3. Influências composicionais
3.1. Manuel Faria
Esse caminho, caracterizado por uma presença de um espírito livre e autocrítico, foi preparado desde os seus primeiros estudos pelo compositor, pedagogo e cronista musical Cónego Manuel Ferreira de Faria (1916 – 1983), outro compositor que também sofreu alguns dissabores pela sua prática e atitude na área da composição sacra. Manuel Faria foi quem mais incentivou Joaquim dos Santos a desenvolver, ao longo de toda a sua vida, uma escrita que
43 Desse Concílio saíram documentos importantes para a música praticada e ensinada no seio da religião católica. A Constituição Conciliar sobre a Sagrada Liturgia “Sacrosanctum Concilium” é um desses exemplos. No seu capítulo VI são indicadas algumas modificações no culto em geral da Igreja Católica, extraídas das reflexões dos participantes no Concílio (VI P. , 1963). Na Instrução sobre a música na sagrada Liturgia “Musicam Sacram”, surgida através da Sagrada Congregação para os Ritos e o Concílio, ficaram expressas as novas orientações litúrgico-musicais e explicações quanto à forma e natureza da música de prece, no âmbito da Constituição Conciliar “Sacrosanctum Concilium” (VI P. , 1967).
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fosse aliasse a modernidade com a tradição. Dos vários professores que fizeram parte do percurso académico inicial de Joaquim dos Santos, foi Manuel Faria aquele que pela sua ação se tornou, de facto, a sua primeira e mais duradoira influência musical durante todo o percurso de vida e a quem chamava, por diversas vezes, de “Mestre” (Matos, 2013).
Quem está no início de toda esta minha caminhada no mundo da música é, sem dúvida, o cónego Dr. Manuel Faria. Sei até que esta minha afirmação não é surpresa para ninguém, o que seria surpresa era se eu me atrevesse a dizer que a sua influência se limitaria a esse arranque inicial! Continua a ser hoje uma presença imprescindível no meio do meu trabalho (Esteves, 2007, p. V).
A relação de proximidade e de afinidade musical, que foi criada entre mestre e discípulo, foi de suma importância para o crescimento e enriquecimento musicais de Joaquim dos Santos. Desde o início, com as aulas de Harmonia, que Joaquim dos Santos tomou contacto da forma competente e apaixonada com que Manuel Faria transmitia o seu conhecimento. O profundo gosto e fascínio pela área da composição começou e cresceu desde essa altura, através das principais mudanças composicionais do primeiro quartel do século XX que Manuel Faria partilhava nas suas aulas. Numa primeira fase, foram apresentados a Joaquim dos Santos composições de alguns autores portugueses, denominados à época como modelos eclesiásticos da polifonia moderna portuguesa da primeira metade do século XX, como João da Cruz de Lima Torres44 e Manuel de Carvalho Alaio45. Posteriormente, foram-lhe sendo apresentadas obras de grandes compositores italianos, como Lorenzo Perosi (1872 – 1956), Giovanni Pierluigi da Palestrina, Goffredo Petrassi (1904 – 2003) e Vito Frazzi (1888 – 1975) e da escola francesa, como Claude Debussy, Arthur Honnegger, Darius Milhaud, Olivier Messiaen e Francis Poulenc (Santos J. d., 1955-1961).
Joaquim dos Santos foi bastante influenciado pelo exemplo do percurso académico realizado pelo seu “Mestre”, sendo a continuação dos seus estudos no Pontifício Instituto de Música Sacra (PIMS) uma prova desse facto. Manuel Faria, após ter realizado os seus estudos no Seminário Arquidiocesano de Braga, foi enviado para Roma, pela arquidiocese de Braga, a fim de estudar Canto Gregoriano e Composição no PIMS. Durante o período de estudos,
44 (n. Barcelos, 20 out. 1888; m. Barcelos, mai. 1968). Foi capelão da “Casa do Menino Deus” das Franciscanas Missionárias de Maria, em Barcelos, durante várias décadas. Ocupa um lugar na bibliografia de música religiosa do século XX dedicada a Fátima.
