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Capítulo 3 – Gestão do Conhecimento

3.6 Mapas Conceituais Estendidos

Os Mapas Conceituais Estendidos (MCE) foram concebidos a partir dos mapas conceituais com o objetivo de adicionar elementos semânticos à representação dos modelos mentais, partindo da teoria de memória de trabalho de Baddeley. (1992). Além da identificação dos conceitos e suas relações, estende-se a representação do modelo mental para a compreensão de como o agente detentor do modelo mental percebe os conceitos em relação ao cenário observado (Zambon, Baiocco, et al., 2016). Para que seja possível adicionar essas percepções, foi adicionado ao mapa conceitual, uma matriz de atributos.

Matriz de atributos é um processo que categoriza os componentes de um sistema com base em critérios predeterminados (Nicholas Milton, 2007). O posicionamento dos conceitos de um mapa conceitual dentro de uma matriz de atributos criaria uma representação do modelo mental do agente mais completa, pois relaciona as proposições ao ambiente de observação e às percepções do observador sobre o ambiente.

Um Mapa Conceitual Estendido (MCE), além de considerar um conjunto de proposições relacionadas, também considera dois atributos relacionados à observação: i) capacidade do conceito de gerar mudanças efetivas no ambiente e ii) nível de controle que o agente exerce sobre o conceito (Zambon, Baiocco, et al., 2016). Com base nesses atributos, os conceitos em uma matriz quadrada de nove interseções linha-coluna, da seguinte maneira:

• Eixo horizontal – Controlabilidade do domínio: Nível de influência dos conceitos na questão focal. Um conceito é posicionado neste eixo com base na capacidade que têm de exercer mudanças efetivas na questão focal.

• Eixo vertical – Controlabilidade do agente: Capacidade do agente de controlar as mudanças geradas pelo conceito. Um conceito é posicionado neste eixo com base no nível de controle que o agente julga ter sobre ele.

Ambos os eixos estão divididos em três regiões, dependendo do nível de controle. Essas regiões são: Controlável (CT), Penumbra (PN) e Não Controlável (NC). A Figura 3.2 apresenta os eixos do MCE.

Figura 3.2– Eixos do Mapa Conceitual Estendido Fonte: O autor

Os eixos do MCE também fazem referência à efetividade e assertividade. Entende-se como efetividade a certeza de um indivíduo sobre os resultados que serão produzidos futuramente pelos fenômenos que ele observa (Drucker, 2006). Assim, dentro dos modelos mentais individuais, o agente questiona se uma mudança no cenário ocorrerá efetivamente ou não. Dessa maneira, a efetividade equivale à controlabilidade do domínio. Portanto, o eixo de controlabilidade do domínio pode ser considerado como uma escala de mensuração da efetividade das mudanças no cenário. Seguindo essa linha de pensamento, um conceito com posição CT no domínio é efetivo, já que, pelo modelo mental do agente, ele criará mudanças no cenário. No caso contrário, um conceito com posição NC não criará mudanças efetivas no cenário, sendo por esse motivo chamado de utópico. Por último, um conceito na posição PN é ambíguo com respeito as mudanças no cenário.

A assertividade, por sua vez, é a capacidade de expressar com total certeza as opiniões e sentimentos (Naranjo Pereira, 2008). Ser assertivo implica estar em capacidade de tomar uma posição clara em relação a um evento determinado. Assim, a efetividade equivale a controlabilidade do agente. Portanto, o eixo de controlabilidade pode ser considerado uma escala de mensuração da assertividade da opinião do agente e sempre é analisado com relação ao controle que o agente exerce sobre os resultados que serão provocados pelos conceitos. Seguindo essa linha de pensamento, um conceito com posição CT é assertivo para o agente, já que sua posição com respeito a ele é clara. No caso contrário, um conceito com posição NC indica que o agente

não toma uma posição com respeito ao conceito, sendo por esse motivo chamado de passivo. Por último, um conceito na posição PN é chamado de alexitímico, em referência à dificuldade de expressar uma opinião com clareza, levando a posições dúbias.

Com base no anterior, as posições no MCE ficam conforme apresentado na Figura 3.3.

