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Mapa 2 – A Zona Pertinente (ZP)

2.1 Linguística Funcional Centrada no Uso (LFCU)

2.1.2 Marcação, expressividade e contrastividade

Ainda no âmbito das relações entre língua e cognição, tratamos do princípio da marcação (GIVÓN, 1995, 2001a), cuja base é estruturalista, do que decorre uma tendência de expressá-lo em termos binários (marcado versus não marcado) e associá-lo à complexidade estrutural. De fato, o último fator citado é um dos critérios de que se vale Givón (1995, 2001a) para avaliar marcação. O diferencial do Funcionalismo ao utilizar esse conceito é a inclusão de fundamentos de base comunicativa, cognitiva, sociocultural, entre outros, em sua aplicação.

Segundo Givón (1995), três são os critérios para se avaliar marcação:

(a) Complexidade estrutural: a estrutura marcada tende a ser mais complexa (ou mais larga) do que a correspondente não marcada;

(b) Distribuição de frequência: a categoria marcada (figura) tende a ser menos frequente, portanto, cognitivamente mais saliente, do que a categoria não marcada correspondente (fundo);

(c) Complexidade cognitiva: a categoria marcada tende a ser cognitivamente mais complexa – em termos de esforço mental, demanda de atenção e tempo de processamento – do que a não marcada (GIVÓN, 1995, p. 28)26.

26 “(a) Structural complexity: The marked structure tends to be more complex (or larger) than the corresponding unmarked one.

(b) Frequency distribution: The marked category (figure) tends to be less frequent, thus cognitively more salient, than the corresponding unmarked category (ground).

Valer-nos-emos desses critérios para analisar marcação entre os tipos de intercaladas. Em relação à complexidade estrutural, ampliamos a proposta de Givón (1995), sugerindo tratar não apenas de aumento de substância formal, mas também de algum tipo de padrão estrutural complexo, como, no caso desta pesquisa, a anteposição e a intercalação, ordens que representam uma ruptura ao padrão tradicional SVO(C). Em aplicação desses critérios à ordem das Temporais, Cavalcante (2015) apresentou as seguintes considerações:

Quadro 1 – Marcação e ordenação das orações temporais no Corpus Sociolinguístico da Cidade do México

Fatores Distribuição de Frequência27 Complexidade Cognitiva Complexidade estrutural Geral Anteposição - marcado + ou - + + ou - Posposição + marcado - - - Intercalação + marcado + + + Fonte: Cavalcante (2015, p. 101).

Como se pode perceber, a intercalação foi o padrão considerado mais marcado, tomando como base a aplicação dos três critérios. Como destacam Braga; Paiva (2017), padrões de ordenação menos frequentes, mais marcados, também o são pragmaticamente, “ou seja, [estão] a serviço de funções discursivas mais específicas” (BRAGA; PAIVA, 2017, p. 205). Já a anteposição, em relação ao critério de complexidade cognitiva, assume dupla faceta (-/+ marcado) a depender de sua função, já que marcação é dependente de contexto (GIVÓN, 1995, 2001a). Por representar uma ruptura a um padrão canônico, a anteposição demanda maior complexidade cognitiva do que a posposição, sendo, portanto, considerado padrão mais marcado do que esta. Contudo, dada sua função de guia, seria menos complexo cognitivamente antepor uma Temporal para guiar o ouvinte/leitor aos fatos que se seguirão (CAVALCANTE, 2015), o que confirma a assunção de Diessel (2005), quando mostra que a sentença complexa apresenta processamento mais rápido se a adverbial preceder a principal. Refletimos, no entanto, que o mesmo parece acontecer com as intercaladas.

Ainda observando o quadro 1, percebemos umas categorias mais marcadas que outras. Como Cavalcante (2015) considerou, em relação à frequência, menos marcados os fatores com recorrência acima de 50%, todos os outros teriam de ser inseridos na categoria de marcados. Contudo, vemos que há diferentes níveis de marcação entre a ordem das

(c) Cognitive complexity: The marked category tends to be cognitively more complex – in terms of mental effort, attention demands or processing time – than the unmarked one” (GIVÓN, 1995, p. 28).

27 “Em todos os quadros que se referem ao critério distribuição de frequência, a partir de agora, incluiremos a nomenclatura marcado após os sinais de + ou -, para que não se confunda com + ou – frequente, uma vez que, em termos de frequência, estruturas com o traço + marcado são menos frequentes e vice-versa” (CAVALCANTE, 2015, p. 101).

Temporais, conforme a soma de seus traços. Por isso, é necessário adotar uma perspectiva escalar para a avaliação de marcação (FURTADO DA CUNHA; COSTA; CEZARIO, 2003). Nesse sentido, em uma escala de marcação, teríamos: (+ marcado) intercalação > anteposição/posposição (- marcado).

A proposta desta pesquisa é avaliar apenas os dados de intercalação, distribuindo- os em diferentes subgrupos, conforme seu grau de prototipia. Em seguida, analisar esses subgrupos e distribuí-los em uma escala de marcação, desde os mais marcados aos menos marcados. Por ser uma categoria marcada, acreditamos que o protótipo de intercalada tenha como características alta complexidade e baixa frequência.

