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2009-05-25 MAP reabre olhando para dentro

[Anotação em meu “diário de bordo”: http://www.dedalu.art.br/diario/2009-05- 25_MAP_reabre_olhando_para_dentro.]

A imagem não tem nada a ver com o Museu de Arte da Pampulha. Procurei na internet por “umbigo” e, dentre belos e horripilantes, encontrei o Lula apon- tando para o umbigo, ou melhor, para o machucado feito por uma bala de borra- cha perto do umbigo. Nossa conversa é sobre “olhar para o próprio umbigo” e talvez perto dele também tenha um ma- chucado… Não poderia deixar passar essa foto, está aí, respeitosamente e com admiração, o umbigo do Presidente: é por isso que eu gosto dele: seus gestos

são diretos, quase ingênuos, e por isso tão abertos a re-significações. Mas voltando ao assun- to do MAP:

Li hoje uma notícia dúbia: boa pois o Museu de Arte da Pampulha vai retomar as atividades depois da estranha (para não dizer mais…) saída da Priscila Freire (cf. 2009-04-041 e 2009-

1 http://www.dedalu.art.br/diario/2009-04-04.

04-052); mas talvez não tão boa pois a exposição que abre dia 6 próximo será sobre as 26 edi-

ções do Salão Nacional de Arte de Belo Horizonte.

O que causou minha dúvida foi essa frase de Sérgio Rodrigo Reis, autor da coluna Visuais (Estado de Minas, Caderno de Cultura, 25 mai. 2009, p. 5): “Nos últimos anos, a opção vinha sendo por uma temática contemporânea das exposições”. O verbo no passado me preocupou muito. Será que essa exposição demonstra uma vontade de retomar o modelo do Salão, extin- guindo a Bolsa Pampulha? Ou pior, será que indica a intenção de direcionar o Museu para um rumo “histórico”, privilegiando os nomes já consagrados, isto é, tornando o MAP um mu- seu modernista?

Entre 2001 e 2004, Adriano Pedrosa e Rodrigo Moura, respectivamente curador e curador assistente que virou curador em 2003, implementaram uma série de mudanças na política de colecionismo do Museu. Até então, a maior parte das obras entravam no MAP via “prêmio de aquisição”, nas diversas edições do Salão, desde 1930. O fato é que o MAP nunca tinha com- prado nenhuma obra, tendo acumulado um acervo que espelhava o Salão e a vontade dos do- adores; o que pode até ser interessante para a própria história do Museu, de seu Salão e das relações com a sociedade belo-horizontina, mas insuficiente para que seu acervo se tornasse significativo além da restrita área de influência do Salão e além do gosto dos colecionadores mineiros.

Vik Muniz foi a primeira aquisição do MAP, em 2002, que continuou comprando, recebendo contrapartidas e transferindo obras de outros museus de forma ativa até pelo menos agosto de 2008, quando, já sob curadoria de Marconi Drummond (que voltou agora), foi realizada a exposição Procedente >> MAP: novas aquisições, com Alexandre da Cunha, Ana Maria Tava- res, Cristiano Rennó, Damian Ortega, Débora Bolsoni (BP, 2005, ie. 28º Salão), Fernanda Gomes, Gedley Braga, Gilvan Samico, Isaura Pena, Jac Leirner, Laura Belém (BP, 2004, ie. 27º Salão), Mabe Bethônico (com obra inédita no MAP), Marilá Dardot (BP, 2004, ie. 27º Sa- lão), Mary Vieira (com obra inédita no MAP), Márcia Xavier, Máximo Soalheiro, Nuno Ra- mos, Patrícia Leite, Regina Silveira (com obra inédita no MAP), Rivane Neuenschwander, Roberto Bethônico, Rodrigo Andrade, Rosângela Rennó, Sandra Cinto, Sonia Labouriau, Sô- nia Lins e Valeska Soares. Além dessas aquisições, não tenho notícia de outras… Vou conferir depois.

Como assinalado, três artistas participantes da Bolsa Pampulha tiveram suas obras adquiri- das pelo Museu, não como premiação, mas por terem sido consideradas importantes para o acervo. A diferença não é sutil, bem como não é sutil a diferença entre Bolsa Pampulha e o Salão. As três edições da Bolsa Pampulha foram oficialmente as 27ª, 28ª e 29ª edições do Sa-

lão Nacional de Arte de Belo Horizonte, mas o modelo do salão de arte foi descartado em prol de uma residência artística de um ano, na qual os artistas contaram com a orientação de no- mes importantes da arte brasileira. Oportunamente, vale dar uma lida no artigo A (im)perti-

nência dos salões3, em que Paula Alzugaray relata um debate com Adriano Pedrosa, ainda na

onda da Bolsa Pampulha.

