CAPÍTULO 2 – MEMÓRIA, JUSTIÇA E DEMOCRACIA
2.3 Margens, autorrepresentação e luta por permanência
É nessa favela também que está ambientado Becos da memória, afirmação que se fundamenta em diferentes marcas autobiográficas identificáveis na obra. Ao afirmar, por exemplo, que o romance homenageia os “que habitam os becos de minha memória.
Homenagem póstuma às lavadeiras que madrugavam os varais com roupas ao sol. [...]
Homens, mulheres, crianças que se amontoaram dentro de mim, como amontoados eram os barracos de minha favela” (EVARISTO, 2013, p. 30), Conceição Evaristo demonstra essas marcas, além de apontar o caráter memorialístico30 da obra, que se realiza na transformação do real em ficcional.
Essa contextualização interessa aqui por diferentes razões. Uma delas é delinear esse paralelo entre as periferias de Belo Horizonte e Brasília, destino de populações que, pelas exigências do modo de produção capitalista neoliberal, foram submetidas a processos de remoção compulsória. Uma outra razão é pensar como artistas, pela maneira como apreendem o mundo e esses espaços periféricos, que são simultaneamente físicos e afetivos, transformam as experiências, as histórias ouvidas, os afetos, as subjetividades e as memórias em produções artísticas e epistemologias que apontam as consequências do colonialismo, da escravidão e do racismo na configuração das cidades. Becos da memória exemplifica essas produções, como se pode perceber a seguir.
Duas ideias, duas realidades, imagens coladas machucavam-lhe o peito. Senzala-favela. Nesta época, ela iniciava seus estudos de ginásio. Lera e aprendera também o que era casa-grande. Sentiu vontade de falar à professora. Queria citar como exemplo de casa-grande, o bairro nobre vizinho e como senzala, a favela onde morava. Ia abrir a boca, olhou a turma, e a professora. Procurou mais alguém que pudesse sustentar a ideia, viu a única colega negra que tinha na classe. Olhou a menina, porém ela escutava a lição tão alheia como se o tema escravidão nada tivesse a ver com ela. Sentiu certo mal-estar. Numa turma de quarenta e cinco alunos, duas alunas negras, e, mesmo assim, tão distantes uma da outra. Fechou a boca novamente, mas o pensamento continuava. Senzala-favela, senzala-favela!
(EVARISTO, 2009, p. 104).
Nele, a personagem-narradora de Becos da memória, Maria-Nova, ao abordar a relação entre identidade, visibilidade/invisibilidade, sujeitos e espaço, permite ao leitor dirigir o olhar a uma vivência periférica reveladora de como a população negra, alijada dos processos econômicos, educacionais e sociais, foi obrigada a ocupar favelas e de como isso constitui uma herança colonial na experiência urbana, naturalizada por séculos de exclusão.
Por isso interessa aqui entender o mecanismo que torna a autorrepresentação uma ferramenta
30 Um dado importante que demonstra essas duas direções do romance é o fato de que, tanto na edição de Becos da memória publicada pela Editora Pallas (2017) quanto na versão da Editora Mulheres (2013), a autora fez questão de que fotos de família fizessem parte do projeto gráfico da obra.
para a produção do discurso artístico e, ainda, as implicações políticas e formais da relação que essas produções estabelecem com o campo literário e com o mundo social.
Seguindo essa trilha e sem abandonar a memória e o espaço como operadores analíticos, é que se pretende aprofundar o estudo dessas relações. Antes, porém, é preciso situar Becos da memória – segundo romance da autora, escrito em 1980 e publicado em 2006 – na premiada produção31 de Conceição Evaristo e abordar aspectos de sua trajetória determinantes para a constituição de uma autora cujo trabalho, ao ressignificar a produção literária brasileira, exige repensar também a configuração do campo literário. Em texto intitulado “Conceição Evaristo por Conceição Evaristo” (2009), publicado no Literafro: o portal da literatura afro-brasileira, é possível conhecer parte dessa trajetória.
Nascida em 1946, em uma família numerosa, Conceição Evaristo, ainda criança, foi morar com a tia Maria Filomena da Silva, uma lavadeira, e com Antonio João da Silva, o Tio Totó, um pedreiro. Como não tiveram filhos, estes acolheram Conceição para que a “mãe tivesse uma boca a menos para alimentar”, o que permitiu que ela tivesse acesso aos estudos e a possibilidade de seguir caminho distinto de tantas mulheres negras oriundas das classes populares. A esse respeito, a autora relata o seguinte.
