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2 GEOGRAFIA HUMANISTA CULTURAL E LITERATURA: abordagem

3.2 O contexto da literatura cabo-verdiana e o movimento Claridade

3.2.1 Manuel Lopes e o romance Os flagelados do vento leste

Manuel António de Sousa Lopes nasceu em Mindelo, ilha de São Vicente, Cabo Verde, em 23 de dezembro de 1907. Emigrou para Portugal, em 1919, e fez seus estudos secundários em Coimbra, onde costumava frequentar a Biblioteca Municipal. Aos dezesseis anos, retorna ao arquipélago, onde começou suas atividades profissionais em São Vicente, na empresa inglesa “Western Telegraph Company”, mas, aos vinte e três anos de idade, passa a trabalhar em uma empresa italiana congênere, que encerrou suas atividades em virtude da segunda Guerra Mundial. Desempregado, Manuel Lopes foi para a ilha de Santo Antão, onde possuía uma pequena propriedade e, nesse contexto, teve contato direto com os problemas do povo cabo-verdiano, agravados ainda mais por causa da seca de 1942, que matou milhares de pessoas e foi para o autor um fato “mais eloquente que todas as ‘claridades’ e todas as revoluções literárias das ilhas” (BAPTISTA, 2007, p. 16 – grifo do autor). Em 1944, voltou a trabalhar na empresa inglesa de telecomunicações, mas sua atuação deu-se nos Açores, ilha do Faial, em que permaneceu por um período de onze anos. Depois disso, mudou-se para Lisboa onde viveu até a sua morte que ocorreu em 25 de janeiro de 2005.

Vale observar que, embora Manuel Lopes aceite o rótulo de neorrealismo para sua obra, confessa que ela não é de cunho político e que ele é mais devedor do romance nordestino de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, como também da literatura anglo-americana de Caldwell, Steinbeck e Huxley (BAPTISTA,

2007). O que interessa primordialmente ao autor, como integrante do grupo da revista Claridade, é o conhecimento da própria terra, dos graves problemas que a população enfrenta e a dignidade desse povo. Para os claridosos, é preciso que a literatura cabo- verdiana esteja com os pés fincados no chão crioulo, o pensamento voltado para a vida dos ilhéus e expresse a vida desse povo. Assim, o objetivo do grupo consiste em produzir uma literatura engajada nos problemas que afetam a realidade do arquipélago, como também no resgate de aspectos culturais importantes da vida do país.

Manuel Lopes foi não só ficcionista, poeta e ensaísta, como desenvolveu atividade jornalística em Cabo Verde, além de ter se dedicado às artes plásticas. Como ficcionista, iniciou sua atividade literária e jornalística antes de participar do movimento da revista Claridade. Entre 1927 a 1931, o autor publicou textos em versos e em prosa no Novo Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro e, nos anos 1931 e 1932, colaborou com os jornais Notícias de Cabo Verde e Ressurgimento, escrevendo pequenas crônicas, poemas e ensaios. Quanto às narrativas de ficção, o autor publicou três obras importantes: o romance Chuva braba, em 1956; a coletânea Galo

cantou na baía e outros contos, em 195936; e o romance Os flagelados do vento leste,

em 196037, que será analisado nesse trabalho. Vale pontuar que esse romance já teve

uma adaptação cinematográfica homônima, em 1987, por Antônio Faria, mas não entrou no circuito comercial (BAPTISTA, 2007).

Além das narrativas de ficção, observa-se que o autor claridoso também escreveu Paúl, monografia descritiva regional, em 1932; Poema de quem ficou, em 1949; o ensaio Os meios pequenos e a cultura, em 1951; Crioulo e outros poemas, em 1964; o ensaio A personagem de ficção e seus modelos, em 1973; a antologia poética Falucho ancorado, em 1997, além de outras obras.