Figura 3.3 – Eixos do Mapa Conceitual Estendido com base na efetividade e assertividade Fonte: O autor

Além dos atributos de posicionamento dos conceitos, os MCE consideram um atributo a relação entre os conceitos que formam uma proposição. Se o conceito causa expande o comportamento do conceito efeito, a relação e chamada de reforço e é representada com um sinal “+”. Se pelo contrário, o conceito causa contrai o comportamento do conceito efeito, a relação é chamada de balanceamento e é representada com um sinal “-”. Segundo a teoria da análise de sentimentos, para questões sociais esse relacionamento está principalmente marcado por verbos (Karamibekr & Ghorbani, 2012, 2013). Assim, um verbo com uma conotação positiva, como

“aumentar” indica reforço, enquanto um verbo com uma conotação negativa como “impedir”

indicaria balanceamento. A Figura 3.4 apresenta um exemplo de MCE surgido a partir da questão focal “Como reduzir as reclamações dos clientes? ”

Figura 3.4 – Exemplo e Mapa Conceitual Estendido Fonte: O autor

No MCE do exemplo, observa-se como o conceito “consolidação de informações” tem conexões com outros três conceitos. Esse conceito está no quadrante assertivo-efetivo, o que significa que no modelo mental do agente, há total clareza em que as mudanças geradas pela consolidação de informações são efetivas. Esse conceito influencia os conceitos “departamentos” e “falhos no serviço”, e é influenciado pelo conceito “projeto”. “Falhos no serviço” é outro conceito central, sendo que esse conceito ocupa uma posição de incerteza, tanto na assertividade quanto na efetividade, sendo esse um ponto fraco segundo o julgamento do agente detentor do modelo mental. Segundo o anterior, é claro que o agente apresenta dúvidas com respeito ao controle nos falhos do serviço. Dessa maneira, é possível determinar a visão do agente com respeito a cada conceito e a maneira em que esse conceito influencia o sistema. Na Seção 3.7 encontra-se a explicação completa da análise de um MCE.

Com base na exposição anterior, para representar uma proposição no MCE devem ser identificados o posicionamento vertical e horizontal dos conceitos, assim estabelecidas as relações entre os conceitos. O posicionamento é definido pelas respostas a três questões que formuladas sobre cada uma das proposições a serem incluídas no MCE:

i) O conceito causa (Cc) refere-se ao cenário ou ao agente? ii) O Cc influencia mudanças no conceito efeito (Ce)? iii) A relação é de reforço ou de balanceamento?

Para compreender a influência desses fatores, analisaremos a proposição “metrô

mover São Paulo” em relação à questão focal: “Como o funcionamento do metrô impacta aos cidadãos? ” Claramente o Cc seria “metrô”, o Ce seria “São Paulo” e o verbo “mover”.

A primeira condição a ser observada considera se o conceito pode estar está relacionado à assertividade do agente ou a à efetividade de mudanças do cenário. Essa característica indica aonde está o efeito principal que o conceito causa no sistema, segundo o modelo mental do agente. Dessa maneira, a posição dos conceitos estará marcada inicialmente pelo cenário ou pelo agente dependendo da natureza do Cc. Por exemplo, o conceito “metrô” faz referência ao cenário, diferente de conceitos como “eu” ou “meu trabalho” que fariam referência ao agente. Assim, a análise do posicionamento se inicia pelo cenário.

O segundo fator indica se a ação do conceito causa tem efeitos reais no conceito efeito. Verbos de ação como “mover” usualmente indicam uma mudança no Ce, como é o caso da proposição do exemplo. Verbos de estado como “gostar” não influenciam a mudança. Por exemplo, na proposição “Eu não gosto do metrô”, nada muda no metrô pelo fato do agente gostar ou não dele. Se o Cc influencia mudança no Ce, então ele é indica controlabilidade do Cc no eixo ao qual faz referência. Para o posicionamento no eixo secundário do Cc, uma relação de reforço indica certeza, seja controlabilidade ou não-controlabilidade. Assim, para relações de reforço, se a posição no eixo principal do conceito é CT, o outro eixo também será CT e se for NC, vai tomar a posição NC. Pelo contrário, uma relação de balanceamento denota incerteza, levando a que a posição seja de PN.

