Ainda são restritos os trabalhos realizados com angiospermas nativas do Brasil incluindo a aplicação de metodologias moleculares, com a maioria dos estudos restritos a espécies cultivadas ou de interesse econômico (Benko-Iseppon, 2001).
No caso das Araceae a maioria das análises incluindo caracteres moleculares referem- se a padrões de restrição de DNA de cloroplasto ou ao sequenciamento de segmentos rbcL desta organela. Ambas as abordagens são muito úteis para estudos macrotaxonômicos, porém nem sempre informativas em nível intergenérico e pouco informativas em nível interespecífico e interpopulacional, devido à alta conservação das seqüências de cloroplasto que apresentam herança materna e não sofrem recombinação (Hillis et al.,1996).
Uma análise cladística usando seqüenciamento de segmentos rbcL foi feita em Ariflorae por French et al. (1995) posicionando o gênero Anubias Schott como um grupo irmão de Homalomena, Furtadoa M. Hotta e Philodendron, enquanto Montrichardia emergiu como um grupo-irmão destes quatro gêneros. Estes resultados levaram Grayum (1996) a sugerir que as Homalomeninae constituiriam um grupo parafilético.
Trabalhos adicionais com seqüências rbcL foram efetuados usando alguns poucos membros de Araceae de regiões temperadas, confirmando a posição das Araceae entre as Liliiflorae (Chase e Albert, 1995), bem como mantendo sua posição comparativa com relação a outros grupos de Monocotiledoneae (Duvall et al.,1993). Outro estudo molecular também com seqüências rbcL (Stockey et al.,1997) estabelece um grupo monofilético entre as Lemnaceae e o gênero Pistia, mantendo-os unidos como membros da família Araceae.
Liao e Hsiao (1998) baseados em dados obtidos através de RAPD observaram que a estrutura genética das populações de Acorus gramineus Soland., ocorrente em diferentes sistemas de rios do Taiwan, apresenta-se altamente diversificada, sugerindo que o fluxo gênico entre elas seria muito limitado.
Em nível interespecífico existem estudos moleculares comparando espécies nativas e cultivares dos gêneros Colocasia e Alocasia com as metodologias de RFLP (Restriction
Frangment Lengh Polymorphism) e RAPD (Random Amplified Polymorphism of DNA), para
fins de melhoramento, em vista de sua importância econômica para produção de tubérculos no Japão e na China (Ochiai et al., 1997; 2000; 2001).
Felizmente, ao longo dos anos, tem sido observada uma tendência de aumento nas análises com marcadores moleculares, bem como outras abordagens mais refinadas na família Araceae, tanto com o intuito da aplicação em pesquisa básica como aplicada. Na espécie Athurium andreanum os pesquisadores Buldewo e Jaueerally-Fakim (2002) procederam ao isolamento e limpeza de DNA com o intuito de melhorar a qualidade do DNA para ser utilizado em amplificações por PCR-RAPD, AFLP e Microssatélites, considerando que se trata de planta rica em polissacarídeos e polifenóis. Foram testados três protocolos, porém, o DNA de alta qualidade só foi obtido a partir do tecido da espata e não de folhas. Os autores chegaram à conclusão de que o tecido da espata apresenta menor quantidade de contaminantes, principalmente quando comparado aos resultados de quantificação em gel de agarose, onde arrastes de degradação de DNA de folha foi verificado, provavelmente provocados pela ação de compostos secundários, presentes em grandes quantidades, e precipitados juntamente com o DNA genômico durante os procedimentos de isolamento.
Mace e Godwin (2002) desenvolveram um trabalho de caracterização de C. esculenta, popularmente conhecida como taro, utilizando marcadores de microssatélites, onde seqüências de isolados foram utilizadas para enriquecer a biblioteca genômica da espécie. O seqüenciamento de 269 clones rendeu 77 insertos contendo regiões de repetições, sendo a maioria (81,7%) de dinucleotídeos ou trinucleotídeos. O padrão mais comum foi GT/CA, representando 42% de todos os tipos. Um total de 43 pares de primers foi desenvolvido, dos quais 41 produziram bandas típicas de microsatélites. Dezesseis (39%) apresentaram polimorfismo quando selecionados usando-se um grupo restrito de genótipos de taro do
Sudeste da Ásia e Oceania, com uma média de 3.2 alelos detectados em cada lócus. Tais bandas representam um recurso útil para caracterização do germoplasma dessa cultura, bem como para mapeamento e seleção assistida.
