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2.1. Desenvolvimento social e emocional na primeira infância

2.1.3. Marcos do desenvolvimento social e emocional

Por marco de desenvolvimento entende-se a idade média em que a maioria das crianças deve alcançar um determinado estágio de desenvolvimento. A idade média encontra-se no meio do intervalo de idades correspondente a cada estágio.

É importante referir que todas as crianças apresentam ritmos de desenvolvimento diferentes, os quais podem variar, sendo que, por vezes, poderão alcançar alguns aspetos do desenvolvimento mais cedo e outras vezes mais tarde. Porém, o que importa é alcançá- lo (Bulman & Savory, 2006).

Em todo o mundo, as crianças crescem segundo uma mesma sequência. Algumas parecem “voar” muito rapidamente em direção a certos "marcos" do desenvolvimento enquanto outras são mais lentas (Silva, 2011).

O desenvolvimento social e emocional ocorrem de forma bastante rápida nos primeiros cinco anos de vida (Cole, Luby, & Sullivan, 2008). Nas primeiras semanas emergem capacidades sociais e emocionais que se tornam evidentes.

Smith et al. (2001) ao rever os trabalhos de Darwin, menciona que o desenvolvimento muito precoce das reações emocionais nas crianças parece sugerir que alguns dos mecanismos de expressão das emoções são "inatas" ou fortemente canalizados ao longo do processo de desenvolvimento.

Em seguida apresentam-se os marcos do desenvolvimento social e emocional que definem a aquisição das várias competências emocionais e sociais durante os primeiros três anos de vida.

2.1.3.1. Dos 0 aos 12 Meses

Existe um conjunto de emoções como a raiva, a tristeza, o medo, o prazer, o interesse, a surpresa, e estratégias emocionais para regular emoções, tais como a capacidade de auto - acalmar-se, que emergem antes do primeiro ano de vida (Izard, 1991; Lewis & Michalson, 1983; Rothbart Ziai & O'Boyle, 1992; Sroufe, 1996, citado por Cole et al., 2008).

Durante os primeiros meses de vida as crianças passam por um processo não só de identificação e diferenciação dos estímulos sociais, mas também de aprendizagem das consequências ou efeitos dos comportamentos sociais (Smith et al., 2001).

Entre o nascimento e os seis meses, os recém - nascidos aprendem a distinguir o som da voz materna do som de uma voz estranha poucos dias após o nascimento (Smith et al., 2001). Demonstram interesse por determinados objetos em particular, como por exemplo um cobertor. Os bebés começam a explorar o seu próprio corpo, e observam o corpo dos outros (batem palmas, exploram os dedos das mãos e dos pés, tocam as partes corporais

dos outros, como o cabelo, as orelhas, entre outros). Quando expostos a sons altos e súbitos expressam angústia, manifestada por choro. Expressam a mesma emoção quando estão com fome ou cansados (McDevitt & Ormrod, 2010).

Exprimem as suas necessidades através de gritos e de choros, manifestam emoções primárias, tal como dor, descontentamento e prazer. Podem manifestar fúria, surpresa e tristeza. Surgem os primeiros sorrisos quando veem uma pessoa, pelo que o sorriso social surge por volta das 6 semanas (Ferland, 2006). Durante o primeiro mês de vida, o sorriso pode começar a aparecer em situações muito diferentes. O bebé aprende rapidamente que o sorriso é uma forma de chamar para junto de si as pessoas que lhe são significativas (Brazeltton & Sparrow, 2004, citado por Silva, 2011).

Por volta dos dois meses, o bebé aprende igualmente a preferir representações tradicionais de rostos a gravuras que, embora sejam semelhantes às primeiras, apresentam-se ligeiramente deformadas ou desordenadas (Smith et al., 2001).

O bebé reage à presença e às deslocações das pessoas que estão à sua volta, segue-as com o olhar, mexe as pernas e os braços, chilreia. Não se sente particularmente atraído pelas outras crianças (Ferland, 2006).