Mãe lavadeira, tia lavadeira e ainda eficientes em todos os ramos dos serviços domésticos. Cozinhar, arrumar, passar, cuidar de crianças. Também eu, desde menina, aprendi a arte de cuidar do corpo do outro. Aos oito anos surgiu meu primeiro emprego doméstico e, ao longo do tempo, outros foram acontecendo.
Minha passagem pelas casas das patroas foi alternada por outras atividades, como levar crianças vizinhas para escola, já que eu levava os meus irmãos. O mesmo acontecia com os deveres de casa. Ao assistir os meninos de minha casa, eu estendia essa assistência às crianças da favela, o que me rendia também uns trocadinhos.
Além disso, participava com minha mãe e tia, da lavagem, do apanhar e do entregar trouxas de roupas nas casas das patroas. Troquei também horas de tarefas domésticas nas casas de professores, por aulas particulares, por maior atenção na escola e principalmente pela possibilidade de ganhar livros, sempre didáticos, para mim, para minhas irmãs e irmãos (EVARISTO, 2009, p. 1).
Produzido numa interface entre literatura e mundo social e fundamentado em base autobiográfica, Becos da memória exige em sua análise a percepção de como mecanismos de exclusão incidem de maneira interseccional, a partir dos recortes de raça, gênero, classe e território, ampliando as barreiras a serem superadas por mulheres negras. A partir dessa percepção é que se pode compreender os processos de subjetivação da obra e as reflexões que
31 As obras da autora são Ponciá Vicêncio (2017), Poemas da recordação e outros movimentos (2017), Insubmissas lágrimas de mulheres (2016), Olhos d'água (2014), Histórias de leves enganos e parecenças (2017) e Canção para ninar menino grande (2018). Além disso, a escritora participou de inúmeras publicações dos Cadernos Negros e tem vasta produção ensaística. Conceição Evaristo recebeu diversos prêmios, entre eles o prêmio Jabuti de Literatura em 2015 e o prêmio de Literatura do Governo do Estado de Minas Gerais em 2017.
dela decorrem para, então, estabelecer formas conflituosas de ressignificar e transformar a realidade.
Sendo assim, existe a necessidade de se revisitar a trajetória de Conceição Evaristo em busca de desnaturalizar o espaço social reservado a mulheres negras periféricas e entender como elas, com base nessas experiências, produzem literatura e interferem na configuração do campo literário. A autora avança em seu depoimento, abordando uma questão primordial: a relação entre escrita e experiências de subalternidade.
Conseguir algum dinheiro com os restos dos ricos, lixos depositados nos latões sobre os muros ou nas calçadas, foi um modo de sobrevivência também experimentado por nós. E no final da década de 60, quando o diário de Carolina Maria de Jesus, lançado em 58, rapidamente ressurgiu, causando comoção aos leitores das classes abastadas brasileiras, nós nos sentíamos como personagens dos relatos da autora. Como Carolina Maria de Jesus, nas ruas da cidade de São Paulo, nós conhecíamos nas de Belo Horizonte, não só o cheiro e o sabor do lixo, mais ainda, o prazer do rendimento que as sobras dos ricos podiam nos ofertar. Carentes de coisas básicas para o dia a dia, os excedentes de uns, quase sempre construídos sobre a miséria de outros, voltavam humilhantemente para as nossas mãos. Restos.
Minha mãe leu e se identificou tanto com o Quarto de Despejo, de Carolina, que igualmente escreveu um diário, anos mais tarde. Guardo comigo esses escritos e tenho como provar em alguma pesquisa futura que a favelada do Canindé criou uma tradição literária. Outra favelada de Belo Horizonte seguiu o caminho de uma escrita inaugurada por Carolina e escreveu também sob a forma de diário, a miséria do cotidiano enfrentada por ela (EVARISTO, 2009, p. 1).
Becos da memória surge dessa tradição literária, capaz de, a partir de um entrecruzamento temporal, mediado pela memória e profundamente influenciado pelo espaço, criar identificação entre os que reivindicam representatividade. Por tal motivo é que essa tradição deve também ser lida em constante tensão com a literatura canônica de matriz europeia e seus modelos de análise crítica, uma vez que, para além do amplo debate a respeito da necessidade de se estabelecerem campos específicos na literatura brasileira, é preciso considerar a questão da especificidade de uma produção que, em diálogo com o vivido, foi por muito tempo ignorada da vida cultural.
