2. A PEDRA DO REINO E OS CATOLICISMOS: ROMANO E SERTANEJO
2.3 A LITERATURA DE SUASSUNA E O AMBIENTE CULTURAL
2.3.1 Marcas regionais do Catolicismo Sertanejo
O catolicismo sertanejo é uma adaptação cultural da Igreja Católica Apostólica Romana ao sertão do nordeste. O homem do sertão não se satisfaz com a religião e a transforma, mantendo seus traços mesclados com sua própria cultura:
Eu sou devoto dele [Santo Antônio Conselheiro de Canudos, o Sertanejo] e de Padre Cícero, na minha qualidade de Profeta do Catolicismo sertanejo! [...] É a minha religião, Excelência! Não estando muito satisfeito com o Catolicismo romano, fundei essa outra religião para mim e para meus amigos. (SUASSUNA, 2006, p.453).
Como se percebe na citação acima, os próprios padroeiros desta religião, são preferencialmente brasileiros e nordestinos, como é o caso do Padre Cícero ou do Santo Antônio Conselheiro de Canudos, de quem Quaderna toma o “Caminho
Místico”, substituindo o padroeiro português Santo Antônio de Pádua.
Quaderna estava destinado a ser Padre. Seu pai, desde cedo, dava-lhe uma cardina para que o menino desenvolve-se a inteligência e tivesse a virilidade diminuída. Foi levado ao seminário, mas acabou sendo expulso. Foi Maria Safira quem se incumbiu de quebrar o efeito da cardina em Quaderna. É assim que ele explica a formulação de sua seita religiosa:
[...] a criação da minha Igreja Sertaneja foi muito parecida com a da minha Poesia-epopéica! Foi uma questão, ao mesmo tempo, de fé, de sangue, de ciência, de estro e de planeta! Tudo surgiu a partir da minha herança do sangue da Pedra do Reino, de uma crise de Fé, de uma visagem que tive e do cruzamento dos Astros zodiacais com as vicissitudes da minha vida-
errante, extraviada e perdida por tudo quanto foi caminho e descaminho deste nosso Sertão velho da Paraíba do Norte. (SUASSUNA, 2006, p.535)
Por influência da literatura de cordel, justamente depois de ler um folheto de Lino Pedra-Verde, intitulado “O Estudante que se vendeu ao Diabo”, Quaderna passou a andar com um espelho e numa de suas viagens para o convento teve uma visagem que foi fatal para a criação de seu catolicismo sertanejo. Ele viu refletido no espelho um vulto de uma Onça formada de pedras, mato estradas, sol etc. e, de repente, foi envolvido nela, colocado por entre o campo de seus pelos. Tratava-se de uma “visagem de espelho” parecida com a que o diabo proporcionara ao estudante de Salamanca no cordel de Lino. A onça era formada de pedras, mato, estradas, sol etc.; de repente, Quaderna foi envolvido nela, colocado por entre o campo de seus pêlos. A onça era mal definida, leprosa, desdentada, sarnenta e escarninha; ela envolvia e tragava Quaderna, ao passo que também era, aos poucos, tragada por um buraco perigoso, oco e vazio. Foi quando ele ouviu uma voz que tinha força para se contrapor ao buraco cego soprado pelo vento seco e quente da morte:
[...] era a voz daqueles Cantadores que, como os nossos, do Deserto do Sertão, tinham cantado, no Deserto Judaico, chefiados pela voz rouca e cheia de brasas de Isaías e Ezequiel. Mas esses, Profetas parecidos com o nosso Nazário Moura – e a terminar com os dois últimos e mais danados deles, João e Emanuel –, exigiam, em troca da força e do exorcismo que me dessem, que eu fosse sóbrio, casto e humilde. (SUASSUNA, 2006, p. 541)
Todavia, o maior desejo de Quaderna era recuperar a terra, a coroa e o trono de seus ancestrais para se “entregar à gula, ao vinho, às mulheres e aos combates guerreiros”, tornando-se “um homem poderoso, desejado e temido” (SUASSUNA, 2006, p.541). Considerando que não poderia obtê-lo pela força, Quaderna resolveu
fazê-lo mediante a literatura, pois havia percebido que nos folhetos de cordel os heróis só faziam três coisas na vida e era exatamente isso que ele queria:
quando não estavam na mesa, comendo e bebendo vinho, estavam, ou na estrada, brigando, montados a cavalo, armados de espadas e com bandeiras desfraldadas ao vento, ou então na cama, montados em alguma Dama, trepando senhoras e donzelas desassistidas. (SUASSUNA, 2006, p.542).
É nesta conjuntura que Quaderna percebe que o catolicismo romano não lhe seria conveniente, pois lhe proibia o prazer carnal; é a percepção de uma herança católica particular na práxis religiosa de seu ancestral e bisavô que faz com que Quaderna crie, oficialmente, um catolicismo distinto:
Vi que meu bisavô fora Rei, mas fora, também, Profeta de um Catolicismo que Pereira da Costa chamava de “particular”, sertanejo. Vi também que aquele era o Catolicismo que me convinha, uma religião que, a um só tempo, me permitia ser Rei e Profeta, e ter tantas mulheres quantas pudesse; comer as carnes que quisesse em qualquer dia da semana e beber tanto vinho quanto me desse na veneta, incluindo-se entre estes o Vinho sagrado da Pedra do Reino, que nos mostrava o Tesouro antes mesmo que ele fosse desencantado e descoberto. Era, em suma, uma religião que me salvava a alma e, ao mesmo tempo, permitia que eu mantivesse meu bom comer, meu bom beber e meu bom fuder, coisas com as quais afastava a tentação da visagem da Onça e da Cinza. Ao mesmo tempo, eu tomava, por caminhos de acaso, conhecimento dos “escritos” deixados pelo Profeta e santo Peregrino do Sertão, o Regente do Império do Belo Monte de Canudos, Santo Antônio Conselheiro. (SUASSUNA, 2006, p. 543).
Ao juntar diversos elementos distintos, o catolicismo puramente romano, a práxis religiosa de seu bisavô, os escritos proféticos de Antônio Conselheiro, a herança astrológica de seu pai, na qual já fora iniciado, e a influência ideológica discrepante de Samuel e Clemente, Quaderna funde num fogo só esses elementos dispersos e percebe:
a nova Religião fundada por mim, o Catolicismo-sertanejo, estava em harmonia absoluta com o programa da minha vida, influenciada como sempre em tudo, por Samuel e Clemente. Como catolicismo, era uma
religião bastante monárquica, cruzada e ibérica para satisfazer o primeiro; e como Sertaneja, era suficientemente popular e negro-tapuia para ser considerada como simpatia pelo segundo. (SUASSUNA, 2006, p.544).