Entre os três e os seis meses, o bebé demonstra contentamento, agitando os braços e as pernas, gosta de ser olhado e de ter por perto pessoas consideradas especiais (Granholm & Olszewski, 2003). A partir dos quatro meses, começa a existir uma exigência cada vez maior de convívio social, gosta que as pessoas lhe prestem atenção, falem com ele e cantem para ele (Gesell, 2000). Ao perfazerem cerca de seis meses, as crianças já são claramente capazes de distinguir os adultos que são seus conhecidos dos adultos que lhe são estranhos ao direcionarem, por exemplo, a sua atenção de modo diferenciado ou ao deixarem-se confortar ou acariciar segundo graus de tactilidade diferentes (Smith et al., 2001).

Durante a segunda metade do primeiro ano de vida, a criança experiencia novas emoções, tais como a ansiedade ao estanho e a ansiedade de separação (Frost et al., 2012).

Dos seis aos doze meses, a criança descodifica as emoções dos outros pela expressão do

seu rosto, começando a ligar-se a uma pessoa em particular. Por vezes apresenta medo dos estranhos e reage mal quando separada dos pais, e particularmente da mãe. Estende os braços para que lhe peguem ao colo (Ferland, 2006).

Especificamente, entre os seis e os nove meses, a criança começa a interessar-se pelas outras crianças, tornando-se mais interessada pelas interações sociais. Procura atenção e

utiliza objetos para obtê-la (Bulman & Savory, 2006). Não manifesta medo perante uma criança desconhecida (Ferland, 2006). A instabilidade da sua estrutura emocional exprime-se, nesta altura, pela íntima interação do choro e do riso (Gesell, 2000).

A criança responde ao seu nome, e inicia pequenos jogos.

Ainda neste período, entre os nove e os doze meses, a criança encontra-se muito interessada e atenta a tudo ao seu redor. As atividades sociais apreciadas são o jogo do

cu-cu, brincar com os lábios emitindo sons, ser colocado em brinquedos de baloice, entre

outras (Gesell, 2000).

É ainda capaz de demonstrar que está feliz ou triste, demonstrando sentimentos através do sorriso, choro e apontando. Revela um relacionamento especial com os pais e cuidadores e demonstra curiosidade sobre os brinquedos. Aprecia livros e começa a imitar os outros. Encontra-se confiante acerca da satisfação das suas necessidades (Granholm & Olszewski, 2003).

2.1.3.2. Dos 12 aos 24 Meses

Neste período surgem novas aquisições, marcadas pelos seguintes aspetos: quando a criança grita ou se zanga, podemos distraí-la e chamar a sua atenção para outra coisa. Reconhece a sua imagem ao espelho, apresenta a necessidade de limites claros, desenvolve a auto-confiança e tolera melhor a sua separação da mãe (Ferland, 2006).

Ao nível mais social, interessa-se pelas outras crianças, e é sensível à sua dor. Gosta de estar lado a lado com outras crianças (jogo paralelo). Aprende certos comportamentos sociais, tais como dizer bom dia e cumprimentar com a mão. Pode manifestar uma preferência por uma das crianças com quem convive (Ferland, 2006).

Nesta fase, surge de um modo geral a auto-consciência de emoções simples como o medo, a raiva e o prazer. Estes são estados afetivos que representam uma consciência de padrões sociais (McDevitt & Ormrod, 2010). A auto-consciência das emoções também inclui sentimentos de culpa, vergonha e orgulho.

A consciência dos outros intimamente ligada à de si próprio parece igualmente constituir um pré-requisito para as emoções "secundárias", tais como o orgulho, a culpa ou a vergonha, as quais se desenvolvem depois das emoções "primárias", como a satisfação, o medo, o aborrecimento ou a fúria e a surpresa (Smith et al., 2001).

