3 ENTRE CARTOGRAFIAS
3.2 Mapas como verdades e como construções sociais
Comumente vinculam-se esforços de sistematização da cartografia ao fim da Segunda Guerra, marcada pela automatização da cartografia. Desde então um número de diferentes ortodoxias científicas tem permeado o mundo da pesquisa cartográfica acadêmica ocidental na busca por uma noção de uma abordagem comum e universal (DODGE; KITCHIN; PERKINS, 2009).
No pós-guerra, os anseios por mapas com “maior qualidade” foram crescentes e grande esforço é empreendido para eliminar traços de influência artística e posicionar a cartografia como uma atividade inteiramente científica. Por meio do modelo “correto” é que se comunica
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a verdade sobre o mundo, o qual existiria, independentemente do observador, e assume-se que tudo é passível de ser mapeado dentro de uma estrutura geométrica para a representação do espaço euclidiano (SEEMANN, 2003; HARLEY, 1989; 1991; LEVY, 2008; CRAMPTON; KRIEGER, 2008, EDNEY, 2011)
Nestes rumos, seguem as pesquisas cartográficas da década de 50 voltando-se para fins bélicos, estruturadas sobretudo nos Estados Unidos. Estudos cartográficos rumam à normatização para reduzir os erros das representações. Baseado num conjunto de generalizações considerado adequado para a cartografia objetiva, rigorosa e empiricamente testada, foi criado um modelo de mapa. Calcado na filosofia em que os objetos a serem mapeados independem do cartógrafo, em prol da eficiência para expressar localização, direção e distância, sendo as observações sistemáticas o único caminho para a representação da realidade, pelo qual se criou um mito de mapa verdadeiro (SEEMANN, 2001; CRAMPTON; KRIEGER, 2008; DODGE; KITCHIN; PERKINS, 2009; GIRARDI, 2014).
Pesquisas capitaneadas por Artur Robinson pautam-se em princípios da psicologia experimental como o melhor caminho para a cartografia para ganhar respeito intelectual e desenvolver um corpo de generalizações adequadas, em busca de mapas claros, eficientes e eficazes. Desta forma, a cartografia foi distanciada dos usuários dos mapas, o contexto social e os observadores foram desconsiderados, a fim de garantir a universalidade cartográfica com eficiência (SEEMANN, 2001; EDNEY, 2011; KITCHIN; DODGE, 2007; CRAMPTON; KRIEGER, 2008). Segundo Cramptom e Krieger (2008), tal iniciativa tem sido alvo de críticas desde sua origem: algumas são críticas em si mesmas, outras promoveram as reflexões acerca da cartografia oficial – de onde surgem outras iniciativas.
A concepção de mapa como verdade, como representação fiel da realidade, objetivo, desprovido de valor, passa a minguar no final da década de 80. Ao mesmo tempo em que afirmam precisão, cientificidade e autoridade, os mapas sofrem contradições no interior do próprio método cartográfico. Não há mapa sem mapeador; um conjunto de generalizações e escolhas são traçadas: o que é mapeado é selecionado e expresso de acordo com objetivos específicos. Portanto, são subjetivos e relativos, expressando apenas um ponto e vista de determinados fatos (SEEMANN,
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A estas questões somam-se o fato de que uma ferramenta do conhecimento espacial não pode se restringir somente à abordagem euclidiana, da mesma forma o que é dado geográfico não se restringe unicamente àqueles que podem ser medidos e abstraídos, independentemente das características e relações que o conformam (SEEMANN, 2001). As limitações dos mapas como representações da realidade, cujo espaço considerado absoluto foi transcrito por meio de abstração matemática, fizeram com que diversos geógrafos, entre pesquisadores de outros campos, se afastassem dos mapas (SEEMANN, 2001; GIRARDI, 2014).
Além disso, a impossibilidade de contemplar conceitos e temas inerentes à própria ciência geográfica como território, espaço-geográfico, lugar, paisagem, bem como a propensão positivista a que os mapas modernos serviam, fez a relação entre a cartografia e a geografia minguar – de um lado, os geógrafos críticos; do outro, os quantitativos (GIRARDI, 2014).
As décadas de 80 e 90 testemunharam instigante comprometimento com as implicações do conhecimento cartográfico, sobretudo em oposição às epistemologias de mapeamento do pós-guerra (SCHUURMAN 2000; 2004 apud CRAMPTOM, 2008). Esforços pioneiros vêm à tona com as publicações de John Brian Harley, em Descontructing the map (1989), abrindo caminhos para a interpretação de mapas e mapeamentos para além de estudos técnicos, cognitivos e aplicados ao funcionalismo, incentivando a reorientação de um campo em grande parte empírico e acrítico. Inicia-se um corpo de discussões reconhecido como cartografia crítica, mudando o rumo de pesquisas cartográficas.
