princípios e garantias dos usuários da rede e delimitação do Estado no setor. A iniciativa, que veio a se tornar conhecida como o Marco Civil da Internet, teve os temas e artigos de seu anteprojeto discutidos a partir de 2009 de maneira inédita, por meio de portais eletrônicos que permitiram a participação direta da sociedade na elaboração, debate e modificação do texto da Lei.
Inicialmente, a formulação do projeto se deu no site Cultura Digital14, de maneira aberta ao público. Essa inovadora proposta de participação dos cidadãos encontrava-se definida no próprio endereço eletrônico, na seção “Sobre”:
O processo de elaboração normativa sobre o tema deve, no entanto, ter o cuidado de se ater ao essencial. A natureza aberta e transnacional da internet, bem como a rápida velocidade de sua evolução tecnológica, podem ser fortemente prejudicados por legislação que tenha caráter restritivo. Qualquer iniciativa de regulamentação da internet deve, portanto, observar princípios como a liberdade de expressão, a privacidade do indivíduo, o respeito aos direitos humanos e a preservação da dinâmica da internet como espaço de colaboração.
A proposta de construção do marco regulatório busca inovar também no processo de sua formulação: o intuito é incentivar, através da própria internet, a participação ativa e direita [sic] dos inúmeros atores sociais envolvidos no tema (usuários, academia, representantes da iniciativa privada, além de parlamentares e de representantes do governo). Para tanto, o processo será conduzido, primordialmente, pela própria internet.
A participação no processo ocorre por meio deste portal, que receberá contribuições e promoverá debates entre as partes interessadas. [...]
Após uma até então inédita rodada de discussões públicas, com grande envolvimento da sociedade civil organizada, o Marco Civil foi apresentado à Câmara dos Deputados em 2011 como o Projeto de Lei nº 2.126/2011, tratando, em seus 25 artigos, temas como responsabilidade civil, guarda de registros de conexão e neutralidade da rede (Soares Ramos, 2013, p. 09).
Durante a tramitação do projeto na Câmara, deu-se início à segunda fase de participação popular na elaboração da lei, no portal e-Democracia. Nas palavras de Faria (2010):
14 http://culturadigital.br/marcocivil. Acesso em 20 outubro 2015.
O portal e-Democracia da Câmara dos Deputados é um espaço virtual interativo, com interface amigável, criado para estimular cidadãos e organizações civis de todo tipo e interesse a contribuírem na formulação de leis federais, assim como para auxiliar os deputados no trabalho de fiscalização e controle. Permite à sociedade brasileira participar do processo legislativo pela internet por meio de: a) compartilhamento de informações, estudos e outros conteúdos, na forma escrita ou audiovisual, que sejam úteis à discussão dos projetos de lei; b) participação do processo deliberativo nos fóruns de discussão; c) organização de redes sociais temáticas para fins legislativos; e d) apresentação de propostas de texto legislativo, construídas de forma colaborativa, a fim de subsidiar o trabalho dos deputados na tomada de decisão.
Ainda de acordo com o autor e o endereço eletrônico do portal15, seus principais objetivos são o aprimoramento da interação entre a sociedade e a Câmara dos Deputados, fortalecimento do papel do Poder Legislativo na formulação de políticas públicas, estímulo da participação social responsável e construtiva, melhoria da compreensão da sociedade brasileira sobre a complexidade do trabalho legislativo e aumento da transparência relativa ao processo legislativo. Nota-se aí a proposta de não apenas engajar membros da sociedade, como também a de produzir debates que efetivamente promovam alterações no projeto de lei.
Em meio a esses debates, a introdução da Neutralidade da Rede no projeto de lei foi alvo de novas polêmicas e questionamentos, principalmente em razão da redação adotada pelo artigo que a incorporava à nova lei:
Art. 9º O responsável pela transmissão, comutação ou roteamento tem o dever de tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicativo, sendo vedada qualquer discriminação ou degradação do tráfego que não decorra de requisitos técnicos necessários à prestação adequada dos serviços, conforme regulamentação.
Parágrafo único. Na provisão de conexão à Internet, onerosa ou gratuita, é vedado monitorar, filtrar, analisar ou fiscalizar o conteúdo dos pacotes de dados, ressalvadas as hipóteses admitidas em lei.
