(%) Nome científico Nome comum
3.2.1. Mapeamento de bancos de pesca Projetos PESCAMAP e PRESPO
Dois estudos realizados na última década tiveram como um dos principais objetivos o levantamento e o conhecimento dos bancos de pesca locais e costeiros da costa portuguesa, designadamente os projetos PRESPO (2009-2010; Gaspar et al., 2010) e PESCAMAP (2015; Gonçalves et al., 2015). Ambos identificaram os principais bancos de pesca costeiros, sendo que o primeiro projeto foi realizado numa escala de âmbito nacional e por isso cobriu toda a área do PNSACV. O projeto PESCAMAP foi, pelo contrário, de âmbito regional e estendeu-se parcialmente no PNSACV, particularmente na área entre o Burgau e a Arrifana. No presente relatório é apresentada uma nova análise de dados obtidos nestes dois projetos, feita no âmbito do projeto MARSW e adaptada à área marinha do PNSACV, que também contribui para a sua harmonização e para facilitar a comparação destes dados.
Na elaboração de ambos os projetos foi primeiro essencial definir o que se considera ser a pequena pesca costeira. O projeto PRESPO utilizou o enquadramento dado pela legislação nacional (decreto regulamentar n.º 43/87, de 17 de julho, e suas alterações), nomeadamente ao considerar unicamente a frota local constituída por embarcações de comprimento fora-a-fora (CFF) até 9 m (Gaspar et al., 2010). O projeto PESCAMAP utilizou genericamente o contexto dado pela Comissão Europeia para Portugal e adotada pela Direcção-Geral de Recursos Naturais, Segurança e Serviços Marítimos (DGRM) na divulgação de dados da pesca (Gonçalves et al., 2015). Para ambas as instituições, a pequena pesca costeira é constituída por embarcações que utilizam artes fixas (e.g. covos, alcatruzes, redes de emalhar, redes de tresmalho, murejonas) e têm menos de 12 m, sendo fundamentalmente usadas na captura de espécies pelágicas e demersais. Assim, em termos concretos e para o efeito do projeto PESCAMAP, considerou-se a pequena pesca costeira como a que é exercida por embarcações de comprimento de fora a fora inferior a 12 m e que utilizam artes fixas (Gonçalves et al., 2015). Os bancos de pesca da frota costeira constituída por cercadoras foram igualmente avaliados por ambos os projetos, bem como a atividade exercida pelas embarcações que pescam com ganchorra. Aquela frota é constituída por embarcações que praticam a arte de cerco ativo, dirigida particularmente à captura de sardinha, cavala e carapau. Na sua maioria, este segmento possui embarcações entre 15 e 25 m, operando essencialmente até 12 milhas da costa. A ganchorra é utilizada na captura de espécies de moluscos bivalves, normalmente muito valorizados nos mercados, como a conquilha (Donax trunculus) e o pé-de-burrinho (Chamelea gallina).
Pequena pesca costeira (projetos PESCAMAP e PRESPO)
Foi utilizada em termos genéricos a metodologia designada em língua inglesa por map-based
interviews (Léopold et al., 2014) e que consiste na exibição, em entrevistas presenciais, de um
mapa com pontos de referência da costa bem conhecidos pela generalidade dos pescadores e com uma quadrícula definida, onde é solicitado a pescadores inquiridos que indiquem as áreas principais de pesca.
As zonas esboçadas pelos pescadores inquiridos foram convertidas em áreas no formato vetorial (shapefile) em ambiente de sistema de informação geográfica (SIG) no software livre QGIS 3.4.12 Madeira (QGIS Development Team, 2019; figura 3.2.1.1).
Figura 3.2.1.1- Mosaico apresentando as áreas de pesca desenhadas pelos mestres e pescadores nos inquéritos, depois de serem transformadas em áreas no formato vetorial em ambiente SIG (método: map-based interviews). Fonte de dados: projeto PESCAMAP.
Seguidamente, as áreas de pesca individuais foram transformadas em formato raster com a dimensão total da área de estudo e com uma resolução de 0,5 milhas náuticas. Dada a
quantidade de áreas obtidas, foi necessário elaborar um modelo que permitisse a realização em série de muitas “rasterizações” em simultâneo, usando várias ferramentas do QGIS (Processing Toolbox).
Para cada inquérito, e para cada polígono definido como área de pesca (Figura 3.2.1.1), foi atribuído o valor unitário 1 (presença de pesca), enquanto às restantes zonas foi-lhes atribuído o valor zero (ausência de pesca). Através da utilização da aplicação Raster calculator do QGIS foi possível realizar os cálculos necessários para obter os mapas finais dos bancos de pesca (Figura 3.2.1.12), que apresentam o resultado em termos de número de convergência ou preferência pelos mestres inquiridos.
