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Marco Paulo Rolla e o apelo material da cerâmica

No documento sandraminaesato (páginas 82-86)

4. A CERÂMICA COMO RESPOSTA

4.5. Marco Paulo Rolla e o apelo material da cerâmica

O mineiro Marco Paulo Rolla é um exemplo claro do artista contemporâneo que dispõe e realmente explora a tecnologia para expressar suas impressões do mundo a sua volta, mas ainda assim recorre à primitiva cerâmica para concretizar parte significativa de seus trabalhos artísticos. Sobre seu envolvimento com as massas cerâmicas, com destaque para maestria demonstrada com a porcelana, Rolla comenta que o objeto cotidiano o despertou para o material, mas as propriedades miméticas e a plasticidade, incluindo a possibilidade da quebra, se destacam como potencial ao modelar (ROLLA, 2016, informação pessoal34):

Pode ser muito relevante o fato de que na instituição em que estava em residência existia um atelier de cerâmica fantástico à disposição e isto, claro, facilita a vontade.

[...] Foi em 1999, no momento estava em residência na Rijksakademie van Beeldende

Kunsten de Amsterdam. Além da [sic] Holanda ser muito estimulante nesta área, foi

fundamental o encontro que tive com uma peça de porcelana do século 18, na vitrine dos objetos do Rijksmuseum. Ali, existe uma peça que é uma cena de um cabeleireiro, montando uma peruca altíssima, são 5 figuras em porcelana, e tudo é tão frágil e delicado que me trouxe a ideia da quebra.

A partir daí surgiu a primeira série em porcelana e uma experiência de “agigantamento em cerâmica” foi fundamental para que o artista compreendesse a sua própria habilidade para modelar. Essa experiência, que revelou o poder de concretizar a forma rapidamente, a grande

maleabilidade e a possibilidade de conseguir resultados muito distintos, foi estimulante e segue provocando novas ideias relacionando a cerâmica para a materialização de novas obras. Pensar a matéria aciona o processo criativo do artista na série Oráculo, de 1999 (Figura 35), a primeira obra em porcelana, inspirada nos bibelôs típicos do século XVIII. Visualmente, a série remete ao trabalho da artista britânica Jessica Harrison, mas é indispensável registrar que o trabalho do brasileiro data de cerca de mais de uma década anterior. Em Oráculo, a ironia das cenas cotidianas e a fragilidade do material foram decodificadas pela interpretação pessoal de Rolla que revelou, em duas estratégias distintas, a “ideia de quebra”. O próprio uso da porcelana, leve e delicada; e a exibição dos esqueletos dos personagens, aludindo à humanidade e, portanto, a mortalidade (ROLLA, 2006):

Em 1999 acontece o primeiro trabalho no qual permito a presença da gravidade como causa da transformação do objeto. Na série Oráculo bibelôs de porcelanas sofrem uma quebra revelando um esqueleto humano em seu interior. A memória da queda, do acidente sugere a lembrança de uma ação, performada pela gravidade, que habita o imaginário do espectador, ao deparar com tal imagem. Ao se notar o esqueleto, se auto-referencia [sic], se lembra de seu corpo e da condição frágil de sua existência diante da realidade que gravita. O objeto quebrado provoca um sentimento de perda; porém, ao refletirmos sobre sua transformação de estado; o trágico vira a vida de uma nova existência. A morte ali é uma simbologia ligada à transmutação da matéria e do corpo que nos liga a este mundo. O esqueleto já não detém essa realidade. É um vestígio do homem, o segredo revelado. A gravidade, enfim, ativa a obra, desmancha o mundo protegido do real flutuante criado nas imagens da pintura e deixa a realidade do desequilíbrio do mundo em primeiro plano.

Fig. 35: Obra da série Oráculo, 1999 Porcelana policromada

Ele vê no material cerâmico a capacidade de chamar o artista para o ato criativo, uma potência que para ele nem sempre é compreendida plenamente em suas possibilidades técnicas. O forte chamado para o que o artista chama de “primal” é o que justifica o interesse em combinar as novas tecnologias com os processos artesanais de produção cerâmica, as experiências com a modelagem livre, a queima, a esmaltação e demais etapas manufaturadas. Nele, esses processos que o aproximam da natureza são o que despertam essas sensações primais e estabelecem a comunicação do artista com a matéria:

Costumo deixar as ideias e os sentimentos sobre o que fazer em meu trabalho aparecerem muito do desejo inconsciente, do apetite. [...] é muito necessário ouvir o material, perceber o que ele vai lhe trazer de fala. Geralmente a ideia vem no material, de um desenvolvimento de seu contato com ele, e não o material que tem que seguir todas as ideias. [...] Sou apaixonado pelo poder de transformação dos materiais.

Uma das obras que marcam claramente este ponto de vista do artista é Picnic, de 2001 (Figura 36), uma instalação de cerca de 4 metros quadrados, composta predominantemente por cerâmica e material orgânico. A forma de explorar os materiais é determinante na obra, que hoje pertence ao acervo permanente do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Nela, alimentos reais e vinho são distribuídos entre as peças modeladas minuciosamente em porcelana em um piquenique “abandonado” pelos personagens imaginários, sugerindo a presença ampliada a partir da ausência.

O amálgama promovido por Rolla torna a obra dinâmica e viva, uma vez que as partes orgânicas atribuem outras referências além das visuais: o apodrecimento leva a alterações de cheiros, texturas e cores. Sob o aspecto conceitual, o artista realiza um diálogo entre um dos temas clássicos mais canônicos de toda a história da arte – a natureza morta – e o formato contemporâneo da instalação. Exposta em novembro de 2015 no Centro Cultural da Caixa Econômica do Rio de Janeiro, a obra compôs a mostra individual do artista “Cotidiano Radical”, que incluiu ainda esculturas, performance, pintura, desenho e vídeo. Segundo a curadora Cristiana Tejo, em Picnic “[...] para além de discutir os suportes e materiais que utiliza, Rolla discute o tempo de duração das coisas, e estampa ‘uma ironia e uma crítica ao fetiche capitalista do consumo’. ”

Fig. 36 (detalhe à direita): instalação Picnic, 2001 Cerâmica e matéria orgânica

Sobre a questão do preconceito sobre a cerâmica, o artista afirma que sua obra é absorvida de forma plena, independentemente do material. Acredita que isso se deve ao momento atual do olhar sobre as artes plásticas, quando os materiais são usados mais livremente, de acordo com suas especificidades e origens, e por possuírem, em si, carga própria em suas imagens. De maneira que a matéria atua em favor da obra e que isso, portanto, não abre margem para questionamentos quanto a hierarquias de qualquer natureza:

Acho que o preconceito está ligado ao uso didático e terapêutico do material. Mas quando se vê um trabalho verdadeiramente potente em cerâmica, não acredito em preconceito, e se existe, vamos rir!!! Pois é pobre demais ainda colocar trabalhos de arte em escala de valor por sua materialidade, absurdo.

No documento sandraminaesato (páginas 82-86)