos: Juliana, baptizada a 24 de Junho de 163766, e Valentim, que faleceu a 12 de Março de 165067.

O período de actividade do Manuel de Carvalho conimbricense foi bastante irregular. Tendo Nicolau de Carvalho falecido em 1632 e Manuel de Carvalho,

63 Coimbra, Arquivo Distrital, Registos Paroquiais, Livro Misto da Freguesia de S. Cristóvão 1614-1652,

fl. 60.

64 Cf. Coimbra, Arquivo Distrital, Registos Paroquiais, Livro Misto das Freguesias de Sé Velha e São

Cristóvão (1614-1652), fol. 38. O livreiro Francisco Manuel tinha sido uma das testemunhas do casamento de Manuel de Carvalho com Maria Coutinha.

65 Coimbra, Arquivo Distrital, Registos Paroquiais, Livro Misto das Freguesias de Sé Velha e São

Cristóvão (1614-1652), fol. 119.

66 Cf. Coimbra, Arquivo Distrital, Registos Paroquiais, Livro Misto das Freguesias de Sé Velha e São

Cristóvão (1614-1652), fol. 40.

67 Cf. Coimbra, Arquivo Distrital, Registos Paroquiais, Livro Misto das Freguesias de Sé Velha e São

juntamente com sua mãe, obtido o privilégio de impressor da Universidade no ano seguinte, desloca-se a Braga em 1634 para imprimir o Breuiarium Bracarense [...] de D. Rodrigo da Cunha. Inicia a sua actividade em Coimbra com o Sermão […] na Capella

del Rey em Lisboa, em 21. de Dezembro de 1637. dia do Apostolo S. Thome [...], do Padre Manuel de Escobar, impresso em 1638, mas este ano foi marcado pela impressão de uma obra clássica: o De gestis romanorum [...] de Lúcio Floro, que teve duas edições; no ano seguinte, a este tipo de obras vem somar-se um volume com as obras de Virgílio, do qual só conhecemos um exemplar mutilado faltando-lhe, precisamente, a folha de rosto68. De 1639 datam, também, dois tratados ligados à religião católica romana, o primeiro dos quais dedicado aos sacramentos: a Isagoge moral em a materia

dos sacramentos […] de Lourenço Garro; o segundo é uma obra de espiritualidade, da

autoria de Mateus Castanho de Figueiredo, com o título de Os sete mysterios do

Patriarcha S. Ioseph […], dedicado ao bispo da Sé conimbricense, D. João Mendes de

Távora.

Em 1640, Manuel de Carvalho imprime duas obras clássicas, uma selecção de textos de Marco Túlio Cícero dedicados ao estudo das humanidades, os Fasciculus

selectarum orationum [...], e a Historiarum ab urbe condita Decadis primae Lib. I [...] de Tito Lívio, conhecendo esta última duas edições do mesmo ano. A estas obras acresce o Paciecidos […] de Bartolomeu Pereira, uma poesia épica ao estilo clássico, composta na língua latina, destinada a narrar com um cariz elegíaco os feitos do Padre Francisco Pacheco, mártir no Japão e tio do autor.

Segue-se um período de quatro anos em que, aparentemente, a oficina de Manuel de Carvalho nada produziu. O reinício da sua actividade é marcado pela edição de uma obra de direito civil, o primeiro tomo do De Iure Lusitano [...] de Mateus Homem Leitão, em 1645; mas a produção desse ano ficou por aí.

Durante o ano seguinte, 1646, a produção da oficina foi nula e só em 1647 se retoma consistentemente a actividade tipográfica, com a impressão de duas obras: o

Elogium Ludouico XIII […] de Jorge da Costa, ou seja, um panegírico ao rei Luís XIII

de França e Navarra (que aparece como uma reacção contra a monarquia castelhana), e um sermão de Frei Luís de Sá, pregado [...] na procissaõ solne que o Reuerendissimo

68 Cf. Virgílio e a cultura portuguesa: actas do bimilenário da morte de Virgílio, Lisboa, Centro de

Estudos Clássicos da Universidade Clássica de Lisboa / Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1986, pág. 298; a obra refere que o livro foi impresso por iniciativa dos padres jesuítas. Apesar das licenças datarem de 1638, a obra terá saído dos prelos de Manuel de Carvalho em 1639, conforme indica João Arouca, op.

cit., vol. III, M125, baseando-se no catálogo da Exposição Vergiliana, Lisboa, Biblioteca Nacional, [1931], pág. 12.

Cabido do Bispado [de Coimbra] instituio. Pro gratiarum actione, de Deos auer liurado

a sua Magestade da admiravel treiçaõ, que contra elle por ordem de Castella se tinha machinado em dia de Corpus Christi […].

De 1648 a 1651 a actividade da oficina de Manuel de Carvalho não volta a ser interrompida, e nesse período imprime-se algumas das obras mais importantes da sua carreira. Logo em 1648, leva-se ao prelo o Breue exemplar das vidas de alguns santos

conegos regulares do grande patriarcha Santo Agostinho […], uma obra hagiográfica

da autoria de D. Timóteo dos Mártires, ligada à exaltação da sua Ordem, com especial incidência nos monges que haviam pertencido ao Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Ainda nesse ano, Manuel de Carvalho imprime outra obra ligada aos cónegos regrantes de Santa Cruz, atribuída ao cronista D. Nicolau de Santa Maria: Officia propria

sanctorum […], contendo a liturgia própria da Ordem, reformada no contexto das já

referidas novidades introduzidas pelo Papa Pio V.