Figura 3.2.1.1- Ilustração do método de cálculo com dados espaciais em formato
raster usado no cálculo dos bancos de pesca da pequena pesca costeira (Gonçalves et al., 2015).
O projeto PRESPO utilizou também a estratégia das entrevistas presenciais referidas anteriormente. Além de possibilitar a identificação dos bancos de pesca utilizados pelas principais artes, este projeto possibilitou identificar e enquadrar espacialmente os diferentes
métiers utilizados na costa portuguesa. Uma vez que não houve acesso aos dados individuais
obtidos em cada inquérito, mas sim aos mapas individualizados por métier, o resultado final apresentado foi a combinação dos respetivos bancos identificados. Os mapas dos bancos de pesca utilizados em cada métier foram digitalizados e convertidos em áreas no formato vetorial em ambiente SIG e posteriormente tratados de acordo com a metodologia referida
Pesca costeira (projetos PESCAMAP e PRESPO)
Na identificação e elaboração de mapas de pesca da frota do cerco foram estabelecidas duas estratégias complementares. Em primeiro lugar, foram utilizados os dados adquiridos através do método das entrevistas presenciais descritas previamente e, em segundo lugar, através da utilização de dados do sistema AIS (Automatic Identification System). O AIS é um sistema de identificação e monitorização de tráfego marítimo que tem como principal objetivo melhorar a segurança da navegação, evitando colisões e salvaguardando a vida humana e a proteção ambiental.
De acordo com a legislação nacional e comunitária (decreto-lei n.º 180/2004, de 27 de julho, alterado pelo decreto-lei n.º 52/2012, de 7 de março; institui um sistema comunitário de acompanhamento e de informação do tráfego de navios), todas as embarcações de pesca portuguesas com comprimento de fora-a-fora superior a 15 m são obrigadas, desde meados de 2014 (Portaria n.º 286-D/2014), salvo em determinadas exceções configuradas na lei, a utilizar um Sistema de Identificação Automático (AIS). O transdutor instalado nas embarcações foi concebido para receber e/ou transmitir informação VHF, designadamente a identidade do navio (MMSI), rumo, velocidade, hora do dia e posição geográfica (Hoye et al., 2008). A transmissão pode desenrolar-se em períodos curtos que podem variar proporcionalmente (2-10 segundos a 3 minutos) à velocidade de deslocação da embarcação (Ristic et al., 2008), i.e., com uma resolução bastante superior ao sistema VMS (Vessel Monitoring System) disponível.
De acordo com os mesmos decretos regulamentares, a embarcação deve manter o sistema AIS ligado, podendo desligá-lo unicamente em situações que impliquem a segurança fora das águas sob jurisdição nacional ou que as normas internacionais específicas prevejam para proteção de informações da navegação.
Dada a característica do sinal de rádio, a informação transmitida pelas embarcações pode ser rececionada por uma antena privada dedicada para o efeito. Neste trabalho foram usados dados recolhidos pela equipa de investigação do CCMAR para o projeto PESCAMAP no período compreendido entre agosto de 2013 e julho de 2014 (Gonçalves et al., 2015; Figura 2.2.1.3). Dados recentes continuam a ser compilados e serão avaliados em futuros trabalhos. No mapeamento dos bancos de pesca utilizando os dados de AIS, a densidade de pontos foi interpolada através da utilização do método designado em língua inglesa por Kernel Density
Estimation. Uma vez que somente uma parte das embarcações desta frota possui qualquer um
dos sistemas de monitorização, a sua atividade somente pode ser documentada de forma parcial do ponto de vista espacial usando unicamente o sistema AIS. A alternativa neste caso é também a utilização da metodologia do inquérito presencial anteriormente apresentada.
Figura 2.2.1.3- Mapa da informação de AIS (Automatic Identification System) recolhida de dezassete cercadoras que pescaram no barlavento algarvio entre agosto de 2013 e julho de 2014 (fonte de dados: projeto PESCAMAP).
Projetos PROTECT e MARSW (costa alentejana do PNSACV)
No âmbito do projeto PROTECT – Estudos científicos para proteção marinha na costa alentejana, que decorreu entre 2010 e 2014 (Viegas, 2013; Castro et al., 2015) e,
concretamente na tarefa que consistiu na avaliação das capturas comerciais e do esforço de pesca na região alentejana do PNSACV, realizaram-se 77 embarques para acompanhamento desta atividade: 57 embarques entre Sines e o Cabo Sardão, e 20 embarques entre o Cabo Sardão e Odeceixe. Em cada embarque recolheu-se informação relativa às atividades da faina, incluindo o tipo e as características das artes de pescas empregues, capturas, rejeições e localização geográfica dos lances. Com esta informação foi possível construir mapas de intensidade de pesca por arte de pesca utilizada.