Todos estes artistas, acredito, expuseram no Museu, mas ao menos três obras adquiridas eram inéditas no MAP. Isso demonstra uma certa continuidade entre história do Museu e aquisição, mas também uma importante maleabilidade. O que importa a um acervo não é ne- cessariamente o que foi exposto na instituição que o abriga, mas o que é relevante para a co- leção dessa instituição. Isso é ainda mais importante para o MAP, cujas características físicas geralmente tornam fúteis as tentativas de montar uma exposição tradicional. Em 2008-09-

094, por exemplo, escrevi sobre a briga dos tapumes com a arquitetura na exposição de Adria-

na Varejão, o que considerei um retrocesso.

Era um retrocesso pois a maior mudança do MAP na virada do milênio foi privilegiar obras que dialogassem com o edifício projetado por Niemeyer nos anos 1940 para ser um cassino. Tratava-se de um duplo movimento: por um lado, acatava-se a invencível arquitetura, mas por outro, criava-se um diferencial em relação aos outros museus do país: as peculiaridades do espaço demandariam exposições verdadeiramente específicas. Específicas mesmo: o Salão Nobre é inclemente e não perdoa site-specifics portáteis, transportáveis, isto é, falsos site-s-

pecifics.

Um caso recente foi a exposição de Angela Detanico e Rafael Lain, em maio de 2008. As ob- ras que estavam no Salão Nobre pareciam deslocadas e sem relação entre si – o que não pare- ce ter sido intencional pois em outros espaços há um discurso homogêneo entre as obras. Um

dado tempo, por exemplo, foi criado especificamente para o MAP, mas ficaria melhor em

uma galeria tradicional, a não ser que a intenção tenha sido criar uma obra diluída, algo mui- to diferente do que apreendemos pela fotografia mostrada no simpático site da dupla. O obje- to ficou perdido no teto como se fosse algo sem relação com Um dado lugar, que estava, por sua vez, perdido no piso.

Uma das questões centrais da Bolsa Pampulha foi preparar os jovens artistas para lidar com esse espaço indômito onde só há uma parede (no Mezanino): a proposta era substituir a me- táfora do “cubo branco” pela “caixa de jóias”, substituindo também o portfolio pela convivên- cia cúmplice, doméstica, visando, como disse Adriano Pedrosa, uma “personalização do mu- seu” pelo contato estreito do artista com a instituição. Um museu que só tem uma parede não 3 Alzugaray (2006).

aceita portfolio, isto é, porta-fólio, folhas de papel… A metáfora da “caixa de jóias” parece bem apropriada: só aceita coisas pessoais.5

Não sei se a exposição programada tem a intenção de preparar o retorno do modelo de salão, com seus portfolios e prêmios de aquisição. Para mim seria um grande erro, não só para o Museu, mas também para os artistas daqui e de fora que vêm para cá. O Museu perderia sua especificidade, reduziria a alguns dias a duração de sua influência, e restringiria novamente seu acervo a um desabrochar que raramente é coerente com o verdadeiro impulso colecionis- ta de um museu importante. Os artistas, todos, não só os jovens, perderiam com o fim da convivência e da troca, bem como com o retorno de uma mineiridade que só deu mais ou me- nos certo na música… Isso sem falar no público, para quem ir à Pampulha vinha deixando de ser longe demais. Para ver um acervo estabelecido de arte contemporânea, teremos que vol- tar a viajar? Ao menos a viagem não será tão longa mais: Inhotim. (Bom, tem também o Palá- cio, mas não é sua função ter um acervo…) Mas porque não ter dois, três, dez museus com acervo de arte contemporânea?

Espero que o marco da exposição, o 26º Salão, seja apenas uma coincidência (as três aquisi- ções da Bolsa Pampulha foram mostradas muito recentemente) ou um erro de comunicação com o jornalista. Espero mesmo que não seja uma pressão dos antigos contemplados para voltar com exclusividade ao Museu. Espero que não seja mais uma ameaça à Bolsa Pampulha e ao MAP como referência em arte contemporânea. Espero… que todos os meus medos sejam injustificados. Confio.

Sei que será uma ótima oportunidade para confrontar os catálogos dos Salões com as obras do acervo tão pouco visto. Olhar para dentro é bom: o Museu de Arte da Pampulha tem mui- tos espelhos que desviam nosso olhar para fora.