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MAPAS DE RUÍDO COMO INSTRUMENTO DE PLANEJA MENTO URBANO

No documento PLANEJAMENTO URBANO E POLÍTICAS AMBIENTAIS (páginas 82-87)

O mapa de ruído tem a finalidade de representar espacialmente os níveis de ruído do ambiente, nos espaços abertos da cidade, e serve de base de informação para a população e para subsidiar tomada de de- cisão dos gestores urbanos.

Em 2002, o Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia instituíram a Diretiva nº 2002/49/CE, que trata da avaliação de gestão do ruído ambiente. Dentre as premissas desta diretiva, destaca-se a obri- gatoriedade dos mapas de ruídos, estabelecendo que:

(...) a elaboração de mapas de ruído estratégico deverá ser tornada obrigatória em determinadas zonas de interesse, dado que permite a

captação dos dados necessários para fornecer uma representação dos níveis de ruído perceptíveis nessa zona (EUROPEAN UNION, 2002, p. 2).

Essa diretiva exige o mapa de ruído para aglomerações urbanas superiores a 250 mil habitantes, em locais com eixos rodoviários ou fer- roviários e grandes aeroportos.

Desde a Diretiva nº 2002/49/CE, a European Environmental

Agency (EEA) apresenta, a cada cinco anos, o Annual Indicator Report Se- ries, sendo o último publicado em 2017, com dados de 2012. Esse relató-

rio estima que das 100 milhões de pessoas expostas ao ruído na União Europeia, 81% correspondem ao ruído advindo do tráfego de automó- veis (EEA, 2017), entre as fontes apresentadas na Figura 3.

Figura 3 - Participação das fontes de ruído na EU e a porcentagem esti-

mada de pessoas expostas aos níveis de ruído acima de Lden • 55 dB

Fonte: EEA (2017)

Os resultados das tomadas de decisões para o controle de expo- sição ao ruído, publicados no relatório da EEA informam que:

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Grupos de ações referentes ao uso do solo e ao planejamento urbano são os predominantes. Esse tipo de ação é representado por 23% de todos os planos de ação relacionados às aglomerações urbanas. Se- guido por medidas relacionadas ao gerenciamento de tráfego (20%) e outras (17%), este último inclui medidas relacionadas ao aumento da conscientização pública, evitando a geração de tráfego adicional e pro- movendo o transporte público, e incentivando o ciclismo e a cami- nhada (EEA, 2014, p. 47, tradução nossa)

No município de São Paulo, o mapa de ruído como instrumento do planejamento urbano foi inserido pelo legislador na pauta de elabo- ração da Lei nº 16.050/2014, que trata do Plano Diretor Estratégico do Município, no entanto, essa proposta foi vetada pelo executivo sob a alegação de que o mapa de ruído, por sua própria natureza, é dinâmico e mutável.

Para efeito de comparação e com o intuito de mostrar como ou- tros países e cidades tratam do assunto da poluição sonora e do plane- jamento urbano, segue um breve relato da legislação de Portugal e do município de Fortaleza.

Em Portugal, em consonância com a Diretiva nº 2002/49/CE (EUROPEAN UNION, 2002), foi aprovado o Regulamento Geral do Ru- ído (Decreto-Lei nº 9/2007), o qual define que a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) auxiliará os municípios na elaboração de mapas de ru- ído e planos de redução de ruído. Para tanto, a APA publicou o Manual técnico para elaboração de Planos Municipais de Redução de Ruído (PMRR), de autoria de Carvalho e Rocha (2008). Nesse manual, são de- finidas diretrizes para o cumprimento da lei portuguesa e da diretiva da união europeia, possuindo caráter misto, regulamentador e progra- mático (CARVALHO; ROCHA, 2008).

Segundo o Decreto-Lei nº 9/2007, os municípios portugueses com mais de 100.000 habitantes ou densidade populacional de 2.500 hab/km² ou superior estão sujeitos à elaboração do mapa de ruído e da carta de classificação de zonas. Além disso o manual também atribui responsabilidades aos municípios quanto aos planos de redução de ru- ídos. Quanto à poluição sonora oriunda dos veículos automotores, as responsabilidades são distinguidas em dois modos: i) para as interven- ções novas, as ações de redução do ruído devem ser consideradas no licenciamento ambiental (Decreto-Lei nº 9/2007); e ii) quanto às áreas

ruidosas devido ao viário existente, nas quais o município permitiu adensamento populacional, a atribuição fica sob a responsabilidade das câmaras municipais (CARVALHO; ROCHA, 2008).