45 (n. Fão, Esposende, 7 dez. 1888; m. Fão, 17 mai. 1973). Padre, compositor, professor e regente de coros. Foi fundador do orfeão do Seminário Conciliar de Braga e teve um papel de relevo na “Escola de Braga”.
67 compreendido entre 1939 e 1945, a qualidade do seu trabalho foi reconhecida através de uma bolsa do Instituto de Alta Cultura e outra da Fundação Calouste Gulbenkian. No PIMS obteve o grau de Licenciatura em Canto Gregoriano com a classificação Magna cum laude probatus e, posteriormente, o diploma de “Magistério” em composição sacra, com a classificação máxima de Summa cum laude probatus (Melo, 2015, p. 9; 12).
Após o seu regresso a Portugal, Manuel Faria tentou, em certa medida, implementar “alguma modernidade harmónica no universo da música religiosa” (Ferreira M. P., 2007, p. 43), tornando-se o expoente máximo da chamada “Escola de Braga” através do seu trabalho desenvolvido na diocese bracarense. Fez parte, juntamente com os compositores Ferreira dos Santos46 no Porto e Manuel Luís47 em Lisboa, de um tríptico de padres-compositores que se destacaram e que foram, em grande medida, os maiores criadores e divulgadores de música sacra e dos que mais terão influenciado o rumo da música eclesiástica nacional a partir da década de 1960 e, principalmente, no último quartel do século XX.
A admiração de Manuel Faria por Joaquim dos Santos foi manifestada por diversas vezes, quer em público, quer junto do clero, fazendo questão de salientar as suas qualidades musicais e de o ajudar em variadíssimas ocasiões. Mesmo após a conclusão dos seus estudos, Joaquim dos Santos continuou a fazer-lhe pedidos de leitura das suas obras (Matos, 2013). Foi graças a Manuel Faria que Joaquim dos Santos teve a oportunidade de conhecer, por exemplo, o compositor Frederico de Freitas48 (1902 – 1980), com quem manteve um vínculo de estima e respeito e por quem foi considerado como “um jovem de grande talento no campo da
composição” (Simões, 2000, p. 20). Foi um dos raros compositores do meio musical lisboeta da
altura a reconhecer e a prestar a devida atenção à obra de Joaquim dos Santos, contando neste leque com o também maestro e compositor Manuel Ivo Cruz (filho).
46 (n. Trofa, 25 jun. 1936). Cónego da Sé Catedral do Porto, realizou o Curso Superior de órgão e de Música Sacra na Escola Superior de Música de Munique, tendo frequentado um curso internacional de órgão do Professor Emil Sauer. Fundou, no Porto, o Coro da Sé do Porto e a Escola Diocesana de Música Litúrgica. Foi membro fundador, em 1992, da Conferência Europeia para a Defesa e Promoção da Música da Igreja.
47 (n. Turquel, Alcobaça, 8 jul. 1926; m. Lisboa, 5 jul. 1981). Foi um dos padres-compositores que mais impulsionou a criação de música litúrgica em língua portuguesa, após a abertura da liturgia às línguas comuns com o Concílio Vaticano II. Diplomou-se no PIMS em Canto Gregoriano e Composição Musical Sacra. Entre 1971 e 1973, publicou fascículos com os salmos responsoriais das missas da Quaresma/Páscoa, cuja edição completa para a missa, dos três anos litúrgicos, foi caso único à época.
48 (n. Lisboa, 15 nov. 1902; m. Lisboa, 12 jan. 1980). Compositor, maestro, pedagogo, musicólogo, articulista e crítico musical. A sua vasta obra abrange todos os géneros musicais. Dirigiu a orquestra da Emissora Nacional, a Orquestra Sinfónica do Conservatório do Porto, fundou a Sociedade Coral de Lisboa, entre outras atividades de grande relevo no panorama musical português do século XX (Cascudo, 2003).
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