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6 PLANO NACIONAL DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL

6.2 Redesenhos do PLANFOR e Desenhos do PNQ

6.2.1 Marcos Institucionais e Diretrizes do PNQ

A partir do balanço crítico do PLANFOR surgem algumas reformulações acerca das suas práticas, que dão origem ao PNQ. Conforme proposto no PPA, é sinalizada uma postura de planejamento do Estado, ressaltando a qualificação profissional como parte do desenvolvimento do País. Do ponto de vista epistemológico, o PNQ salienta a necessidade do reconhecimento e valorização das experiências e dos conhecimentos dos trabalhadores, validando o papel do trabalhador na construção do conhecimento.

A qualificação é definida como social e profissional,7 entendida como direito à

universalização progressiva a qualificação e ao trabalho decente, associada à educação fundamental básica para elevação da escolaridade.

A Partir dessas definições, a Resolução nº 333 do CODEFAT em seu artigo 21, prevê as seguintes ações para a transição entre o PLANFOR e o PNQ: manutenção do caráter anual para

7 Aquela que permite a inserção e atuação cidadã no mundo do trabalho (formação integral, redução da pobreza, diminuição da vulnerabilidade das populações, combate a discriminação, elevação da produtividade, da escolaridade e do potencial de obter emprego e trabalho decente e manter-se no mercado de trabalho). Ver Resolução nº 333 Art.2º do CODEFAT.

os convênios com os estados e os municípios; carga horária média de 160 horas, posteriormente ampliada para 200 horas; encaminhamento mínimo de 50% à educação de jovens e adultos e de 75% de encaminhamentos ao mercado de trabalho; destinação mínima de 70% dos recursos aos estados, até 10% aos arranjos institucionais e até 20% aos Projetos Especiais de Qualificação (ProEsQs) para o exercício 2003, ano da transição entre os programas.

Segundo a mesma Resolução, o PNQ deve contribuir para a formação integral dos alunos (intelectual, técnica, cultural e cidadã); aumento da possibilidade de obtenção de emprego e trabalho decente; elevação da escolaridade, pela via da Educação de Jovens e Adultos; redução da vulnerabilidade da população; elevação da produtividade e articulação do Sistema Nacional de Formação Profissional ao Sistema Público de Emprego e ao Sistema Nacional de Educação (BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador, 2003). “[...] Deve ainda “promover gradativamente a universalização do direito aos trabalhadores à qualificação”, porém não estabelece prazos e metas, não concedendo assim concretude à gradualidade do processo e tornando-se vulnerável as pressões políticas” (BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador, 2003, p. 19).

No que se refere à avaliação, Araújo e Lima (2004) chamam a atenção para o fato de que as avaliações do Plano não podem ser generalistas, pois há cursos com retorno positivo para os objetivos estabelecidos (geração de renda e ingresso no mercado de trabalho) e outros não. Salientam que as avaliações deveriam ser mais específicas, capturando não só os efeitos positivos, mas também as diferenças de resultados das unidades responsáveis pelos cursos, o que permitiria estimular determinados tipos de qualificação, atendendo a realidade de cada estado e município, bem como a qualidade dos cursos ofertados pelas unidades executoras. A atenção para com a heterogeneidade do público alvo e para o fato de que parcela significativa desse público tem como trajetória o auto-emprego, seria outro elemento importante.

A criação do Sistema Integrado de Planejamento, Monitoramento e Avaliação (SPMA), no âmbito do PNQ, é analisada por Araújo e Lima (2004) como tendo poucas consequências concretas na medida em que tem a avaliação técno-gerencial centralizada no MTE, limitando-se, como anteriormente a detectar as dificuldades já ocorridas, não contemplando prevenções aos comprometimentos de planejamento e de execução. Ao tratar dessa questão, Oliveira (2004), visualiza no SPMA uma oportunidade de construção de indicadores sociais e pedagógicos como

contribuição para a concretização dos objetivos. Destaca ainda que o mesmo está em construção e deve buscar atender à articulação entre os objetivos do PNQ e a sua efetiva execução pelos diversos níveis responsáveis pela qualificação social e profissional.

No que diz respeito à carga horária dos cursos o artigo 3º, em seu § 10º, da Resolução nº 333 do CODEFAT, prevê uma média de 200 horas para o “conjunto das ações formativas”.

Do ponto de vista da qualidade pedagógica está definido que a construção curricular envolva as dimensões técnico-científicas, sociopolítica, metodológica e ético-cultural, articulando a valorização dos saberes, o aumento da escolaridade, a disseminação de informações sobre a demanda e oferta de qualificação profissional com vistas à orientação profissional, além de conteúdos que abranjam conhecimentos sobre direitos humanos, sociais e trabalhistas, saúde e segurança no trabalho e educação ambiental, informação e orientação profissional e gestão do trabalho. Tais conteúdos não devem ultrapassar 20% da carga horária total dos cursos ou 40 horas. A compreensão e interpretação de textos, raciocínio lógico-matemático, dentre outros, são conteúdos obrigatórios a todos os cursos. Por fim, a integração com as Políticas Públicas de Emprego deve se dar visando à construção de um Sistema Público de Trabalho, Emprego e Renda e às políticas de desenvolvimento nacional, regional/estadual e local; à elevação da escolaridade da população economicamente ativa (PEA) e o fortalecimento institucional dos atores sociais envolvidos em uma Política Pública de Trabalho e Renda, como também já previa o PLANFOR (BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador, 2003).