Finalmente, o posicionamento do Ce toma a mesma posição do eixo secundário do Cc, pelo fato dessa posição ser marcada pela ação do Cc nele. Da mesma maneira que no posicionamento do Cc, a relação de reforço ou balanceamento determina se há certeza ou incerteza no eixo faltante do Ce. O quadro 3.1 apresenta como o posicionamento é determinado pelos três fatores apresentados.

Quadro 3.1 – Posicionamento dos conceitos no Mapa Conceitual Estendido

Cc refere-se a Cc afeta Ce? Relação Posição Cc Posição Ce Cenário Sim + Efetivo Assertivo Efetivo Assertivo Cenário Sim - Efetivo Alexitímico Ambíguo Alexitímico Cenário Não + Utópico Assertivo Utópico Assertivo Cenário Não - Utópico Passivo Ambíguo Passivo

Agente Sim + Efetivo Assertivo Efetivo Assertivo Agente Sim - Ambíguo Assertivo Ambíguo Alexitímico Agente Não + Efetivo Passivo Efetivo Passivo Agente Não - Utópico Passivo Utópico Alexitímico

Fonte: O autor

Segundo o Quadro 3.1, a proposição “metrô mover São Paulo” para a questão focal “Como o funcionamento do metrô impacta aos cidadãos? ”estaria posicionada no MCE conforme apresentado na Figura 3.5.

Figura 3.5 – Posicionamento do exemplo no Mapa Conceitual Estendido Fonte: O autor

O posicionamento dos conceitos pode gerar inconsistências se um mesmo conceito aparece em mais de uma proposição ocupando posições diferentes, já que um mesmo conceito somente pode aparecer uma vez em um mapa conceitual (Novak & Cañas, 2008). Em razão dessas incertezas denotarem falta de controle, se o mesmo conceito é posicionado em dois lugares diferentes, a posição final corresponderá àquela que denote menor controle entre as posições ocupadas.

Como foi indicado no começo da seção, o MCE se baseia na teoria de Memória de Trabalho de Baddeley. A memória de trabalho é um subsistema da memória humana onde ocorrem

as representações mentais do mundo (modelos mentais). Segundo Baddeley (1992), cumpre a função de reter a informação necessária em forma de objetos inter-relacionados, para processar e estruturar essa informação.

A capacidade de armazenamento da memória de trabalho é limitada, já que sua função principal é de processamento e não de armazenagem, sendo esta última função da memória de longo prazo. A memória de trabalho está limitada à armazenagem de sete elementos mais ou menos dois (Pinker, 2013). Com respeito ao tamanho dos elementos, a memória de trabalho consegue armazenar até 25 palavras quando elas conformam uma frase (Smith, 2004). Com base no anterior, um MCE que detenha as mesmas características da memória de trabalho, conterá:

 Ausência de conceitos e proposições desconexas.  Sete mais ou menos duas proposições

 Conceitos com até 25 caracteres

Considerando as características anteriormente descritas, a representação dos modelos mentais com base nos eixos de efetividade e assertividade proposta pelos MCE representa uma ferramenta para identificação do valor público. Com respeito ao cenário, os cidadãos avaliam se uma ação pública está sendo gerida efetivamente, isto é, se os resultados nessa questão são os esperados. Além disso, faz parte do modelo de análise do cidadão, avaliar se a atuação do poder público é desempenhada com efetividade usando os recursos disponíveis (De Oliveira, 2007; Downs & Corporation, 1967). Assim, por definição, há geração de valor na medida em que haja mudanças efetivas que beneficiem à sociedade como um todo.

Entretanto, os pontos de vista sobre a geração de valor para a sociedade podem não ser semelhantes, e por isso, é necessário identificar a clareza com a qual cada agente social expressa sua percepção de valor. Quando os cidadãos são assertivos com respeito a uma questão pública, deixam evidente sua expectativa de valor. No entanto, quando não conseguem expressar sua opinião, ou quando são passivos, não significa que essa deficiência deva ser considerada como omissão pelo agente público. Fenômenos como o efeito Bradley ou o efeito Shy Tory, nos quais a diferença entre as pesquisas de opinião e as eleições originadas no receio dos pesquisados a expressarem opiniões politicamente incorretas (Skibba, 2016), refletem os riscos originários das opiniões passivas. Portanto, é fundamental para o gestor público identificar as visões dos cidadãos e o grão de assertividade na expressão de suas visões.