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Mapas e as diferentes formas de engajamento com os

A partir da descrição de diferentes tipos de molde pretendo refletir sobre as formas de engajamento que cada um estabelece. Os moldes mais comumente encontrados na Europa demonstraram ser um excelente contraponto aos papelões utilizados pelas rendeiras de Canaan, justamente por conter informações acerca do que elas consideram ser a parte mais delicada da execução de um novo molde. Enquanto os diagramas que acompanham os moldes europeus apresentam o caminho de cada linha, o modo e o momento na qual serão entrelaçadas às demais linhas da peça, os papelões trazem apenas as formas e o padrão final a ser atingido, mas deixa em aberto a forma como a trama deverá ser construída. O fato dos papelões conterem informações distintas sobre a produção da renda determina maneiras específicas de se

engajar com esses moldes. Enquanto os diagramas europeus apresentam a sequência exata de movimentos a ser executados, as rendeiras de Canaan se deparam com uma multiplicidade de caminhos, entre os quais precisa escolher. Não existem linhas a serem acompanhadas, apenas as formas que devem ser obtidas ao fim do processo. Em alguma medida, pode-se afirmar que tal fato se reflete na maior autonomia das rendeiras na definição do caminho e da sequência de movimentos que mais lhe agrada e convêm.

No que tange ao modo como as rendeiras movimentam os bilros sobre a superfície dos moldes, guiando-se por meio das diferentes inscrições dos mesmos, é válido pensar que cada um desses tipos de matriz estabelece uma forma de orientação e movimentação própria. Uma é guiada ponto-a-ponto, sendo todo o percurso conhecido previamente, ao passo que a outra envolve uma busca ao longo do caminho. Dessa maneira, conforme vimos, permitem interpretações e demandam modos de uso próprios. Enquanto índices de movimento (INGOLD, 2002a, p. 226), portanto, os moldes podem ser compreendidos como mapas. Makovicky (2010, p. 84) também destaca a relação entre os moldes (com diagramas) e a movimentação dos bilros, conforme podemos verificar na seguinte passagem:

Thus, such drawings are essentially a linear representation of the working pair(s) of threaded bobbins, charting their course across the width of the pattern and enabling a lace maker to understand the sequence of stitches that make up a design. What the drawing shows, then, is movement.

A distinção entre as maneiras como as rendeiras se engajam com tais moldes decorre das notações e referências que disponibilizam acerca da produção de cada trama. Os desenhos, no caso dos papelões cearenses, e as linhas presentes nos diagramas dos moldes europeus constituem formas de direcionamento e comunicam aspectos essenciais relacionados à sua execução. Nessa perspectiva, as reflexões de Ingold (2002a) acerca das peculiaridades do “wayfinding”, em oposição à navegação, enquanto formas de orientação, se revelam interessantes. O percurso e a destinação do navegador estão pré-determinados pelas rotas traçadas no mapa, de modo que ele segue sequencialmente entre um ponto e outro até que chegue ao seu objetivo final (INGOLD,2002a, p. 220). Trata-se da reconstituição do caminho e das sequências inscritas na planta, seja um mapa ou um molde. Aqueles que se dispõem a percorrer o mundo de forma menos presa e mecânica, nos moldes do “wayfinding”, estariam mais propensos a aprenderem sobre o caminho como um todo e suas possibilidades. A definição do termo evidencia tal aspecto:

Wayfinding is understood as a skilled performance in which the traveler, whose powers of perception and action have been fined- tuned through previous experience, ‘feels his way’ toward his

goal, continually adjusting his movement in response to an ongo- ing perceptual monitoring of his surroundings (INGOLD,2002a, p. 220).

Em trabalho posterior, ao elaborar uma tipologia das linhas,Ingold (2007) re- toma tal distinção a partir da analogia entre traços e conectores. Seu argumento central é que a linha contínua seria um convite ao passeio, nos termos do “wayfin- ding”, ao passo que os pontos isolados (ou conectores) que estabelecem a mesma rota anteriormente feita à mão-livre, permitiriam a visualização completa do caminho a ser trilhado, desde o início até o fim, como na navegação (INGOLD,2007, p. 73). Tal oposição se revela interessante quando se trata de analisar as formas de engajamento propiciadas pelos moldes, justamente, por se pautar na diferenciação entre linhas e pontos. No entanto, para que possamos dialogar com suas reflexões a partir da comparação entre os moldes aqui em questão, é preciso inverter os termos da sua relação.

No caso das rendas, conforme vimos, são as linhas contínuas, definidas nos diagramas que acompanham as matrizes de renda europeias, que engessam o percurso ao estabelecerem, furo-a-furo, a sequência de movimentos, além dos pontos de saída e de chegada de cada bilro. Por outro lado, os buracos isolados, aqui correspondentes aos conectores, deixam as rotas em aberto, a serem descobertas e, posteriormente, narradas para outras rendeiras que desconhecem o caminho. Os desenhos dispostos entre as perfurações dos papelões, com as formas a serem obtidas, servem de baliza, ou de pistas, sobre o melhor trajeto a ser escolhido. Por esse motivo, os moldes que não apresentam tais referências são chamados de cegos pelas rendeiras. Nessa perspectiva, a presença dos conectores, e não das linhas, possibilita uma maior margem de experimentação e de criatividade por parte das rendeiras, que não se limitam a repetir os caminhos apresentados pelo mapa. Isso não significa que não exista inovação ou inventividade entre as rendeiras europeias, apenas que entre elas não existe a necessidade primária de imaginar possibilidades de percorrer um molde ou improvisar soluções, quanto ao caminho das linhas, para compor a trama adequadamente.