CAPÍTULO 2 - A IGREJA DO PILAR E ENTORNO
2.1. A IGREJA DO PILAR
2.1.1. Mapa de Danos da Igreja do Pilar
Tendo em vista o projeto de requalificação urbanística para a área do Pilar que começou a ser cogitado de uma maneira mais efetiva e que contempla a idéia de restauro da igreja, a DPPC/SECULT (diretoria de preservação do patrimônio cultural/ Secretaria de Cultura) em 2008 realizou um mapa de danos da Igreja do Pilar, uma vez que essa igreja estava abandonada, sem coberta e com portas e janelas entaipadas.
Para poder se entender o que é esse tipo de trabalho coloca-se algumas considerações a respeito de seus objetivos, procedimentos e posturas atuais adotadas:
Mapa de Danos é um instrumento de coleta de dados aplicável somente aos bens culturais materiais. Os dados dos danos físicos existentes no bem histórico são representados graficamente de forma sintética, através de tabelas, gráficos, relatórios, fotos, etc..
Traduz o resultado de pesquisas mais aprofundadas sobre uma obra e servirá para demonstrar o seu estado de conservação e fundamentação da postura de intervenção a ser adotada. O Mapa de Danos é considerado como um dos poucos, senão único, método de vivenciar com profundidade o real estado de conservação de um bem.
Segundo Barthel, C.; Lins, M.; Pestana, F. (2008), um dos primeiros Mapas de Danos realizados dentro dos parâmetros representativos (nomenclatura, hachuras, fichas técnicas das patologias etc.), utilizados atualmente pelos profissionais da área, foi confeccionado pelo Centro de Estudos Avançados da Conservação Integrada – CECI, durante a realização do projeto de restauração do Convento de São Francisco. Nele foi utilizada a fotografia de alta resolução para representação dos danos, trazendo para a realidade do Recife e de Olinda os primeiros contatos desta modalidade de diagnóstico. Esse método já era utilizado na Europa, pelo menos desde os anos 60, quando da reurbanização de Bolonha, na Itália, nos projetos para reaproveitamento dos antigos edifícios.
A carta de Atenas de 1931 indica pela primeira vez, a necessidade do procedimento de diagnóstico de danos:
...os especialistas aconselham unanimemente, antes de toda consolidação ou restauração parcial, análise escrupulosa das moléstias que os afetam, reconhecendo, de fato, que cada caso constitui um caso especial. (CARTA DE ATENAS de 1931)
De uma maneira geral, o mapa de danos apresenta o seguinte conteúdo:
1. Situação física, histórica e social do edifício (descrição sobre a localização do imóvel, situação legal, data de construção, estilo arquitetônico, contexto histórico de sua época, contextualização social e urbana atual (entorno), imagens antigas e atuais do imóvel e entorno etc.;
2. Declaração de significância (avaliação sobre os valores do bem cultural)
3. Representação gráfica de seu estado de conservação (representação das patologias, causas, agentes e ações corretivas, a descrição dos métodos e equipamentos empregados na investigação). Embora o tipo de representação seja livre, deverá ser capaz de ser compreendida por todos que terão participação no processo de intervenção. Atualmente, a tecnologia tem contribuído, facilitando procedimentos23. É importante salientar a diferença entre mapeamento de danos (ato de levantar e analisar os danos considerando suas características individuais) e o Mapa de Danos (produto final, ou seja, o resultado do levantamento ou mapeamento).
Para poder submeter-se a esse tipo de mapeamento de danos a Igreja do Pilar fechada, sem coberta e sem manutenção precisou passar previamente por uma limpeza, tal o estado deplorável em que se encontrava. Desenvolvido em 2008, esse mapa passou a ser um dos instrumentos para subsidiar as obras de recuperação física da igreja. Primeiramente realizou-se um trabalho de levantamento do estado físico da Igreja composto de duas partes:
1- análise de todas as fachadas do imóvel através de desenhos; e
2-análise de todas as paredes internas, pisos, tetos, esquadrias remanescentes e bens integrados de todos os ambientes através de fichas aplicadas.
Neste relatório, constam todos os quantitativos e especificações dos danos encontrados, bem como algumas recomendações para procedimentos de restauro.
O Mapa de Danos da Igreja do Pilar também proporcionou a digitalização, feita pelo IPHAN, do levantamento arquitetônico existente no seu acervo. Além disso foi uma oportunidade para mapear todos os danos das fachadas e dos elementos constituintes dos ambientes, com análise detalhada do estado de conservação do monumento e identificação dos agentes degradantes.
As etapas representadas graficamente foram posteriormente quantificadas para elaboração de um caderno de encargos que subsidia a criação de uma planilha orçamentária cujo objetivo é a identificação dos custos do projeto de restauro. Esse procedimento, apesar de útil, uma vez
23As técnicas mais empregadas utilizam-se da fotogrametria, scanner digital, simulação digital foto realística, fotografia de alta resolução.
que revela uma noção da situação do monumento, traz consigo certo grau de imprecisão, sendo muito mais uma estimativa do que um registro documental capaz de diagnosticar de maneira pontual ou total quais as principais patologias apresentadas pelo monumento em questão.