Os flagelados do vento leste é o seu segundo e último romance, constituindo- se como o ápice de sua prosa, não só devido à sua divulgação e premiação, mas, principalmente, porque a obra coroa uma trajetória de amadurecimento dos processos estéticos (BAPTISTA, 2007). Alfredo Margarido (1980) ressalta que o aparecimento

36Convém ressaltar que os contos que compõem a coletânea já haviam sido publicados anteriormente

nos números da revista Claridade, entre os anos de 1936 a 1958.

37 Há algumas divergências dos teóricos quanto ao ano da publicação de Os flagelados do vento leste.

Russell Hamilton (1984) afirma que foi em 1959; já Manuel Ferreira (1987) e Pires Laranjeira (1995) atestam que a publicação deu-se em 1960. Neste trabalho, optou-se por 1960, por ser a data que mais figura nas pesquisas.

deste romance de Manuel Lopes, além de constituir a consagração do autor entre os ficcionistas das literaturas de língua portuguesa, pode ser considerado como uma carta de alforria da literatura de ficção cabo-verdiana, pois libertou-se do paradigma lusitano, bem como é uma obra bastante significativa no panorama das literaturas africanas. O teórico ainda comenta que, para construir a obra, o romancista se lançou profundamente na realidade ambiental, observando a problemática da terra agreste, embora tingida de morabeza, os elementos amáveis e dóceis da paisagem foram afastados e, assim, o autor “preferiu lançar-se nos meandros extensos de acres de uma realidade feroz, que reduz o homem a uma coisa sem qualificação especial” (MARGARIDO, 1980, p. 436). O romance narra as adversidades da seca que acometeram o povo cabo-verdiano e, segundo Pires Laranjeira (1995), essas calamidades cíclicas estigmatizam o ser humano, tornando-o passivo e com os ânimos minguados.

O romance de Manuel Lopes é escrito em terceira pessoa e está dividido em duas partes com seis grandes capítulos na sua totalidade. A primeira parte é composta por três capítulos: “Chuva”, “Lestada” e “Os flagelados”, que, por sua vez, estão subdivididos em pequenas partes; a segunda parte da narrativa também é constituída por três capítulos: “Romance na montanha”, “Estrada” e “O crime”, subdivididos em partes menores. Segundo Patrícia Camargo (2008), na primeira parte, a trama está centrada em personagens como José da Cruz, Mochinho, Zepa, nhô Manuelinho, João Felícia, a viúva Aninhas, a professora Maria Alice e outros que trazem à tona o projeto tipicamente neorrealista. São personagens “tipo”, estereotipadas, pois representam circunstâncias e não individualidade. Na segunda parte do romance, é possível perceber que o autor rompe com as características do neorrealismo e passa a narrar as consequências dramáticas das calamidades cíclicas em Cabo Verde. Nesta parte da narrativa, há a preocupação em apresentar as personagens com uma análise psicológica, cujo conflito está na opção de viver ou morrer. Aqui a personagem central é Leandro, filho de José da Cruz, cuja personalidade e caráter são detalhadamente delineados na trama.

É possível constatar que Manuel Lopes retrata em sua ficção as tragédias que afetaram o arquipélago na década de 1940, uma vez que seu testemunho é embasada na experiência direta da seca desse período sombrio, embora tal data não apareça de modo explícito ao longo da narrativa. O povo cabo-verdiano, da época, tinha a base agrária como principal atividade econômica e, diante da seca, não conseguiu produzir

para sua própria sobrevivência. Desse modo, parte da população emigrou para outros países, mas o romance Os flagelados do vento leste narra a saga de quem permaneceu nas ilhas, como é o caso da personagem José da Cruz, a metáfora de um povo com profundo sentimento de apego ao seu chão natal, a ponto de resistir a qualquer intempérie.

O romance constitui-se numa narrativa que desenvolve cenário de intensa desolação, a ponto de promover o desespero e a degradação humana. Por meio dessa obra, Manuel Lopes preocupa-se em recriar, de forma artística, as tragédias vividas pelos cabo-verdianos da primeira metade do século XX. O enredo trata das dificuldades que a família de José da Cruz ou Isé, sua esposa Zepa e os filhos, entre os quais Leandro, passa ao longo de um período de estiagem na ilha de Santo Antão. Além deles, há outros camponeses arrendatários juntamente com a professora Maria Alice que também vivem aquele grande sofrimento em virtude da seca, causada pelo fenômeno do vento Harmatão, a lestada ou suão, proveniente do deserto africano, causador daquela situação desoladora.