A população definida como prioritária, no Art. 8º da mesma Resolução, abrange trabalhadores desempregados ou beneficiários das demais Políticas Públicas de Trabalho e Renda, particularmente: ações de primeiro emprego, seguro desemprego, intermediação de mão de obra; microcrédito e ações de economia solidária; trabalhadores autônomos, cooperados, por conta própria, domésticos, egressos do sistema penal, familiares de egressos do trabalho infantil, jovens submetidos a medidas socioeducativas, libertos do trabalho escravo, agricultores familiares, assentados e aqueles que trabalham em empresas afetadas por modernização tecnológica, privatização, redefinição econômica e outras formas de reestruturação produtiva. Inclui, ainda, os trabalhadores envolvidos em arranjos produtivos locais, de setores exportadores e setores considerados estratégicos da economia, os trabalhadores do Sistema Único de Saúde, educação, meio ambiente, segurança e administração pública, bem como gestores em políticas

públicas e representantes de fóruns, comissões e conselhos. Tal amplitude é preocupante por possibilitar o desvio do foco das ações.

A abrangência na definição da população prioritária do PNQ nos faz refletir que a inclusão de servidores públicos da Educação, do Sistema Único de Saúde (SUS), do Meio Ambiente e de Segurança e Administração Pública na categoria de população prioritária do PNQ causa estranheza.

As preferências, para qualquer dos segmentos recaem sobre as pessoas mais vulneráveis econômica e socialmente, principalmente os de baixa renda e escolaridade, e populações mais sujeitas às diversas formas de discriminação social [...] desempregados de longa duração, afrodescendentes, índio descendentes, mulheres, jovens, portadores de deficiência (BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador, 2003, Art.8º, §1º).

Há ainda a definição de uma idade mínima (16 anos) para participar nos cursos e de uma idade “crítica” definida como acima dos 40 anos, para acesso ao PlanTeQ. Tal delimitação indica que a idade desempenha um papel significativo na estrutura social.

O rearranjo da esfera pública com redução da presença do Estado e a paralela ampliação da função de auxílios, do controle pela sociedade civil, além da emergência de diversos modelos de organização não governamental, criaram a interposição destas entre o Estado e o mercado, sinalizando para a possibilidade de domínio de outros valores e ações.

Ao definir os objetivos do PNQ, o MTE reconhece o desemprego e o subemprego como elementos da realidade e suas relações com a pobreza e a desigualdade social, que busca reduzir, sem esquecer-se de evidenciar, porém, que a qualidade, a produtividade e a competitividade, são elementos fundamentais e norteadores de suas ações.

A estrutura de gestão/execução envolve as instâncias federal, estadual mesoregional (municípios localizados em dois ou mais estados) e municipal. No que concerne ao nível federal esse tem papel relevante e concentrador, cabendo ao MTE e à Secretaria de Políticas Públicas de Emprego por meio do Departamento de Qualificação, gerir, co-elaborar, co-identificar demandas, co-supervisionar, co-avaliar e co-financiar o PNQ. As Delegacias Regionais do Trabalho devem supervisionar e fiscalizar os Planos Territoriais de Qualificação (PlanTeQs) e comporem, os conselhos estaduais e municipais de trabalho e emprego. Aos demais Ministérios estão afetos o papel de coautores dos “termos de referência das populações prioritárias de suas áreas de atuação,

acompanhamento, avaliação e co-financiamento das ações” (BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador, 2003, p. 41).

Conforme o autor:

Aos governos estaduais (Secretarias de Trabalho) e municipais (Secretarias Municipais ou arranjos jurídicos envolvendo vários municípios) o papel de gestores locais e co- financiadores dos respectivos PlanTeQs sob a aprovação e controle das Comissões, Conselhos Estaduais e Municipais de trabalho e Emprego (BRASIL. Ministério do Trabalho e Emprego. Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Trabalhador, 2003, p. 41).

É pertinente à sociedade civil (Centrais Sindicais, Confederações Patronais, sistema “S” e ONGs) executar as ações previstas no PNQ, mediante convênio.

O envolvimento de diversos modelos de organização está incluído na interface entre o Estado e o mercado, caracterizando um novo desenho e novas inter-relações, através da manutenção das noções de parceria e descentralização.

Como processo dinâmico, esse sistema possui espaços para a consecução do direito à qualificação profissional e ao trabalho como valor a ser sedimentado na sociedade.

O trabalho é uma via significativa de inserção das pessoas na sociedade, condição, em sentido amplo, para a sobrevivência, dando inclusive significado a própria existência, como diz Castel (1998, p. 24), “[...] um suporte privilegiado de inscrição na estrutura social, proporcionando uma inserção relacional sólida caracterizada como uma área de integração”. Inversamente, a ausência de participação em atividade produtiva e o isolamento relacional, potencializam seus efeitos negativos para produzir a obtenção de um lugar social inclusivo”.

Considerando que ser cidadão não é apenas ter direitos e deveres reconhecidos pelo Estado, mas também se apropriar e se relacionar com as práticas sociais e culturais que dão sentido de pertencimento, àqueles que partilham numa sociedade suas instituições, legislações e formas de satisfazer as necessidades, cabe indagar: como transformar a condição da população definida como prioritária pelo PNQ em produtores de sua própria existência? As respostas perecem estar no registro do trabalho.

7 UM CAMINHO METODOLÓGICO: um longo e difícil caminho