Uma nova perspectiva dentro da linha de pesquisa baseada em marcadores moleculares em Araceae tem se observado, incluindo a associação de marcadores a programas estatísticos computacionais para esclarecer questões de relações filogenéticas nos mais variados níveis, sejam intraespecífico e interespecifico, infragenérico ou interfamiliar. Isso foi feito, por exemplo, na família Lemnaceae (monocotiledônea) que inclui plantas aquáticas flutuantes de ocorrência restrita, família considerada por vezes taxonomicamente associada às Araceae (veja revisão histórica de Les et al., 2002), embora as relações entre as famílias têm sido um tanto incertas (Mayo et al., 1997). Análises cladísticas utilizando caracteres morfológicos (Stokey et al., 1997) ou caracteres moleculares (Duval et al., 1994; Davis, 1995; French et al., 1995) corroboraram a hipótese de que as Lemnaceae seriam relacionadas às Araceae. Contudo, resultados de vários outros estudos apresentam diferenças na posição filogenética das Lemnaceae em relação a outros gêneros das Araceae. Estudos tradicionais a partir da morfologia, comumente indicam uma relação estreita entre o gênero
Pistia (Araceae) e as aquáticas flutuantes de Lemnaceae (Arber, 1920a, Engler, 1877, apud
Rothwell et al., 2004; Hegelmaier, 1868; Mayo et al., 1997).
Visando esclarecer questões de ordem filogenética Rothwell et al. (2004) realizaram um trabalho baseado em análises moleculares utilizando os espaçadores intergênicos trnL-
trnF de cloroplasto. Com base nos dendrogramas obtidos, os autores concluíram que as
análises filogenéticas que usam seqüências do trnL-trnF de cloroplasto refutam a hipótese determinada pelas evidências morfológicas tradicionais e pelas seqüências de rbcL de que
Pistia seria um grupo irmão ou que se relacionasse proximamente às Lemnaceae.
Chen et al. (2004), realizaram a primeira investigação molecular para identificar a relação genética entre espécies e cultivares do gênero Aglaonema Schott (Araceae) usando o
marcador AFLP. O gênero inclui 21 espécies (Nicolson, 1969), todas herbáceas nativas do sudoeste da Ásia, mas ocorrentes no nordeste da Índia, sul da China, Indonésia e a Nova Guiné, onde habitam florestas tropicais úmidas (Nicolson, 1969; Mayo et al., 1997). Devido à variegação foliar e à tolerância a locais com pouca luz, espécies de Aglaonema foram cultivadas na China e em outros países da Ásia, por séculos, como ornamentais (Nicolson, 1969), havendo controvérsias quanto à sua classificação, com a espécie A. commutatum no centro da controvérsia devido à sua variabilidade morfológica. Nicolson (1969) sugeriu que esta espécie poderia ter origem híbrida a partir de A. nitidum Blume e A. marantifolium Blume. Porém, mais tarde Jervis (1980) propôs que A. commutatum pode ter se originado por hibridização introgressiva a partir de A. crispum (Pitcher & Manda) Nicols. e A. philipense Engl.
Para esclarecer melhor a referida relação, Chen et al. (2004) avaliaram a sensibilidade do AFLP fluorescente na identificação de cultivares e determinação da diversidade genética em 60 amostras de Aglaonema (54 cultivares, uma duplicata de A. communtatum e cinco outros gêneros de Araceae). Foram usadas seis combinações de primers inicialmente selecionados a partir de 48, observando-se que os fragmentos de AFLP variaram de 50 a 565 bp, com a maioria dos polimorfismos distribuídos entre 150 e 350 bp. Um total de 449 fragmentos foram avaliados, sendo 314 (70%) polimórficos. As análises dos dendrogramas construídos pelo programa NTSYS (análise UPGMA) foi capaz de distinguir cultivares e espécies de Aglaonema, devendo ajudar na identificação de germoplasmas do gênero, conservação e desenvolvimento de novos cultivares.
Monsteroideae constitui-se em uma das subfamílias mais importantes e taxonomicamente desafiadoras das Araceae, sendo considerado um dos grupos mais basais na família. Análises morfológicas incorporando dados moleculares revelaram grupamentos consistentes com gêneros de Monstereae, Heteropsideae e Anadendreae formando clados monofiléticos (Mayo et al., 1997), enquanto estudos prévios revelaram relações pouco
sustentáveis na taxonomia das Monsteroideae, especialmente na tribo Monstereae, não sendo possível indicar uma filogenia confiável para o grupo ou compreender totalmente as relações intergenéricas devido à insuficiência dos dados (Tam, 2002).
Como citado inicialmente nesta revisão, o primeiro agrupamento realizado para essa subfamília foi originado a partir da classificação de Schott (1860, apud Tam et al., 2002), o qual não se baseou em conceitos filogenéticos, mas em “afinidades naturais” utilizando principalmente a morfologia floral com poucas características vegetativas. Posteriormente a subfamília foi circunscrita por Engler em 1876 e revisada por Engler e Krause em 1908. A classificação de Engler (1876a) foi baseada principalmente em estudos morfológicos e anatômicos, e esses rearranjos refletiram em princípios filogenéticos. Há pouco mais que 10 anos, observa-se que houve um imenso acúmulo de evidências filogenéticas baseadas nas seqüências de DNA devido ao progresso rápido nas técnicas e ao interesse amplo no campo da sistemática molecular em plantas. A organização e a evolução do genoma de cloroplasto e as vantagens e as desvantagens que oferecem aos estudos da filogenia fez com que a sistemática recebesse muitas revisões detalhadas (Palmer, 1985; Clegg e Zurawski, 1990; Morton et al., 1997; Soltis e Soltis, 1998).