5 PALIMPSESTO
5.2 O ARTISTA COMO ARQUEÓLOGO
5.2.2 Mapas e mapeamentos
Uma forma de se localizar, perseguir, rastrear e documentar a materialidade, as relações e a história dos lugares, pode ser através de suas representações abstratas: os seus mapas e mapeamentos. Estes recursos permitem aos cartógrafos representar os territórios e, por conseguinte, auxiliam os arqueólogos em suas explorações e percursos, bem como, nas documentações do espaço, ao logo dos tempos. Assim, os mapas se apresentam ora como artefatos, achados das percepções temporais sobre determinadas regiões por seus habitantes, ora como elemento guia para as buscas.
Segundo Moacyr dos Anjos, os mapas são abstrações que pretendem isolar e destacar elementos, específicos ou gerais, de uma realidade bem mais complexa do que aquela delimitada pelos cartógrafos. São formas de representação que jamais se confundem com o objeto representado, conservando-se como recortes possíveis de territórios inapreensíveis por completo. Dentro desta visão, os territórios, enquanto espacialidades complexas, escapam às representações pragmáticas de suas áreas. No entanto, dentro da linguagem cartográfica, expressa por uma “mudez gráfica”158, pode estar guardada, de forma implícita, memórias de disputas físicas e simbólicas, informando e norteando a feitura dos mapas. Nesse sentido, eles revelariam uma condição ambígua, um jogo em que podem conter essas memórias e ao mesmo tempo escondê-las, “apagando, de suas superfícies planas e ordenadas, os mecanismos acidentados de sua constituição”159. Os mapas podem, assim, cristalizar imagens sobre determinados lugares, naturalizando-as por sua persistência no tempo, mostrando-se, muitas vezes, como “documentos de conflitos e de danos que ainda afetam certos indivíduos e determinados grupos populacionais”160.
158 DOS ANJOS, M. Contraditório: arte, globalização e pertencimento. Rio de Janeiro: Cobogó, 2017, p. 41.
159 Ibid. p.42.
Todas essas questões que rondam a presença dos mapas, aparecem como mais uma forma de lidar com a sobreposição de situações, espaços e tempos que constituem o arcabouço dos lugares. Por esse motivo, os mapas também fazem parte dos elementos da cultura material e simbólica que nos permitem investigar os territórios sob a óptica arqueológica e memorial, sendo também uma peça de grande interesse para a articulação entre arte e lugar. Com os mapas em vista, as obras de diversos artistas tentam articular o que poderíamos chamar de alma ou essência desses documentos: a sua capacidade de colocar em perspectiva a dinâmica da organização dos lugares, pensar trajetos, pontos em destaque, partidas, chegadas, distâncias, deslocamentos... temas disparados pelas inúmeras possiblidades que os mapas oferecem quando são vistos em sua forma de movimento, quando nos permitem mapear.
A artista marroquina Bouchra Khalili, por exemplo, usa o mapa ou o mapeamento para rejeitar a possibilidade de qualquer ideia fixa de regionalismo ou nacionalismo; de passado como distinto de presente ou de centro como discernível de periferia. Mapear, para ela, seria como expandir as histórias e permitir que o seu entendimento da geografia seja guiado pela vívida tridimensionalidade da história. Os elementos cartográficos aparecem como componentes visuais centrais em alguns de seus trabalhos, mas são empregados com a intenção de serem subvertidos.
Dentre os tantos trabalhos em que Khalili se apropria das ideias cartográficas, em uns, ela utiliza a própria imagem tradicional dos mapas, como em The Mapping journey project (figura 41), provocando neles novos desenhos e intervenções, em outros, porém, a artista se apropria exclusivamente da ideia de mapear, recolher informações, construir um percurso (ou narrativa), que de algum modo proponha contornos para um lugar ou relação.
Figura 41 – Bouchra Khalili, The Mapping Journey Project, Video instalação. 2008-2011, The New Museum, New York, Jul 2014.
Fonte: Foto de Benoit Pailley161.
No trabalho Garden Conversation (2014), a artista relata um suposto encontro entre Ernesto Guevara (Che Guevara) e Abdelkrim Al Kpattabi (herói de guerra marroquino exilado) através de documentos que o testemunhariam, encontrados em escavações imaginárias. O vídeo toma como locação um lugar ao norte do Marrocos que se comporta como um artefato colonialista, ilustrando uma história de conexões entre lugares e pessoas diferentes. Neste contexto, criando outras aproximações geográficas, ela permite que a história entre no presente e redesenhe uma nova geografia de relações e encontros, justamente neste lugar erguido sobre uma série de conflitos e remodelações.
Mapear um lugar pode significar, para artistas como Bouchra Khalili, formas de recriar lugares, recalcular rotas e, sobretudo, renovar o olhar sobre o território em debate. O mesmo acontece quando Akram Zaatari fala sobre o final do seu filme, em que a câmera em um drone afasta cada vez mais do espaço onde ocorreu a trama, nos deixando uma visão aérea do lugar, um olhar à distância (figura 42). Nesse instante, Zaatari redesenha o espaço que nos fez, durante quase todo o filme, estar do lado de dentro, nos oferecendo, agora, um novo mapa de sua localidade, uma nova localização, que segundo a sua descrição, está lá para o observarmos com o olhar da arqueologia, com o olho que vê a partir do futuro e não apenas de cima. “você o vê como arquitetura e você o vê como arqueologia”162.
161 Disponível em: <https://www.ibraaz.org/essays/115>.
162 WORDS ON WORK: “BEIRUT EXPLODED VIEWS” BY AKRAM ZAATARI. Disponível em:< https://www.youtube.com/watch?v=1N7H_pdS7b4.> Acesso em: 30 abr. 2021.
Figura 42 – Beirut Exploded Views
Fonte: Yahoo Video Search163.
163 Disponível em: <https://br.video.search.yahoo.com/search/video?fr=mcafee&ei=UTF-8&p=beirut+exploded+views+akram+zaatari#id=1&vid=c8298751768679093e37bd45fa5db01d&action=click>.