A maneira pouco precisa como foi definida essa regulamentação, bem como qual órgão por ela seria responsável, e mesmo quem deveria ser ouvido, foi um dos motivos apontados para os inúmeros adiamentos da votação do texto em 2012. Narram Del Bianco e Barbosa (2015,
15 http://edemocracia.camara.gov.br/o-que-e. Acesso em 05 novembro 2015.
p. 10) que o relator do projeto, o deputado Alessandro Molon (PT-RJ), apontou como principal resistência ao texto substitutivo, apresentado em julho de 2012, a garantia da Neutralidade da Rede. De acordo com esse texto, o princípio seria regulamentado por decreto, e, nesse processo de regulamentação, seria ouvido o CGI.br. O Poder Executivo, apesar de favorável ao princípio, defendia que tal regulamentação fosse realizada pela Anatel, enquanto a Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil) manifestou-se contrária à neutralidade, afirmando que “não se pode tratar como igual aquilo que é por natureza desigual, já que colocar todos no mesmo patamar pode significar prejuízo de muitos em função do privilégio de alguns”, em raciocínio remanescente do argumento proposto por Yoo em 2005 de que a Internet, em sua constante evolução, passou a apresentar necessidade de tratamento desigual de seus dados, em razão da sempre crescente demanda dos novos serviços desenvolvidos.
O julgamento do projeto foi adiado diversas vezes, até ser finalmente aprovado no plenário do Senado Federal em 22 de abril em 2014 (idem, p. 13). A lei aprovada foi sancionada pela Presidente Dilma Rousseff no dia seguinte, durante a conferência NETMundial (Encontro Multissetorial Global Sobre o Futuro da Governança da Internet), realizada em São Paulo nos dias 23 e 24 de abril de 2014, ocasião no qual estavam presentes indivíduos de alta relevância para o tema, como o próprio Sir Tim Berners-Lee, um dos fundadores do modelo de Internet atual, que declarou que a nova lei seria “um fantástico exemplo de como governos podem ter um papel positivo no avanço de direitos na rede e na preservação da Internet aberta” (MCCARTHY, 2014).
O texto final incluiu a seguinte abordagem quanto à Neutralidade da Rede:
Art. 9º O responsável pela transmissão, comutação ou roteamento tem o dever de tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação.
§ 1º A discriminação ou degradação do tráfego será regulamentada nos termos das atribuições privativas do Presidente da República previstas no inciso IV do art. 84 da Constituição Federal, para a fiel execução desta Lei, ouvidos o Comitê Gestor da Internet e a Agência Nacional de Telecomunicações, e somente poderá decorrer de:
I - requisitos técnicos indispensáveis à prestação adequada dos serviços e aplicações; e II - priorização de serviços de emergência.
§ 2º Na hipótese de discriminação ou degradação do tráfego prevista no § 1o, o responsável mencionado no caput deve:
I - abster-se de causar dano aos usuários, na forma do art. 927 da Lei no 10.406, de 10 de janeiro de 2002 - Código Civil;
II - agir com proporcionalidade, transparência e isonomia;
III - informar previamente de modo transparente, claro e suficientemente descritivo aos seus usuários sobre as práticas de gerenciamento e mitigação de tráfego adotadas, inclusive as relacionadas à segurança da rede; e
IV - oferecer serviços em condições comerciais não discriminatórias e abster-se de praticar condutas anticoncorrenciais.
§ 3º Na provisão de conexão à internet, onerosa ou gratuita, bem como na transmissão, comutação ou roteamento, é vedado bloquear, monitorar, filtrar ou analisar o conteúdo dos pacotes de dados, respeitado o disposto neste artigo.
Conforme apontado por Del Bianco e Barbosa (idem, p. 15), o caput do artigo estabelece o conceito formal de Neutralidade da Rede a ser adotado pela legislação, enquanto os dois primeiros parágrafos centram-se no tratamento das hipóteses e condicionantes excepcionais da discriminação ou degradação do tráfego. Definiu-se que um decreto presidencial regulamentará as exceções ao princípio e deverão ser ouvidos CGI.br e Anatel, detalhando-se as medidas que visam preservar a neutralidade.
Todavia, o sancionamento da nova lei pouco fez no sentido de acalmar o longo e ferrenho debate que rodeia a Neutralidade da Rede. O artigo supracitado trouxe questionamentos que exigiram, por si só, novas argumentações a fim de determinar suas especificidades, bem como foi alvo de críticos contrários à Neutralidade da Rede. Um desses críticos, Sidak (2012, p.
669) afirma que essa busca por tratamento isonômico, ao contrário do que é tão defendido por seus defensores, já seria realizada pela legislação brasileira antitruste e pela própria regulamentação de telecomunicações, e que de fato reduziria a liberdade na Internet por meio de restrições quanto às práticas comerciais que poderiam ser adotadas pelos ISPs.
Não obstante as intervenções e possíveis alterações ao texto legal, é inegável a grande importância não apenas da lei aprovada, mas também do debate que preencheu o processo de criação do Marco Civil, representando o envolvimento da sociedade na deliberação que,
conforme já exposto, era tradicionalmente realizado por acadêmicos e corporações do setor. A nova lei é uma manifestação direta do ambiente de debate analisado no presente texto, com efeitos práticos de longo prazo no contexto legislativo brasileiro, seja mantida ou não sua redação original.