Em 1649, Manuel de Carvalho imprime as duas partes da obra jurídica canónica de Feliciano de Oliva e Sousa, o Tractatus de foro ecclesiae […], em dois volumes

separados. Este será um dos anos mais produtivos da obra tipográfica de Manuel de Carvalho, não só pela quantidade de obras impressas, mas também pela sua extensão. Paralelamente à obra já citada, o impressor produz uma nova edição dos Fasciculus

selectarum orationum […] de Cícero e um sermão da autoria de Luís de Miranda, com o título Sermaõ da soledade da Virgem Senhora Nossa […]. Encontramos ainda, com a

data de 1649, um fascículo destinado à apresentação de provas académicas de António Leitão, um tipo de obra que já vimos aparecer frequentemente no conjunto produzido por outros tipógrafos, mas raro na produção da oficina de Manuel de Carvalho.

O ano de 1650 pauta-se por uma nova quebra na produção da oficina, visto que se imprime uma única obra, que tem a particularidade de provar a continuidade da ligação de Manuel de Carvalho aos cónegos de Santa Cruz de Coimbra, já que se trata da Vida do Bemauenturado Padre Santo Theotonio, Primeiro Prior do Real Mosteiro de

Santa Crus de Coimbra […], da autoria do já referido D. Timóteo dos Mártires.

A obra da tipografia encerra-se em 1651 com a produção de quatro obras: uma hagiografia, um sermão, um livro de ritual e uma crónica monástica; em resumo, toda a produção se refere ao catolicismo romano. Em primeiro lugar, temos a Vida, e martyrio

da gloriosa Santa Quiteria, e de suas oyto irmaãs todas nacidas [sic] de hum parto,

Portuguezas, & Protomartyres de Hespanha [...], acrescentada […] com hum discurso

igreja de Farinha Podre, bispado de Coimbra. Em seguida, da autoria do Padre Tomés Barreto, o Sermaõ do glorioso S. Damaso Papa natural e padroeiro da muy nobre Villa

de Guimaras Na festa, que a camara da mesma villa lhe fez por ordem de sua Magestade, como a padroeyro seu no Anno de M. DC. XXXXVIII., dedicado a D. João Lobo de Faro, Prior da Colegiada de Guimarães69.

De 1651 é, também, a edição do Manuale Missalis Romani ex decreto

Sacrosancti Concilij Tridentini restitutum […] adoptado no pontificado de Clemente

VIII, acrescentado com os rituais para o baptismo e para o matrimónio; este é o livro que citámos anteriormente, por ter sido iniciada a sua impressão na oficina de Diogo Gomes de Loureiro e acabada na de Manuel de Carvalho.

Finalmente, desse mesmo ano é a impressão, por Manuel de Carvalho, do segundo tomo da Benedictina Lusitana [...] de Frei Leão de São Tomás, que conhece uma única edição, ostentando no rosto as armas dos beneditinos70.

Não temos conhecimento do motivo do falecimento de Manuel de Carvalho, mas o certo é que encerrou a sua actividade tipográfica em 1651, apesar de ter falecido somente em Agosto de 1652, conforme se lê no assento de óbito escrito pelo prior João Henriques71:

Aos uinte e dous dias de Agosto de seiscentos e sinquoenta e dous falaceo [sic] Manoel Carualho emprensor, fes testamento, e deixou sua mulher por testamenteira ias enterrado no Collegio de são Pedro aonde elegeo sua sepultura

dia mes, e anno ut supra

a) O Prior Joaõ Henriques,72

Apesar de não ser uma das que maior longevidade tiveram, no que diz respeito ao tempo de actividade, a oficina de Manuel de Carvalho trabalhou para algumas entidades importantes, a par da Universidade, da qual detinha o privilégio de impressor.

69 Encontrámos algumas vezes referências a um Sermão do glorioso S. Damaso Papa, prégado na villa de

Guimarães […], da autoria de Tomás Aranha. Na realidade, este sermão não existe, tratando-se de uma

gralha de impressão do volume VII do Diccionario Bibliographico Portuguez de Inocêncio Francisco da Silva (cf. pp. 336-337).

70 Encontrámos, também, referências a uma edição com as armas de D. João IV no rosto. Pensamos tratar-

se de uma confusão com o primeiro tomo, impresso em 1644 por Diogo Gomes de Loureiro, que teve, efectivamente, duas edições: uma com as armas de D. João IV, a quem a obra era dedicada, e outra com as armas da Ordem de São Bento, sendo a obra dedicada a esse patriarca.

71 Joaquim Martins Carvalho refere que, a 25 de Maio de 1652, Manuel de Carvalho ainda teria feito

contrato para imprimir os Estatutos da Universidade de Coimbra, o qual nunca cumpriria, pois viria a falecer em Agosto seguinte (cf. Joaquim Martins Carvalho, op. cit., pág. 295).

72 Coimbra, Arquivo Distrital, Registos Paroquiais, Livro de Óbitos da freguesia de São Cristóvão (Sé

Vimos como trabalhou para as ordens dos cónegos regrantes de Santo Agostinho e de São Bento no final da sua actividade, mas tínhamos já constatado que, logo no início da sua carreira, Manuel de Carvalho tinha ido a Braga imprimir o Breviarium Bracarense [...], do arcebispo D. Rodrigo da Cunha. Em 1649, o Sermão da Soledade da Virgem

Senhora Nossa […], de Frei Luís de Miranda, é mandado dar à estampa pelo licenciado

Manuel Pais de Carvalho, abade de Santa Maria Madalena do bispado de Viseu; o

Sermaõ do glorioso S. Damaso Papa […], de Frei Tomás Barreto, foi mandado

imprimir pelo tio do autor, Manuel Ribeiro Botelho, escrivão do armazém dos mantimentos do rei.

No documento A IMPRENSA EM COIMBRA NO SÉCULO XVII (páginas 47-53)