Com profunda conotação política, a pesquisa teórica, os discursos e as práticas surgem em oposição a pesquisas voltadas para a execução de mapeamentos tecnologicamente orientados para a generalização (KITCHIN; DODGE; PERKINS, 2009; DODGE; PERKINS, 2015).
Harley (1989; 1991) propõe a avaliação das regras tradicionais da cartografia e os vínculos entre a realidade e a representação como objeto de desconstrução, explora a textualidade dos mapas e as dimensões do poder discursivo nesses instrumentos imbuídos de valores e de expressões do saber/poder. Para ele, os mapas devem ser lidos como textos e defende
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que, por meio de sua desconstrução, pode-se ler as entrelinhas do mapa, as margens do texto, e, por meio de suas alegorias, descobrir seus “silêncios” e contradições que desafiam a honestidade aparente (HARLEY, 1989).
O autor argumentou ainda que os produtores de mapas eram eticamente responsáveis pelos efeitos desses mapas, apontando que o processo criativo estaria envolvido na produção para além da revelação da realidade. No processo de criação, puramente ideológico, da cartografia científica, muitas decisões subjetivas são feitas sobre o que incluir, como o mapa vai ser visualizado e o que o mapa deve comunicar. Neste sentido, os mapas são tidos como construções sociais (HARLEY, 1989).
A relevância dos escritos de Harley é consenso entre os pesquisadores que se debruçam na diversidade cartográfica para além das representações da realidade, pois o autor foi responsável por um corpo de críticas e reflexões teóricas que permitiram o desenvolvimento de muitos outros trabalhos que seguiram. Ao objetivar a desestruturação da hegemonia das formas de representar o espaço, chamam atenção para outras concepções sobre mapeamentos e os mapas que até então foram desconsideradas pela abordagem científica. Este fato vem contribuindo para a compreensão de aspectos teóricos dos mapeamentos, mudando a estrutura do trabalho e da produção de mapas.
Em parceria com Woodward, Harley adotou uma nova definição enfatizando os mapas na experiência humana, a fim de incluir outros mapas que até então não eram contemplados pelos manuais: para eles, os “mapas são representações gráficas que facilitam uma compreensão espacial das coisas, contextos, condições, processos ou acontecimentos no mundo humano” (HARLEY; WOODWARD, 1987).
A estratégia de Harley foi identificar as políticas de mapeamento e, neste sentido, tem inspirado uma série de pesquisas. Além de permitir aos teóricos trilharem outros caminhos, desde esta época despontam perspectivas que permitem manter um campo de pesquisa em atual efervescência teórico-prática. Contudo, sua abordagem não se isentou de críticas: Crampton e Krieger (2008) e Wood (1992) apontam que seus escritos permaneceram “atolados na concepção modernista de mapas”, como documentos acusados de “confessar a verdade da paisagem”.
Segundo Dodge e Perkins (2015), o autor parecia ignorar a possibilidade de contra mapeamentos e outras possibilidades de resistir
85 ao poder hegemônico. Ao passo que Wood (1992) traz que o problema não estava nos mapas, mas sim nos coisas ruins que poderiam ser feitas com ele, considerando que, apesar de os mapas poderem subsidiar as estruturas políticas dominantes ao expressarem interesses de grupos específicos nem sempre explícitos, podem ser feitos para ajudar os outros impulsionando uma série de projetos de contra mapeamentos.
Dos questionamentos à cartografia formal e da perspectiva ampliada a outras cartografias que divergem dos moldes da disciplina cartográfica ocidental, configuram-se cartografias “subversivas” (HARLEY, 1989), cartografias “indisciplinadas” (CRAMPTON; KRIEGER, 2008; 2010) – tendo em vista que o termo “disciplina” conota rigor, controle e restrições, a “cartografia indisciplinada” foge às regras e padrões construídos e impostos para a construção de mapas fiéis e feitos por especialistas, muitas vezes para fins de ordenamento e controle.
Já Kitchin e Dodge (2007), ao tratarem de “contra mapeamentos”, trazem que podem ser uma das estratégias para enfrentar a “crise da representação”, de forma a garantir a expressão de pontos de vista alternativos. Apesar disso, os autores argumentam que, mais uma vez, não se questiona o “status ontológico do mapa”: em vez disso, simplesmente revela a política de mapeamento.