Por outro lado, pode haver situações em que procedimentos marcados sejam dotados de alta frequência e/ou menor complexidade cognitiva/estrutural e vice-versa. Dubois; Votre (2012), estudando enumerações e pautando-se no princípio de marcação, hipotetizaram que, quanto à complexidade estrutural,

as enumerações que reúnem maior número de recursos (expansão, redução, repetição, marcadores etc.) são mais complexas do que as que reúnem menor número de tais recursos; as enumerações mais longas são mais complexas” (DUBOIS; VOTRE, 2012, p. 57-58).

Contudo, os resultados mostraram que “as enumerações mais curtas mostram mais procedimentos de expansão, enquanto as enumerações menos complexas exibem um número mais expressivo de marcadores” (DUBOIS; VOTRE, 2012, p. 60). Além disso, os autores encontraram um número expressivo de repetições e marcadores, mecanismos complexos. Em suma, eles perceberam, nas enumerações mais curtas, o predomínio de mecanismos mais complexos, o que parece questionar o princípio de marcação. Desse modo, os autores propõem que

é preciso repensar o princípio de marcação, também, no que concerne à complexidade cognitiva, no sentido de que não é qualquer aumento de cadeia que vai implicar naturalmente um aumento das tarefas de decodificação (DUBOIS; VOTRE, 2012, p. 61).

Segundo os estudiosos, alguns procedimentos marcados podem servir justamente para tornar a estrutura menos complexa, reduzindo-a ou dando mais transparência. Em face dessas discussões, os pesquisadores propõem o princípio de expressividade, que vem para contrabalancear o princípio de marcação:

Quadro 2 – Princípio de marcação e princípio de expressividade

Princípio de marcação Princípio de expressividade O Princípio de marcação é cognitivamente

motivado em termos de esforços associados às tarefas de codificação.

O Princípio de expressividade é cognitivamente motivado em termos da expressividade e da eficácia, o que equilibra as tarefas de codificação.

Um elemento marcado será mais elaborado e mais longo.

Um procedimento discursivo marcado pode ser menos elaborado e menos longo.

Um elemento marcado será menos frequente. Um procedimento discursivo marcado pode ser mais frequente.

Um elemento marcado exigirá mais esforços de codificação.

Um procedimento discursivo marcado pode reduzir ou anular o esforço de codificação.

Fonte: Dubois; Votre (2012, p. 69).

É possível que o princípio de expressividade esteja atuando para explicar a alta frequência de Temporais antepostas, como mostraram Cavalcante (2015) e Cavalcante; Cardoso (2016). Nesse sentido, uma posição dotada de complexidade estrutural (quebra de um padrão canônico de ordenação) pode ser mais frequente, servindo justamente como mecanismo textual para salientar o cenário e guiar o leitor/ouvinte, diminuindo as altas demandas de processamento da narrativa (DIESSEL, 2005). Em relação às intercaladas, o princípio de expressividade poderá atuar sempre que houver uma quebra de expectativa no que diz respeito à marcação. Nossas hipóteses são formuladas com base na baixa frequência do protótipo de intercalada, por ser justamente o que melhor representa a categoria, em virtude de sua complexidade estrutural.

Relacionada à marcação está a contrastividade. Conforme apontam Furtado da Cunha; Bispo; Silva (2013), o falante pode destacar um item em especial, criando uma configuração atípica da sentença para destacar esses elementos dentre os demais no discurso. Hipotetizamos que a intercalação de Temporais pode atuar no sentido de refletir contrastividade e mudança de tópico, sempre que introduzir sujeito diferente ao apresentado no tópico em andamento, por exemplo.

Para tanto, com vistas a mensurar topicalidade, valer-nos-emos das discussões de Givón (1995) acerca de distância referencial e persistência tópica. Em relação à distância referencial (ou acessibilidade anafórica), um referente poderá apresentar alta, média ou baixa topicalidade. No que diz respeito à persistência tópica, o autor explica que a continuidade do referente no texto pode indicar a possibilidade de ser mais ou menos tópico.

Tendo em vista a divisão feita por Lima (2009), delinearemos essas categorias de análise da seguinte maneira: quanto à distância referencial, os referentes poderão ser classificados segundo alta topicalidade (referente localizado na cláusula precedente à

Temporal), média (localizado na segunda cláusula precedente à Temporal), baixa (localizado na terceira cláusula precedente à Temporal) ou não-tópico (não localizável em nenhuma das três cláusulas precedentes à Temporal).

No que tange à persistência tópica (ou persistência catafórica), um referente poderá ser classificado segundo alta persistência (presença nas três orações seguintes à primeira ocorrência da Temporal), média (presença nas duas orações seguintes à primeira ocorrência da Temporal), baixa (presença apenas na oração seguinte à primeira ocorrência da Temporal) ou não-persistência (ausência nas três orações seguintes à primeira ocorrência da Temporal).

Em termos cognitivos, Givón (1995) explica que a acessibilidade anafórica mede o quão acessível cognitivamente o referente é, e a persistência (que se relaciona com frequência) mostra o quão importante esse referente é. Nossa hipótese é a de que a intercalação dentro da cláusula nuclear deve introduzir referentes dotados de alta acessibilidade anafórica, mantendo o tópico em andamento. Já as intercaladas não prototípicas trariam sujeitos com baixa acessibilidade ou não tópicos. Esse tipo de intercalação seria contexto propício para contrastividade. Acreditamos, também, que contextos de Temporais inseridas entre referentes não tópicos e não persistentes são casos de inserção parentética (JUBRAN, 1993, 1996a, 1996b, 1999, 2009, 2015c)28.