Nesse quesito do viário existente, o manual destaca que, con- forme Carvalho e Rocha (2008, p. 41):

(...) como seja o caso de uma reorganização do espaço urbano levada a cabo pelo município, originando situações de zonas sensíveis na pro- ximidade de infraestruturas de transportes existentes ou programadas, que subitamente passam a originar situações de conflito. Da mesma forma, não devem autorizar a urbanização de zonas ruidosas, que já se sabe de início que causará sobreexposição do ruído.

Ou seja, o manual coíbe situações de urbanização de zonas sen- síveis próximos a eixos de transportes ruidosos, como rodovias e ferro- vias, atribuindo a responsabilidade da redução de ruído às Câmaras Municipais, nos casos em que sejam verificadas ocorrências de recepto- res sensíveis próximos a estes eixos. No Brasil ainda não existe legisla- ção similar.

Assim, tanto o Decreto-Lei nº 9/2007 como o Manual técnico para elaboração de Planos Municipais de Redução de Ruído destacam a importância do planejamento urbano no combate da poluição sonora.

No Brasil, a cidade de Fortaleza foi a primeira capital estadual a elaborar um mapa de ruído. Os trabalhos foram iniciados em 2010 e concluídos em 2013. Segundo a Prefeitura de Fortaleza (2016):

(...) informações constantes nas Cartas de Ruído permitirão a integra- ção da informação acústica no Plano Diretor Municipal de Fortaleza e servirão de base a decisões sobre as estratégias de intervenção ou, mesmo, sobre políticas legislativas para redução da poluição sonora. Além da experiência relatada em Portugal e Fortaleza, Murgel (2007) explica de forma concisa que, reconhecendo o ruído no ambiente, o mesmo pode ser planejado de modo que sejam separadas fisicamente as fontes dos pontos receptores, interpondo áreas mistas entre zonas muito ruidosas com áreas residenciais. Segue um resumo do que o autor exemplifica:

i. áreas ruidosas: podem ser ocupadas para atividades industriais; recreacionais (casas noturnas); atividade comerciais maiores como grandes supermercados e shopping centers;

ii. áreas com baixo nível de ruído: ocupadas para o comércio local, como padarias, farmácias, pequenas lojas; e,

iii. áreas não ruidosas: residências e escolas, porém, devem ser separadas as residências das escolas com áreas verdes.

Marcelo Nogueira, gerente de qualidade da Rossi Residencial, ao comentar os desafios da norma técnica sobre desempenho de edifi- cações habitacionais (NBR 15.575/2013), diz que a aplicação dos mapas de ruído traz benefícios setoriais, por exemplo, para as construtoras, pois

(...) auxiliam no dimensionamento da fachada em suas diversas faces e nos pavimentos. Em determinados casos, a rotação da torre ou a mu- dança de posição do caixilho auxiliam na melhoria do conforto acústico dos dormitórios 4.

Por fim, cabe destacar a importância de como o assunto tem evo- luído nas normas técnicas, no país. A NBR 10.151/2003 está passando por revisão, e trará novo tópico: “orientação ao planejamento urbano de uso

e ocupação do solo para efeito de controle da poluição sonora” (CBI, 2017). Isto

permitirá padronizar os métodos com que as cidades desenvolverão seus mapas oficiais de ruídos, auxiliando, desta forma, no planejamento urbano.

Em suma, Vianna (2014, p. 120) afirma que os “mapas de ruído

permitem a observação da dispersão do ruído, desde sua fonte e em todos os pontos desejados, em função de sua escala de cores”. Portanto, auxilia na to-

mada de decisão dos técnicos do licenciamento ambiental, dos planeja- dores urbanos e construtoras, ao se identificar as fontes e áreas expostas ao ruído, se configurando como um instrumento de informação, do con- trole, da gestão do tráfego urbano, e do planejamento urbano.



4 Matéria publicada na edição de outubro de 2015 da Revista Construção Mer-

cado “Falta de mapas acústicos públicos cria insegurança jurídica para incor- poradores”. Disponível em: <http://construcaomercado.pini.com.br/> Acesso em: 10 maio 2016.

No documento PLANEJAMENTO URBANO E POLÍTICAS AMBIENTAIS (páginas 82-87)