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Marcos e etapas do desenvolvimento da linguagem

No documento RELATÓRIO DE ESTÁGIO DE MESTRADO (páginas 60-64)

Parte I – Enquadramento Teórico e Metodológico

Capítulo 3 – Consciencialização e desenvolvimento da linguagem e comunicação

3.1. Marcos e etapas do desenvolvimento da linguagem

A aquisição e o desenvolvimento da linguagem acarretam muito mais do que aprender palavras novas, e de ter a capacidade de produzir todos os sons da língua ou de compreender e de fazer uso das regras gramaticais. Apresenta-se como um método complexo e deslumbrante no qual a criança, através da interação com os outros, (re)constrói, naturalmente e intuitivamente, o sistema linguístico da comunidade onde se encontra inserida, ou seja, adapta-se à sua língua materna. Com isto, a criança usa esta língua para comunicar e, em simultâneo, aprender acerca do mundo (Sim-Sim, Silva & Nunes, 2008).

Na perspetiva de Vygotsky citado por Yudina (2009), a criança quando nasce insere-se numa sociedade cultural, onde se desenvolve pela interiorização de signos e símbolos culturais, adquirindo caraterísticas típicas dessa cultura.

O desenvolvimento da linguagem é influenciado pelo grupo social em que estamos integrados, partilhando um discurso particular comum a todos os elementos que o compõem. A criança adapta-se ao discurso da sua família, sendo que com a sua evolução e alargamento dos grupos sociais, nomeadamente a entrada na escola e a exposição de outros contextos, beneficia do enriquecimento linguístico (Sim-Sim, 1998).

Na ótica de Sim-Sim, Silva e Nunes (2008), o desenvolvimento da linguagem ocorre de forma integral. Neste sentido, o educador deve conhecer os vários domínios linguísticos que são objeto de aquisição, ensinar regras da língua da comunidade a que a criança pertence, e desta forma, contribuir para a construção do seu próprio conhecimento.

O autor retromencionado acrescenta que estas regras correspondem a domínios específicos, nomeadamente a aquisição de regras fonológicas, de regras sintáticas, morfológicas e semânticas e de regras pragmáticas da língua. No exemplo de uma expressão de uma criança de 36 meses, “O Luís já fazeu o desenho”, o educador deve observar que a verbalização de “fazeu” é um indicador de desenvolvimento, pois apesar da criança nunca ter ouvido desta forma exata, já teve inúmeras vezes contacto com formas idênticas, como: beber/bebeu, comer/comeu, ler/leu. Neste sentido, com a frequência de regularidade, a criança retirou uma regra e, ao ter de usar no passado (pretérito perfeito) do verbo fazer, empregou a regra que conhecia e proferiu “fazeu”. O uso de uma regra em presença de uma exceção, designa-se sobregeneralização, sendo muito comum no desenvolvimento da linguagem.

Consoante Vygotsky referido por Oers (2009), os educadores devem ter em consideração o nível de desenvolvimento real que as crianças já possuem, e quando auxiliadas apropriadamente podem superar expetativas. Este auxílio origina uma área potencial de processos de aprendizagem, “a zona de desenvolvimento próximo”. Esta zona, definida por Yudina (2009, p.5), é:

A distância entre o nível real de desenvolvimento da criança, avaliado pela dificuldade do problema que a criança pode resolver sem a ajuda do adulto, e o seu nível de desenvolvimento potencial, avaliado pela dificuldade do problema que uma criança consegue resolver com a ajuda de um colega mais competente ou de um adulto.

Segundo Sim-Sim, Silva e Nunes (2008), a forma mais eficiente de perceber o desenvolvimento da linguagem de todas as crianças é ouvir e observar o que a criança diz, e como o diz. Do mesmo modo, Opperman e Cassandra (2001) acrescentam que o desenvolvimento da linguagem depende da aptidão da criança ouvir e imitar os sons que ouve.

Desde a primeira manifestação sonora da criança (choro) até a junção de todos os sons da língua, sucede um processo de aquisição, discriminação e articulação de todos os sons da língua, a qual designamos de desenvolvimento fonológico (Sim-Sim, Silva & Nunes, 2008).