Da extensa legenda de cores utilizadas as principais são mostradas na legenda síntese abaixo, as quais também podem ser visualizadas nas fachadas demonstradas nas figuras:
Manchas de umidade, fungos e ou bolores Desprendimento da camada pictórica Eflorescência
Mancha decorrente de ação de fogo Desprendimento do reboco
Figura 30, 31, 32, 33: Fachadas da Igreja do Pilar com demarcação de danos conforme legenda - Maio de 2008.
Fonte: Mapa de Danos. Prefeitura do Recife. PPC/SECULT
Para o mapeamento dos danos no interior da igreja utilizou-se a planta baixa da igreja onde foram demarcados os ambientes e feita uma extensa representação fotográfica. Os dados foram também representados digitalmente através de legenda de cores. (figuras de 34 a 40)
LEGENDA
01- Escadaria frontal em Pedra de Lióz 02- Nave – térreo (sec. XVII)
03- Altar lateral e altar colateral direito 04- Altar lateral e altar colateral esquerdo 05- Capela-Mor –térreo (séc.. XIX) 06- Ossuário – térreo
07- Sacristia – térreo (sec. XIX) 08- Corredor (acesso a sacristia) 09- Escadaria (acesso a torre do sino) 10- Corredor – térreo (acesso ao coro
localizado no 1º pavimento) 11- Área do coro – 1º pavimento
Figura 34: Planta baixa da Igreja do Pilar com indicação dos espaços – A parte escura corresponde ao espaço da primeira capela, depois ampliada e reformada como Igreja do Pilar.
Fonte: Mapa de Danos da Igreja do Pilar- Prefeitura do Recife. PPC/SECULT –interferência da autora
Figura 35: Vista do lado A – Entrada principal da Igreja – acima das portas vestígios do coro destruído e ausência da coberta.
Fonte: Mapa de Danos da Igreja do Pilar
Figura 36: Vista do lado D – Capela do altar-mor e altares colaterais.
Fonte: Mapa de Danos da Igreja do Pilar
02 10
08
06 05
07
03 04 09
01 LADO D
LADOC LADOB
LADO A 11
Figura 37: Detalhe mostrando a ausência do telhado.
Fonte: Mapa de Danos da Igreja do Pilar
Figura 38: Detalhe do piso da nave em ladrilho hidráulico.
Fonte: Mapa de Danos da Igreja do Pilar
Figura 39: Detalhe do altar colateral direito.
Fonte: Mapa de Danos da Igreja do Pilar
Figura 40: Detalhe da sacristia – altar da sacristia.
Fonte: Mapa de Danos da Igreja do Pilar
O Mapa de Danos da Igreja do Pilar no início dos trabalhos constatou:
A Igreja encontra-se desativada. Até o início dos trabalhos, os vãos estavam entaipados, o monumento estava sem cobertura e em avançado processo de deterioração e arruinamento.
Os trabalhos só puderam ser iniciados após limpeza realizada pela EMLURB, retirando entulhos e vegetação que se encontravam no interior da igreja e separação dos restos mortais que estavam espalhados por toda igreja, resultado dos atos de vandalismo.
Durante o processo de levantamento dos danos, período em que a igreja precisou ficar aberta, diversos danos foram ocasionados como a destruição das pias batismais e do corpo do Púlpito (figuras 41 a 44).
Figura 41: Púlpito – lado B da planta baixa- antes da abertura das portas para início do mapa de danos.
Fonte: Mapa de Danos da Igreja do Pilar
Figura 42: Púlpito lado B da planta baixa- antes da abertura das portas para início do mapa de danos.
Fonte: Mapa de Danos da Igreja do Pilar
Figura 43: Púlpito destruído– lado B – após abertura das portas para o trabalho do mapa de danos.
Fonte: Mapa de Danos da Igreja do Pilar
Figura 44: Púlpito destruído -lado B após abertura das portas para o trabalho do mapa de danos.
Fonte: Mapa de Danos da Igreja do Pilar
Esse tipo de atitude irreparável demonstra o desinteresse e a total falta de valores para com a igreja. A desacralização da igreja deixa-se notar através desses atos da comunidade destituídos de laços afetivos, de memória ou cultural para com a igreja. A impressão que fica é que, de alguma forma, precisam destruir o que ainda ficou, e apagar definitivamente o que restou no espaço que agora lhes pertence.
O mapa de danos ainda apresentou a seguinte conclusão:
as paredes apresentam desprendimento da camada pictórica, manchas de umidade, fungos, bolores e ausência de reboco em algumas áreas, cuja causa está principalmente relacionada à ausência da coberta.
a capela-mor ainda se encontra coberta, tendo sua cúpula azulejada em bom estado de conservação.
o piso do monumento (ladrilhos hidráulicos) e as soleiras e degraus em cantaria estão em razoável estado, mas apresentam manchas e sujeira causadas pela ausência da cobertura que os expõe diretamente à ação das intempéries.
de uma maneira geral, a igreja está em estado de quase ruína e passível de ser recuperada.