Entre os doze e os dezoito meses, emerge uma maior assertividade, emocionalidade mais estável e surgem também as primeiras birras. A criança demonstra infelicidade aquando da mudança de rotinas e expressa sentimento de raiva quando lhe é dito "não". Começa a ter consciência de Si e do outro, mas demonstra atitudes de egocentrismo. Jogam sozinhos e começam a desenvolver a noção de permanência do objeto (Bulman & Savory, 2006). Está efetivamente a ganhar uma consciência tão apurada das coisas que se torna necessário reprimir-lhe as suas atividades (Gesell, 2000).

A criança explora o mundo com entusiasmo, revela-se segura e confidente (Granholm & Olszewski, 2003).

Apresentam timidez ao estranho, começam a aparecer atitudes de fúria e o sentido de pertença (escasso sentido de partilha, e forte sentido do que é "meu").

Entre os dezoito e os vinte e quatro meses, a criança ri alto, demonstra amor para com os outros e começa a brincar com outras crianças. Revela atitude de entusiamo e começa a dizer "não". Está presente a curiosidade e gosta de explorar as pessoas e os objetos. Interessa-se por livros, histórias e canções (Granholm & Olszewski, 2003).

2.1.3.3. Dos 24 aos 36 Meses

Durante este marco, ao nível do desenvolvimento emocional estão presentes, por vezes, acessos de fúria intensos e dificuldade em esperar para obter o que pretende. A criança, às vezes opõe-se aos pedidos dos pais e deseja fazer certas coisas por si mesma. Pode exprimir orgulho, embaraço e vergonha. Sabe que é um menino ou uma menina e experimenta certos medos, como por exemplo, medo do escuro ou do Pai Natal. Aprende a exprimir verbalmente o seu desacordo e a sua frustração. Ao nível social, a criança descobre a noção da propriedade (é meu) apresentando uma tendência para ser possessiva. Tem dificuldade em controlar as suas emoções negativas (Ferland, 2006).

Por volta dos dois anos de idade, as crianças começam a compreender expressões de felicidade, tristeza e raiva, e posteriormente outras emoções; como se relacionam com os contextos situacionais e como estes influenciam os seus comportamentos (Cole et al., 2008).

Dos vinte quatro aos trinta meses, a criança utiliza palavras para comunicar e brinca com os outros. Pode demonstrar-se tímida em ambientes que não lhe são familiares. Brinca ao

“faz-de-conta”, aprecia uma variedade de livros e jogos simples (Granholm & Olszewski, 2003).

Demonstram-se relutantes na partilha de brinquedos. Começam a envolver-se em jogos com os pares, mas o egocentrismo permanece. Tornam-se estáveis do ponto de vista emocional, mas com alterações de humor por vezes presentes. Aprendem a separar-se por curtos períodos de tempo dos cuidadores e conhecem a sua própria identidade (Granholm & Olszewski, 2003). Podem demonstrar uma dependência considerável em relação à mãe e exigir toda a sua atenção quando estejam presentes outras pessoas. A criança patenteia todo o seu afeto pelos pais ou pelas pessoas que cuidam dela (Gesell, 2000).

Dos trinta aos trinta e seis meses, são capazes de brincar de forma independente e separam-se com facilidade dos cuidadores em locais que lhes sejam familiar. Começam a partilhar com os outros, demonstrando sentimentos para com os mesmos. Nesta fase, são expressos muitos sentimentos de tristeza, felicidade, susto e cólera (Granholm & Olszewski, 2003).

A criança apresenta uma ótima consciência social, joga a dois ou a três, partilhando ideias. Também nesta fase já tem amigos mais próximos, aumenta a sua independência, mas ainda necessita do apoio dos adultos. Demonstra medo de perder os cuidadores, e apresenta um forte sentido de identidade. Apresenta-se menos ansiosa face à separação (Bulman & Savory, 2006).

Entre os 2 e os 3 anos de idade, as crianças começam a falar sobre as emoções, que as próprias e os outros experienciam, e compreendem que estas se encontram ligadas aos desejos pessoais. Aprendem a designar palavras para as emoções (feliz, triste, zangado, entre outras) com expressões faciais particulares (McDevitt & Ormrod, 2010).

2.1.4. Competência social e emocional: Uma visão sobre a sua importância no