Na opinião de Papalia, Olds e Feldman (2007), os bebés produzem sons antes de dizerem as suas primeiras palavras. Estas manifestações pré-linguísticas podem ser “o choro, arrulhar, tagarelar, e imitação acidental ou deliberada de sons, sem compreensão do seu significado” (p.215). Como descrito por Sim-Sim, Silva e Nunes (2008), o choro

é a produção sonora de desconforto, enquanto que o palreiro ou o arrulhar são sons vocálicos e consonânticos que expressam o bem-estar e normalmente juntam-se com um sorriso ou após gargalhadas. Posteriormente, surge a lalação ou o tagarelar que vai até os dez meses, e é caraterizado pela repetição de sílabas, como por exemplo “mamamama” ou “babababa”, possuindo uma estrutura CVCV (consoante/vogal/consoante/vogal). Após esta etapa, a criança diminui a reduplicação silábica para composições de uma ou duas sílabas (CV; CVCV), do tipo, “pa” e “papa”, passando a ter consciência na atribuição do significado.

O surgimento das primeiras palavras por volta dos dez e os catorze meses, consoante as regras fonológicas da língua da criança, dá início ao período linguístico. Este período acontece quando a expressão verbal da criança veicula um significado (Papalia, Olds & Feldman, 2007). No decorrer dos anos seguintes, de acordo com Sim-Sim, Silva e Nunes (2008) a criança forma cada vez mais sons e articula com maior precisão os padrões fónicos da sua língua. Aos dois anos, as produções fonológicas são mediamente percetíveis pelo adulto. Opperman e Cassandra (2001) adicionam que por volta dos três anos o discurso é compreensível, podendo existir confusão na gramática. Entre os quatro e os cinco anos, o discurso é inteligível e fluente, com utilização correta da gramática. Aos seis anos a criança alcança o nível e a qualidade de produção fónica de um adulto.

A par do desenvolvimento fonológico da criança, existem outros períodos cruciais no processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem, nomeadamente o desenvolvimento semântico, o sintático e o pragmático. O desenvolvimento semântico beneficia o conhecimento e o uso do significado dos enunciados linguísticos (palavras, frases, discurso). O desenvolvimento sintático corresponde ao domínio das regras de organização das palavras em frases. O desenvolvimento pragmático diz respeito à aquisição das regras de uso da língua. (Sim-Sim, Silva & Nunes,2008).

Sim-Sim (1998) carateriza o desenvolvimento da linguagem pelo conhecimento adequado e eficiente da musicalidade da fala.

Em qualquer língua, de acordo com a autora supramencionada, a criança segue o mesmo caminho de desenvolvimento, sendo que este é marcado por grandes etapas, como podemos observar seguidamente (tabela 2):

Tabela 2 – Marcos e etapas do desenvolvimento da linguagem Idade Desenvolvimento fonológico Desenvolvimento semântico/sintáctico Desenvolvimento pragmático 0 – 6 meses

– Reação à voz humana – Reconhecimento da voz materna – Reação ao próprio nome – Reações diferentes a entoações de carinho ou de zanga – Vocalizações (palreio, lalação) com entoação

--- – Tomada de vez em processos de vocalização 12 meses – Produção de alguns Fonemas – Compreensão de frases simples, particularmente instruções – Produção de palavras isoladas (holofrase) Produções vocálicas para: – fazer pedidos – dar ordens – perguntar – negar – exclamar 18 meses – Produção de muitos fonemas – Utilização de variações Entoacionais – Cumprimento de ordens simples – Compreensão de algumas dezenas de palavras – Produção de discurso telegráfico (2/3 palavras por frase) Uso de palavras e embriões de frase para: – fazer pedidos – dar ordens – perguntar – negar – exclamar 2 –3 anos – Produção de muitos fonemas – Melhoria no controlo do volume, ritmo e intensidade da voz

– Reconhecimento de todos os sons da língua materna

– Compreensão de centenas

de palavras

– Grande expansão lexical – Produção de frases – Utilização de pronomes – Utilização de flexões nominais e verbais – Respeito pelas regras básicas de concordância

– Uso de frases para realizar

muitos atos de fala (pedidos, ordens, perguntas, chantagens, mentiras)

4 – 5 anos – Completo domínio articulatório – Conhecimento passivo de cerca de 25 000 palavras – Vocabulário ativo de cerca de 2 500 palavras – Compreensão e produção de muitos tipos de frases simples e complexas – Melhoria na eficácia das interações conversacionais (formas de delicadeza e de subtileza) Até a puberdade ---

– Domínio das estruturas gramaticais complexas – Enriquecimento lexical

– Domínio das regras pragmáticas do(s) ambiente(s) onde convive

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