• Nenhum resultado encontrado

MAPEAMENTO SEMÂNTICO DA MODALIDADE

2. Modalidades subjetivas

2.5 MAPEAMENTO SEMÂNTICO DA MODALIDADE

Van Awera & Plungian (1998) destacam a importância de se fazer um mapeamento semântico da modalidade para, a partir daí, ser possível se fazer previsões sobre os meios pelos quais as línguas expressam modalidade. Para tal mapeamento, os autores baseiam-se no caminho apontado por Bybee, Perkins & Pagliuca (1994).

A fim de melhor compreendermos o que envolve o mapeamento semântico da modalidade, faremos uma pequena incursão sobre o caminho traçado por Bybee, Perkins & Pagliuca (1994). Primeiramente, definiremos mapeamento semântico como uma “representação geométrica dos significados, ou se alguém preferir, dos usos, e das relações entre eles” (Van der Awera & Plungian, 1998).42

Então, segundo Bybee, Perkins & Pagliuca (1994), há três caminhos ou representacões que se encaixam dentro da classificação de mapa ou também chamada mini-mapas. Entendemos, pois, que tais caminhos se aproximam de um mapeamento. Contudo, há ocasiões em que o assunto não se esgota, havendo necessidade de mais detalhes, principalmente no tocante à modalidade deôntica.

O caminho traçado por Van der Awera & Plungian (1998) de acordo com Bybee, Perkins & Pagliuca (1994) apresenta a distribuição e o desenvolvimento dos marcadores modais, que são verbais e considerados parcialmente gramaticalizados (auxiliares, derivacionais ou com flexão).

Tais marcadores podem se desenvolver para dentro ou fora do status mencionado acima. E, embora Van der Awera & Plungian (1998) não trabalhem com marcadores modais que são substantivos, adjetivos, advérbios ou predicados de estados mentais, os autores acreditam que a base semântica do mapeamento que se estabelece nesse estudo servirá para os demais tipos de marcadores também.

42A semantic map is a geometric representation of meanings, or if one likes, uses, and of the relations between them. (VAN DER AWERA; PLUNGIAN, 1998, p. 86).

64 Segundo Van der Awera & Plungian (1998), as ligações diacrônicas e sincrônicas constituem o caminho do mapa sugerido por eles. Para efeito de nosso estudo, o mapeamento, ou melhor dizendo, a representação será sincrônica uma vez que não trabalhamos com dados históricos.

Assim, se considerarmos o caminho da permissão, de acordo com Bybee Perkins & Pagliuca (1994), temos:

habilidade possibilidade de raiz possibilidade epistêmica

permissão

Já ao considerarmos o caminho da possibilidade, vemos o seguinte:

habilidade mental possibilidade de raiz

habilidade

habilidade física permissão

Ilustraremos a seguir, a partir de Bybee, Perkins & Pagliuca (1994), o único caminho apontado pelos autores, o da possibilidade. Contudo, tal trilha será mostrada na perspectiva de Van der Awera & Plungian (1998). As entidades interligadas são consideradas tanto em relação ao significado quanto ao uso. As flechas indicam que um significado ou uso pode se desenvolver de um para o outro. A figura 7, por exemplo, ilustra que a possibilidade de raiz pode se desenvolver para possibilidade epistêmica.

65 Nos exemplos arrolados por Bybee, Perkins & Pagliuca (1994, p.193) para o inglês arcaico, por exemplo, destaca-se “may” (mæg) usado para habilidade em geral, mas que se desenvolve para a possibilidade de raiz.

Assim, a condição geral envolvendo habilidade ou capacidade expressa pela modalidade de raiz inclui tanto condições físicas como sociais, sendo que permissão inclui somente condições sociais. Conseqüentemente, a possibilidade de raiz insere o sentido de permissão social. Desta feita, de uma certa forma, a permissão seria derivada em parte da possibilidade de raiz.

No que diz respeito ao mapeamento semântico da modalidade, é necessário explicarmos alguns pontos acerca da terminologia empregada no mapa. Para tal fim, utilizaremos a terminologia apontada por Van der Awera & Plungian (1998).

Os referidos autores utilizam os termos “participante externo” e “participante interno” respectivamente para os aspectos externos e internos do estado de coisas que a proposição reflete. Assim, temos uma subcategoria da modalidade onde participantes externos e internos comportam, juntos, a modalidade não epistêmica.

Os autores usam a terminologia inspirada em Bybee, Perkins & Pagliuca (1994). Apesar de “deôntico” e “epistêmico” serem termos bastante difundidos, Bybee, Perkins & Pagliuca (1994) não usam o termo “deôntico”. Contudo, eles estudam os usos envolvendo permissão e obrigação. E consideram tais usos como orientados para o agente, uma vez que o falante é quem permite ou obriga; enquanto que a modalidade orientada para o falante inclui os casos do imperativo, como discutimos na seção 2.1.

Van der Awera & Plungian (1998) dividem a modalidade em quatro domínios. O primeiro, o do participante interno, refere-se ao tipo de possibilidade e necesidade interna ao participante engajado no estado de coisas. No caso de possibilidade, lidamos com a habilidade (capacidade) do participante, e, no caso da necessidade, lidamos com a necessidade interna do

Participante externo Possibilidade deôntica Possibilidade epistêmica Participante interno Possibilida- de

66 participante. O segundo domínio é o do participante externo. No caso da modalidade de participante externo, esta se refere a circunstâncias externas ao participante.

Retomemos os exemplos de Van der Awera & Plungian vistos na introdução desta pesquisa em (05) e (06), para ilustrar as circunsâncias externas ao participante. Em (05), com o exemplo “you can take the bus 66”, visto no início de nossa discussão, a modalidade “participante externo” envolve possibilidade, pois o ônibus 66 oferece somente um meio de transporte possível para o falante utilizar. Em (06), “you have to take the bus”, a modalidade “participante externo” é de necessidade, haja vista que o ônibus 66 é o único meio de transporte para se levar o falante até a estação. Então, para chegar até lá, tomar o ônibus 66 constitui uma necessidade.

O terceiro domínio é o da modalidade deôntica. Nesse grupo, a modalidade deôntica identifica circunstâncias externas ao participante haja vista que alguém ou alguma norma ética ou social permite (ou obriga) o participante se engajar no estado de coisas. Vejamos o seguinte.

(56) John may leave now. João pode sair agora. (57) John must leave now. João deve sair agora.

No caso que envolve permissão, em (56), há alguém com autoridade e/ou alguma norma que qualifica a saída de John como possível. A permissão é, então, uma questão de possibilidade deôntica. Ao contrário, em (57), vemos a obrigação ou necessidade deôntica, uma vez que a saída de John é necessária.

O último domínio, seguindo a idéia dos autores, é o da modalidade epistêmica, a do julgamento do falante.

Salientamos que, embora não trabalhemos com o mapeamento semântico propriamente dito, faz-se necessário para comprender os estudos nessa direção uma vez que tais estudos auxiliarão nas interpretações em nossa análise dos dados.

67