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Executivos em delações premiadas detalham ricos escaninhos da corrupção Depois das delações premiadas de Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef, o empresário Julio Camargo, executivo da Toyo Setal, dona de contratos da ordem de R$ 5 bilhões com a Petrobras, decidiu contar o que sabia sobre pagamentos de propina e o cartel de fornecedoras que fraudou obras na estatal. Camargo tentava reduzir sua provável condenação na Justiça.

O acordo foi fechado na semana anterior ao segundo turno das eleições de 2014. As urnas reconduziram Dilma Rousseff à Presidência da República, mas a informação sobre a nova delação premiada só chegou à opinião pública após a vitória da candidata do Partido dos Trabalhadores.

Camargo ficara na mira dos investigadores da Lava Jato após ser identificado em documento apreendido na casa de Paulo Roberto Costa. Figurava como possível doador em campanhas eleitorais. Paulinho anotara, após o nome de Camargo: “Começa ajudar a partir de março”. A campanha que mais recebeu recursos do executivo, conforme a lista de Paulinho, teria sido a de Lindbergh Farias (PT-RJ), candidato a senador pelo Rio de Janeiro em 2010: R$ 200 mil. Ele se elegeu.

Importante registrar que é balela o negócio de dinheiro para campanha eleitoral. Não obstante os altos os custos das eleições, as contribuições em grande parte acabam embolsadas por políticos. Servem para enriquecê-los.

A delação premiada de Camargo provocou pânico entre as fornecedoras da Petrobras. O executivo relatou que controlava outras empresas – Piemonte, Treviso e Auguri – usadas para repassar propina a empresas de fachada de Youssef. Entre janeiro de 2009 e dezembro de 2013 a Piemonte transferiu R$ 8,5 milhões para a GFD. A Treviso injetou R$ 4,4 milhões na GFD.

Entrou em pânico também o PT. Camargo explicitou que Renato Duque, diretor da Petrobras entre 2003 e 2012, fazia parte do esquema e recebia propina de empresas contratadas pela petroleira. Duque seria amigo do tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, e um dos responsáveis por obras bilionárias e sob suspeição no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro. Ali a previsão de gastos, de US$ 8,4 bilhões, pulou para US$ 47,7 bilhões.

Vamos à Toyo Setal. Ligada à multinacional Toyo Enginnering, do Japão, fora contratada pela Petrobras para construir a Unidade de Hidrogênio de Itaboraí (RJ), de R$ 1,1 bilhão, e a fábrica de produção de amônia para fertilizantes, em Uberaba (MG), de R$ 2,1 bilhões. Esta obra, da Diretoria de Gás e Energia, sob influência do PT. E mais a EBR (Estaleiros do Brasil), instalada no Rio Grande do Sul, contratada por R$ 1,8 bilhão para produzir módulos da plataforma de petróleo P-74, destinada a explorar o pré-sal.

Para demonstrar boa vontade com as autoridades, Camargo aceitou pagar R$ 40 milhões em multa por seu envolvimento com o petrolão. Leiloou cavalos de raça de seu luxuoso haras em Bagé (RS), aonde costumava viajar nos fins de semana com parentes e amigos, em dois aviões.

Camargo doou R$ 6,7 milhões a 13 partidos políticos entre 2006 e 2014. O PT ficou com a maior parte, R$ 2,6 milhões. Além de Lindbergh Farias, beneficiaram-se os candidatos a senador Delcídio Amaral (PT-MS), Marta Suplicy (PT-SP) e o deputado Adriano Diogo (PT-SP). Segundo Diogo, ele receberia R$ 100 mil de Marta Suplicy para dividir com a deputada Luiza Erundina (PSB-SP), mas o dinheiro ficou mesmo na campanha de Erundina.

O Partido da República embolsou R$ 2,5 milhões, quase tudo para a campanha de José Roberto Arruda ao Governo do Distrito Federal. Lembrete: Arruda foi forçado a deixar o mesmo Governo do DF, no ruidoso escândalo do mensalão do DEM (Democratas). O PMDB pôs as mãos em R$ 475 mil, o PSDB em R$ 162 mil, o PPS em R$ 113 mil e o PV, em R$ 26 mil.

