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Manuel Lopes – raízes crioulas: identidade e rompimento

Manuel dos Santos Lopes (1907-2005) desempenhou um papel muito importante na cultura literária de Cabo Verde. Tendo nascido na localidade de Campinho, ilha de São Nicolau, a 23 de Dezembro de 1907, a sua contribuição cultural ultrapassou os limites do campo da literatura.

Vários estudos sobre a sua obra referem que Manuel Lopes faz parte de um grupo de intelectuais influenciados pela literatura nordestina brasileira que se notabilizaram no domínio cultural e na transformação ideológica da sociedade cabo-verdiana. Segundo Arnaldo França (2010a: 33), no grupo dos criadores da revista Claridade19, Manuel Lopes era quem parecia ter um projecto literário mais arrojado, e tê-lo-á conseguido realizar de forma satisfatória. Essa particularidade reside na forma como reinventa a sociedade, na maneira como encara e encarna os valores culturais, constituindo, a nosso ver, um exemplo constante da busca de autonomia e de identidade.

Na sua escrita, Manuel Lopes preocupa-se com o homem comum, tanto no campo da literatura como nos textos de opinião. Os testemunhos mais esclarecedores desta questão são os contos insertos em O galo cantou na baía (1936) e os seus dois romances Chuva Braba (1956) e Os Flagelados do Vento Leste (1959), para além das entrevistas que concedeu a vários estudiosos que se interessaram pela sua obra.

Para além de prosador, Manuel Lopes é, igualmente, poeta e pintor retratista20, tendo realizado algumas exposições individuais de pintura. Não obstante, como poeta, Manuel Lopes não atinge a qualidade de outros membros

19 Faziam parte do grupo fundador, Baltasar Lopes e Jorge Barbosa.

20 Marie-Christine Hanras (1995: 61) escreveu que a aptidão de Manuel Lopes para a poesia e as artes plásticas aparece na adolescência, com raízes em Coimbra, para onde se deslocara com a madrasta, após a morte do pai em 1918. Foram então importantes as leituras de Victor Hugo, Alexandre Dumas, Jules Verne, Sinclair Lewis, Eugénio de Castro, Guerra Junqueiro, bem como a descoberta de Shakespeare e da noção de drama.

da plêiade claridosa, nomeadamente Jorge Barbosa e Osvaldo Alcântara, pseudónimo poético de Baltazar Lopes. Porém, desse grupo, o autor de Chuva Braba é dos que mais se identificaram com a prosa e com a ficção literária, para além de ter produzido alguma literatura ensaística de reconhecido mérito, como, entre outros, os trabalhos intitulados Os meios pequenos e a cultura (1951) e Considerações sobre as personagens de ficção e seus modelos (1973). As suas obras constituem uma referência importante na parte do nosso trabalho que tem que ver com caracterização das personagens.

A obra de Manuel Lopes não se limita a contar, de forma plana, a realidade social do seu país; mas, muito pelo contrário, veicula «impressões» profundamente realistas a partir do vivido. E, para isso, a adolescência terá sido o momento de formação essencial. Numa entrevista que concedeu a António Loja Neves e Maria Armandina Maia, o escritor recorda esse momento da sua vida e esboça um cenário de deslumbramento pelo acto desafiador propiciado pelas restrições ao mundo das brincadeiras transitórias com outros jovens da época:

Tínhamos uma casa com um quintalão e achavam que bastava aquilo para educação, e toca a pegar nos livros e estudos. Jogávamos ao futebol ali mesmo, pois estávamos proibidos de jogar fora, para evitar as más companhias. (Neves e Maia, s/d: 51-52)

Estes depoimentos são fundamentais, na medida em que a entrevista é feita num tempo outro, em que o escritor já era capaz de fazer juízos de valor sobre o percurso da sua história, e tirar partido dos aspectos essenciais que contribuíram para a orientação da sua vida e da de muitos jovens da época.

Não surpreende, portanto, que aos 16 anos, comece a publicar os seus primeiros trabalhos no Novo Almanarch de Lembranças Luso-Brasileiro, e nos periódicos cabo-verdianos Notícias de Cabo Verde e Ressurgimento, estreando- se com contos e poemas: «Desde muito novinho já escrevinhava umas coisitas. Alguma poesia, um artigo... coisas assim, [...]. Diz-se que era jornalismo. Escrevia umas tretas para serem publicadas» (Neves e Maia, s/d. 72-73).

Manuel Lopes admite, no entanto, que a actividade literária iniciou-se nos encontros com amigos, porquanto «havia já grupos literários» formados,

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destacando-se a figura de Baltazar Lopes, porque tinha alguma experiência e cultura académica, o que acrescentou outro alento à equipa que deu origem à revista Claridade cujo nome foi proposto por ele.

A tertúlia com os elementos do grupo, já reforçado com a integração de Baltazar Lopes, acabado de regressar de Coimbra, incentivou a escrita literária. A revista Claridade conferiu liberdade de expressão e força anímica ao desenvolvimento da cultura e da literatura com marcas identitárias de tradição telúrica. Manuel Lopes foi director da revista nas duas primeiras edições, e colaborou nas áreas da ficção, da poesia e do ensaio. Interrompeu a sua colaboração quando regressou a Portugal.

Os seus primeiros tempos de encontro com arte de narrar foram essencialmente enriquecidos pelo contacto com a mãe de um amigo, o Sérgio, filho de uma Bonucci e de um Frusoni: «[...] ela enchia-nos a imaginação com os belos contos que nos narrava», (Neves & Maia, s/d.: 50).

Se, à primeira vista, se sobrepunha o impulso motivador trazido pela revista Claridade, não era sem desconforto que constatava já não poder continuar a contemplar algumas das situações tristes da realidade cabo-verdiana, abalada por um sistema que «exigia» os propósitos da arte social, abandonando, portanto, os modelos da literatura clássica:

O tema de «arte pela arte» não nos interessava. Não pretendíamos, por exemplo, realizar qualquer coisa à memória de... [...] nós tínhamos uma solução: o pouco que nós tínhamos era uma mensagem que suplantava a qualidade. [...] ainda hoje os rapazes quando escrevem têm sempre em mente a continuidade que vem do nosso tronco. (Ferreira, 2010: 832)

De forma pragmática, Manuel Lopes conduz-nos à hipótese de que as representações realistas e líricas em Chuva Braba configuram um romance imbuído de um papel «historiográfico» que decorre do registo do real, do cosmodrama do homem cabo-verdiano. Nesse momento, era necessário revelar em forma de arte esses mistérios e essas realidades diversificadas da vida. Essa foi a primeira razão que se sobrepôs à mera reprodução de uma estética literária baseada nos princípios da «arte pela arte».