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materializavam-se sobre conceitos de mobília. Os equipamentos eram integrados em móveis de madeira com parcas aplicações em metal. Só no século XX se introduziram outros materiais, (como o plástico e ligas metálicas) que reduziam em muito o peso e a volumetria em detrimento da aparente robustez dos equipamentos. Este tipo de inovações tecnológicas eram produzidas sob um manto de influências à semelhança do verificado na mobília tradicional e na generalidade a retaguarda dos objetos evidenciava escassas preocupações nos acabamentos porque se destinava ao encosto às paredes, sob o mesmo princípio que rege o mobiliário (conforme se observa no
conjunto de equipamentos que ilustram esta tendência. Posteriormente, quando o objeto se
liberta do móvel e adquire entidade própria, solta-se das paredes tornando-se apresentável em todas as perspetivas, excetuando a base por onde se introduziam os componentes. As adaptações e os melhoramentos são constantes na procura de um produto com maior eficiência, maior capacidade, alto rendimento, inovador e de boa aparência.
Na análise seguinte, seguem-se uma serie de referências e modelos de dispositivos, detentores dos efeitos de convergência, estudados no Capítulo III.
4.4.1. A máquina de escrever
A primeira máquina de escrever que se possa considerar verdadeiramente portátil foi a Hermes Baby (1932-1935) idealizada por Preciozo126, fabricada por Ernest Paillard & Cie. Era
pequena, leve e económica. Foi concebida para caber numa pasta, cumprindo os obje tivos de dimensão e funcionalidade. Pesava 3 700g. Serviu de influência a muitos outros modelos que se seguiram sendo a preferida de jornalistas e repórteres. A evolução do design da máquina de escrever a partir desta época deu-se predominantemente ao nível da miniaturização e da portabilidade.
A Olivetti lançou a primeira máquina eletrónica portátil em 1981-1988, a Praxis 35 e a 45 idealizada por Bellini127 (1935 - ) que apresentava o aspeto e a elegância de um artefacto distinto.
As suas linhas simples e sóbrias refletiam uma era da história em que o design interior era reconhecimento como uma caraterística desejável. Teve início a preocupação em proporcionar conforto e eficiência aos utilizadores através de estudos sobre os fatores ergonómicos, contudo os últimos melhoramentos verificados neste tipo de equipamento revelaram-se insuficientes face ao aparecimento de produtos inovadores que as substituíram.
A Smith-Corona foi uma das empresas representantes da tecnologia de escritório e máquinas de escrever produzidas entre 1886-1995 e que sobreviveu ao seu fabrico até ao ano de 2001. A Smith Corona PWP-40 funcionava como uma máquina de escrever normal, com um mini computador aplicado exclusivamente ao processamento de texto. Armazenava até 42K na memória e utilizava discos especiais com uma capacidade de armazenamento menor do que uma disquete de 3,5 polegadas.
126Giuseppe Prezioso, (1897 - 1962). Engenheiro. 127Mario Bellini (1935- ).
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A máquina de escrever manual foi substituída pela máquina de escrever automática a qual foram acrescentadas diversas outras funções mecânicas para facilitar o complexo processo de escrita.
As máquinas de escrever portáteis como a mecânica e a eletrónica Praxis 20 foram ambas casos de estudo quanto às dimensões e ao peso. De referir que este produto, na generalidade atual se encontra tendencialmente descontinuado inclusive nos países em vias de desenvolvimento. Perdeu a sua hegemonia na década de 80, com o aparecimento do computador. O que prevaleceu deste equipamento foi o teclado, utilizado noutros dispositivos como iremos abordar na página 166.
4.4.2.
O rádio
Os equipamentos difundiram-se e insinuaram-se no domínio público, tiveram de resignar- se a uma subsequente “redução” simbólica e técnica, diminuindo de tamanho e de aspeto até converter-se através de fenómenos como a miniaturização que proporcionam um novo atrativo, não exaltando a forma ou a sua massa, sendo cada vez mais pequeno, facilitando o seu transporte de modo a que o artefacto se converta num objeto de uso pessoal, similarmente ao que acontece com um relógio ou uma caneta.
O rádio receptor de 1938 concebido por Castiglioni & Castiglioni 128 Y Dominioni129
constituiu um das primeiras tentativas de simplificar o aparato, transformando o seu aspeto, tipo móvel de grandes dimensões, para um simples artefacto técnico, idêntico a um telefone de mesa, adquirindo autonomia.
O rádio BUSH MB60 é reconhecido no mercado dos EUA como um dos primeiros rádios portáteis, publicitado nos anos 50. Produzido em plástico e metal, fruía de linhas curvas e uma alça de transporte e pesava 2.300 Kg. Era alimentado a pilhas tendo sido replicado inúmeras vezes por empresas concorrentes.
Comercializado inicialmente em Itália no ano de 1965, a versão minimalista do rádio TS 502 da Brionvega (com transístor alimentado por uma bateria) estava patente no cubo em plástico ABS ou em versão mais Pop, de cores garridas, na autoria de Zanoso130 e Sapper131. Quando
transportado fechava-se a caixa. O lema da empresa era “A técnica na sua forma mais pura”. Composto por duas partes, unidas por dobradiças, quando aberto, este equipamento mos trava o seu interior e toda a tecnologia, que incluía coluna de som, os mostradores e comandos analógicos, aliando o design, a simplicidade formal, a miniaturização e a inovação técnica.
O rádio “perdeu” a sua identidade como objeto único (exclusivamente recetor) e hoje é também despertador, relógio, coluna de som, temporizador, leitor de CD´s, possuindo visor, entre outros. Pode ser portátil, de bolso, de mesa, de carro. É concebido com uma grande variedade de
128Livio Castiglioni (1911-1979) y Piergiacomo Castiglioni, (1913-1968). Arquitetos e irmãos, conceberam vários projetos
de design.