As doações legais aos partidos, registradas na Justiça Eleitoral, ficaram sob suspeita após as investigações da Lava Jato. Conforme os procuradores, a origem dos recursos era suborno de fornecedoras da Petrobras. As contribuições oficiais serviam para lavar e esquentar propina. Camargo confessou que, além das doações eleitorais, entregava gratificações em dinheiro vivo no Brasil ou mandava depositar somas no exterior.

Curso de escárnio

Na esteira de Camargo, um segundo executivo ligado à Toyo Setal, Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, fez acordo para colaborar com a Justiça. Dono da Tipuana Participações, da qual saíram depósitos de R$ 7,3 milhões para contas controladas por Youssef, ele pertencia ao Conselho Administrativo da EBR. Mendonça Neto informou que simulava o aluguel de máquinas de terraplenagem com notas emitidas por um certo Adir Assad e denunciou a existência de uma

espécie de “clube” formado por empreiteiras. Elas constituíram cartel para fraudar contratos da Petrobras. O executivo aceitou pagar multa de R$ 10 milhões pelos desvios que provocou.

Hora de voltar a Renato Duque. Além da influência na obra do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, citada acima, também se suspeitava, conforme o juiz Sérgio Moro, que o ex-diretor recebesse propina de contratos relacionados às refinarias Henrique Lage, Presidente Getúlio Vargas, Paulínia e aos gasodutos Urucu-Manaus e de Cabiúnas.

Engenheiro mediano, Duque enriqueceu nos governos Lula e Dilma Rousseff. Julio Camargo e Augusto Ribeiro de Mendonça Neto disseram a investigadores que repassaram R$ 150 milhões em operações de suborno a ele e a seu principal assessor, Pedro Barusco. Na sede da Toyo Setal em São Paulo, o dinheiro vivo era entregue aos emissários de Duque conhecidos como “Tigrão”, “Melancia” e “Eucalipto”. Em sua delação, Camargo apontou o dedo para Fernando Baiano. De acordo com Camargo, o operador do PMDB recebeu comissões de US$ 40 milhões para intermediar dois contratos de fornecimento de sondas de perfuração da Samsung junto ao ex-diretor Internacional, Nestor Cerveró. Baiano mantinha “compromisso de confiança” com ele.

Cerveró tentou se manter no anonimato. Após doar três apartamentos na valiosa zona sul do Rio de Janeiro a filhos e neto, com medo de perder os imóveis, transformou em bem de família casa de alto padrão em Itaipava (RJ). Tornaram-se públicos caminhos tortuosos que fez para justificar a compra de um apartamento de R$ 7,5 milhões – duplex de 300 metros quadrados, com piscina – onde viveu por cinco anos, em Ipanema, no Rio. Para camuflar a posse e forjar aparência legal, abriu offshore no Uruguai, usou “laranja” no Brasil e criou sede- fantasma para alugar da offshore o apartamento, simulando não ser dono do imóvel.

Para informação do leitor, Cerveró não saiu da Petrobras em consequência da compra da Refinaria de Pasadena. Nem pela corrupção. A substituição por Jorge Luiz Zelada foi arranjo pouco transparente envolvendo o PMDB. Para compensá-lo, ganhou o cargo de diretor Financeiro e de Serviços da BR Distribuidora. Prova disso é o elogio do Conselho de Administração, presidido por Dilma Rousseff. O documento registrou os relevantes serviços, “ressaltando sua competência técnica e o elevado grau de profissionalismo e dedicação demonstrados no exercício do cargo”.

Fernando Baiano, imprescindível para obter contratos na Diretoria Internacional, manteria conta bancária no BCP Geneve, na Suíça, em nome da offshore Hayley. E receberia propina por meio de uma conta de Julio Camargo no banco Winterbothan, no Uruguai. Na Suíça, Camargo usou conta do Credit Suisse, com o nome sugestivo de Pelego. Lá depositava dinheiro de contratos de consultoria fraudulentos firmados pela Piemonte, Treviso e Auguri com consórcios e empresas contratadas pela Petrobras.

A mesma conta na Suíça movimentou dinheiro de Duque, Barusco, Paulinho e Youssef. Propinas a Baiano teriam sido pagas por meio da Techinis Engenharia e Consultoria e Hawk Eyes, registradas em nome dele. Camargo abriu outra conta na Suíça, a Vigela, para receber suborno. Baiano seria o beneficiário. Havia ainda mais uma, no Merril Lynch, de Nova York, para pagamentos de Youssef a Baiano.