É importante observar que o título do romance, Os Flagelados do Vento Leste, é uma construção metafórica. Paul Ricoeur (2015, p. 9) afirma que a metáfora “consiste em um deslocamento e em uma ampliação do sentido das palavras; sua explicação deriva de uma teoria da substituição”. Ricoeur ainda ressalta que quando se faz uma metáfora, é possível ver duas coisas em uma só. Nesse sentido, pode-se afirmar que o título de romance constitui a metáfora do povo cabo-verdiano que permaneceu nas ilhas naquela situação de seca, acreditando que a saída estaria no dia seguinte, no próximo mês ou até mesmo na próxima safra.

Ainda quanto ao título da obra, pode-se ressaltar que ele é capaz de recobrir toda aquela situação de flagelo a que as personagens estão submetidas. Mesmo que o romance esteja dividido em duas partes voltados a aspectos peculiares, percebe-se que ambas têm o objetivo de retratar a realidade de um povo vitimado e arrasado pela calamidade da seca. A primeira parte retrata a luta do homem cabo-verdiano para restaurar os estragos da chuva e da lestada; a segunda, por sua vez, narra o conflito existencial do próprio homem que anseia viver, mesmo que tenha que tomar alimentos de outras pessoas que estão na mesma situação. Desse modo, o narrador não tem a preocupação em apresentar um protagonista em si, com sortes e derrotas, mas um verdadeiro combate entre o esforço humano e a ação devastadora dos fatos naturais.

4 A PERCEPÇÃO DA GEOGRAFICIDADE NOS ROMANCES

Mochinho,

teu destino é seres espantalho de corvos, tocar lata e mandar funda

de desamparinho a desamparinho na merada de milho a arder. Destino de pai-Zé-da-Cruz é cavar cavar e cavar,

e da mãe Zepa é meter quatro grãos em cada cova e cobrir com a terra num jeito do pé.

Destino de todos – colher se Deus escrever a boa nova no livrão que ninguém lê.

(Manuel Lopes)

Conforme apresentado, os romances Vidas secas e Os flagelados do vento leste, embora tenham sido escritos por diferentes autores, em épocas e países de diferentes continentes, destacam de forma significativa os aspectos espaciais. Nesse sentido, é possível afirmar que ambas as obras se constituem como livros de paisagem ou obras telúricas, já que há destaque de seu espaço literário, condicionado pela climatologia, que influencia, significativamente, no desenvolvimento dos fatos do enredo, da psicologia e das ações das personagens e até mesmo do próprio tempo narrativo.

As narrativas, ora apresentadas, traçam um retrato comum das vidas e das regiões marcadas pela catástrofe da seca, fruto de longos períodos de estiagem, presentes tanto no sertão nordestino brasileiro como nas ilhas cabo-verdianas. O flagelo acentua-se ainda mais pela ausência das políticas públicas capazes de pelo menos amenizar a calamidade natural provocada pela ausência das chuvas. O homem dessas regiões fica completamente à mercê do destino que não oferece nenhuma perspectiva de um futuro promissor. A finalidade deste capítulo consiste, sobretudo, em analisar alguns elementos importantes referentes aos aspectos da geografia poética específica de cada obra em tela. Ao analisar a geograficidade em uma obra literária, é preciso levar em conta tanto os elementos espaciais naturais propriamente ditos como a relação existente entre o espaço e o homem que nele habita, ou seja, não se ignora a experiência vivida. Nesse sentido, as categorias topofilia, topofobia, espaciosidade, apinhamento, bem como as simbologias, a percepção do espaço pelos gradientes sensoriais e outros são de fundamental importância para tal análise.