129Luigi Caccia Dominioni (N/D), Designer italiano, trabalhou com os irmãos Castiglioni. 130Marco Zanuso, (1916-2001) ― arquiteto italiano.
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materiais, texturas, peso, dimensões e cores. A grande maioria destes equipamentos opera com bateria e são cada vez mais pequenos e económicos , devido à tecnologia melhorada, com capacidade de acondicionar milhões de transístores num circuito integrado ou chip.
O rádio é um dos dispositivos que exemplificam uma migração com êxito que ocorre do rádio para outros dispositivos, mas não só. “Para lá da “desmaterialização” da música, de um novo modo de difusão (descarga legal), não se trata apenas de utilizar sem reflexão os últimos dispositivos da moda. Mas pelo contrário, o objetivo é executar uma pedagogia que se apoie na evolução da sociedade e das tecnologias” afirmou Melo et al. (2006) [69].
O design do gira-disco Beogram 4000, que surgiu em 1972, pela conceção de Jensen132, foi
inspirado no estilo de Mies Van der Rohe133, de linhas simples e intuitivas. Era possuidor de um
braço de leitura de disco com tecnologia eletrónica (evitando a distorção acústica de produtos anteriores), omitia os botões substituindo-os por cursores lineares, situados no lado superior do equipamento. Este disponha ainda de um segundo braço que incorporava uma célula fotoelétrica de seleção automática (entre os discos de 33 e 45 rotações), que fascinava os consumidores da época.
Da invenção/projeto até à inovação/comercialização, decorre por vezes algum tempo entre estes. É o caso deste objeto bem-sucedido de design, concebido em 1951, mas comercializado apenas em 1959, até 1961 (altura em que foi descontinuado), o rádio - gira discos portátil TP1, de Rams, acumulou a convergência de dispositivos, a miniaturização, a simplicidade e a portabilidade. Provavelmente o gira discos foi dos primeiros dispositivos a integrar o rádio ou vive versa. A ênfase na simplicidade geométrica e despojamento é característico do estilo dos anos 50 em contraste com o design, elementos decorativos e cromados sofisticados do design americano.
No ano de 1956, o empresário Braun134 viu uma oportunidade para desenvolver um
combinado de rádio e gira-discos, um fenómeno da integração denominado Phonosuper SK4. Do projeto inicial, concebido por Eichler135 e Rams136 (arquiteto), Gugelot137 aceitou fazer parte do
mesmo, por possuir conhecimentos sobre a simplicidade da produção.
A inovação deste equipamento consistia em estar “apresentável” em todos os lados visíveis do objeto, pelas linhas angulosas segundo uma estética funcionalista alemã, pois até à data, o rádio permanecia encostado às paredes e possuía uma tampa protetora transparente (em perspex ou seja acrílico).
Um último exemplo de portabilidade, o walkman com auscultadores estéreo, lançado em finais dos anos 70 pela Sony, ultrapassou as expetativas dos utilizadores , transmitindo uma certa
132Jacob Jensen (1926 - ), director do Departamento de Design da Bang & Olefusen entre 1964 e 1985. 133Ludwig Mies van der Rohe, (1886-1969). Arquiteto alemão naturalizado americano.
134Erwin Braun,(1921-1992), empresário alemão filho mais velho de Max Braun, fundador da Braun A G. 135 Fritz Eichler, Designer Industrial alemão, responsável pelo departamento de Design na Braun A G.
136 Dieter Rams, (1932 - ), é um designer industrial alemão intimamente ligado à empresa Braun A G. É um dos mais
influentes designers do século XX.
137 Hans Gugelot (1920-1965), designer industrial e arquiteto alemão. Trabalhou como professor na Escola de Design
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individualização, liberdade e autonomia, sempre que o consumidor usufruía e “transportava” consigo a rádio ou música (em cassetes), sem incomodar os outros. Teve origem nos gravadores da época, sendo transformado em leitor de audio, ao qual se acrescentou um amplificador stereo e uns auscultadores.
Figura 111: Diagrama da integração do rádio em dispositivos e na rede (internet).
A utilização da rádio de sinal AIR138 atingiu a popularidade com o aumento de leitores de
áudio portáteis digitais, que permitem que os utilizadores carreguem e ouçam música à sua escolha e pode também incluir um sintonizador de rádio digital. Os rádios modernos digitais competem com os seus antepassados e baseiam-se no design para conseguir avanços técnicos e funcionais, contudo a noção de rádio encontra-se cada vez mais integrada noutros dispositivos, conforme se observa no diagrama 111.
4.4.3. A televisão
A televisão e o rádio passaram a coexistir num só dispositivo e a interagir um com o outro, numa convergência da função. Alguns modelos de televisão são exemplos desta des locação, da estrutura da televisão para o móvel do rádio como o caso expresso da Predicta, datada de 1958.
Inicialmente, em consequência da escassa oferta de canais a televisão era guarnecida por poucos botões (interfaces) que se encontravam na parte frontal do aparelho. Dispondo de um botão sintonizador de frequência, à semelhança do que se verificava no rádio, assim como um para o volume, (o que não era possível no telefone) e um outro para ligar e desligar.
Mais tarde, quando aparece o aparelho a cores torna-se possível regular a intensidade da cor. Em 1945, a CBS — Columbia Broadcasting System, nos EUA anunciava a televisão a cores. Em 1950, a França já possuía uma emissora com a definição de 819 linhas no ecrã, a Inglaterra de 495, a Rússia de 625 e com 525 linhas os EUA e o Japão.