Duque receberia propina em nome da offshore Drenos, em conta bancária do Cramer na Suíça. Para conseguir o direcionamento de obra de R$ 1 bilhão na Refinaria Henrique Lage, em São José dos Campos (SP), Camargo disse que pagou R$ 6 milhões a Duque e Barusco. Até ali a Suíça já bloqueara US$ 20 milhões em nome de Barusco. Em outra obra, na Refinaria Presidente Getúlio Vargas, em Araucária (PR), a dupla exigiu R$ 12 milhões. Conforme Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, porém, o valor foi bem maior. O “clube” dispendeu de R$ 50 milhões a R$ 60 milhões, entre 2008 e 2011, para ser autorizado a comandar obras no valor de R$ 2,4 bilhões na Presidente Getúlio Vargas. Pagaram as somas em doações oficiais, malas de dinheiro vivo e depósitos em contas no exterior. Já no caso dos gasodutos Urucu-Manaus e de Cabiúnas a propina alcançaria R$ 5 milhões.

Bem-vindos ao cartel

Com base nos depoimentos dos executivos da Toyo Setal, mais as delações de Paulinho e Youssef, a Lava Jato deflagrou em 14 de novembro de 2014 operações para prender Duque e executivos de algumas das maiores empreiteiras do País. Dia histórico. Foram para a cadeia, entre outros, Ricardo Pessoa (presidente da UTC, apontado como coordenador do “clube”), Gerson Almada (vice-presidente da Engevix), Sérgio Mendes (vice-presidente da Mendes Júnior), Ildefonso Colares Filho (presidente da Queiroz Galvão), Erton Fonseca (diretor de Engenharia da Queiroz Galvão) e Eduardo Leite (vice-presidente da Camargo Corrêa). Fernando Baiano fugiu.

Em depoimento, Mendonça Neto relatou que, sob orientação de Duque, procurou o tesoureiro João Vaccari Neto para repassar suborno de R$ 4 milhões na forma de doações oficiais ao Partido dos Trabalhadores. Do que foi injetado no PT entre 2008 e 2011, a Justiça Eleitoral registrou R$ 2 milhões procedentes da SOG Óleo e Gás, Setec Tecnologia e PEM Engenharia, todas do grupo Toyo Setal. O dinheiro chegou ao partido em 2010, ano em que Dilma Rousseff foi eleita presidente da República.

A parte de Duque equivalia a 1,3% do valor de cada contrato fechado com a Petrobras. Em troca o diretor de Serviços providenciava para que apenas as indicadas pelo “clube” fossem contratadas. Conforme a delação premiada dos executivos da Toyo Setal, o cartel se formou no fim dos anos 1990 (final da Era FHC, que foi de 1995 a 2002) e se fortaleceu a partir de 2003 (início dos governos Lula).

O “clube” se reunia, discutia as obras oferecidas pela Petrobras e definia, segundo os interesses das empresas, as prioridades de cada uma. Acertadas, encaminhavam as decisões a Duque. Seguindo o script, ele as convidava a “disputar” certames. As escolhidas para perder apresentavam preços mais altos. Ganhariam nas próximas contratações. Dava-se assim o rodízio que invariavelmente impunha preços elevados à estatal.

Baiano foi preso, mas Duque, graças a decisão do ministro Teori Zavascki, do STF, livrou-se da cadeia em 3 de dezembro de 2014. O ex-presidente Lula criticou a imprensa por propagar que contribuições oficiais a campanhas eleitorais receberam dinheiro de propina. Argumentou que as informações eram sigilosas. Sabia do desgaste que as notícias representavam ao governo e temia que reforçassem a tese do impeachment de Dilma Rousseff. Questionado, Lula dissimulou:

— Estou pensando em conversar sobre isso qualquer dia desses, para colocar algumas verdades no lugar.

Do jurista Hélio Bicudo, em março de 2015:

Sob a liderança de Lula, o caldo de cultura do PT passou a ser o rouba, mas faz. No caso do mensalão muitos foram pegos, mas justamente o grande beneficiário da corrupção, Lula, ficou de fora. Ele sabe manipular as coisas. Tem carisma. Os governos não deveriam existir para enriquecer as pessoas. Infelizmente Lula fez do PT um partido tradicional, no pior dos sentidos.