Eduardo de Assis Duarte, no artigo “Literatura afro-brasileira: um conceito em construção” (2008), debate essa questão, demonstrando a existência, a diversidade, a multiplicidade e a importância da literatura afro-brasileira para a constituição do povo brasileiro e destacando as constantes discursivas utilizadas em sua configuração: a “temática”, a “autoria”, o “ponto de vista”, a “linguagem” e a formação de um “público leitor afrodescendente”. Para o estudioso, há uma relação de complementariedade e interação entre esses critérios, para que se realize o projeto estético dessas produções que surgem nos vazios deixados por uma literatura pautada em pressupostos tão elitistas como é a brasileira. O artigo, apoiado nas reflexões de Edimilson de Almeida Pereira, aponta ainda “o risco dos
critérios étnico e temático funcionarem até como ‘censura prévia’ aos autores negros e não-negros” (DUARTE, 2008, p. 12), do qual decorrem as acusações que reduzem essa literatura a um fim panfletário, a documentos de época ou retratos locais, por exemplo, e que tendem a negar a literariedade do discurso artístico dessas produções32.
Em diálogo com as ideias apresentadas por Eduardo de Assis Duarte, é oportuno aqui retomar a perspectiva de literatura que fundamenta esta pesquisa – as literaturas de periferias –, compreendida como o conjunto das obras, escritas ou faladas, em conexão com diferentes regimes de representação, produzidas por quem ocupa ou se constituiu identitariamente nas margens – sejam elas sociais, econômicas, geográficas – de diferentes formas de centralidade.
Dessa forma, apresenta-se como um produto da profunda conexão com o espaço, com o real e com as vivências, capaz de, pela mediação da palavra, transformar o que está na ordem do dia em expressões de arte.
Assim é que, apesar da correlação com a literatura afro-brasileira, já que ambas são formas artísticas populares, as literaturas de periferias exigem, na formulação dos critérios que identificam o seu projeto, diferentemente do que afirma Duarte em seu artigo, a influência de “fatores extra-literários” (DUARTE, 2008, p. 12). Isso porque é justamente a partir da relação com o espaço que sujeitos originários das periferias produzem arte e epistemologias pensadas desse lugar específico, o que inclui um modo de ser, de estar, de se comunicar e de interagir com o mundo, motivo pelo qual o “pertencimento territorial” é um dado central das literaturas de periferias.
É oportuno esclarecer também que não se trata de superar conceitos ou adjetivações que o termo “literatura” possa receber, mas sim de entender que a formulação de cada um deles considera diferentes perspectivas. Assim, ao assumir qualquer conceituação, o trabalho crítico pode alargar ou restringir o referencial de escritores/escritoras e/ou apontar as especificidades estéticas das produções. Por isso, mais que pensar a nomenclatura, é necessário entender o sentido que elas denotam. Neste caso, tal como é aqui compreendida, a ideia de “literaturas de periferias” abarca a literatura afro-brasileira, razão pela qual a própria obra Becos da memória, parte integrante do corpus desta pesquisa, e sua autora, Conceição Evaristo, referência em termos de literatura afro-brasileira, são tomadas como expressão de literatura de periferias sem que se identifique nesse entendimento uma contradição. Pelo contrário, trata-se de uma compreensão impulsionada pela consciência de que essas obras nascem de experiências territorializadas de corpos inscritos em gênero e raça.
32 Este aspecto será retomado no capítulo 4 para pensar, a partir do corpus deste estudo, as relações entre literatura, documento e arquivo.
A produtividade teórica dessa discussão está no esforço de perceber que há uma linhagem de escritoras e escritores que possuem a periferia como referencial33. Como aponta Conceição Evaristo, a primeira delas foi Carolina Maria de Jesus, que, com o livro Quarto de despejo, publicada em 1960, oferece uma obra que pode ser lida como contraponto ao projeto modernizador que a inauguração de Brasília dizia representar, escrito por quem sofreu cotidianamente as consequências dos efeitos desse projeto para a população pobre e questionou constantemente fronteiras, tanto identitárias como territoriais.
E, apesar de os períodos de retrocesso democrático, como a ditadura militar e os atuais ataques às instituições brasileiras, significarem também tempos de menor abertura a discursos contra-hegemônicos, muitos nomes colocaram no centro das narrativas a agência periférica, não apenas escrevendo desse lugar, mas também sistematizando conhecimentos que permitam interpretar o mundo a partir dele. Assim, ao mesmo tempo, criar um repertório que possibilite modelos vigentes – acadêmicos, formais, editoriais, educacionais –, responsáveis pela promoção do apagamento de que é vítima a população negra e periférica.
Uma virada como essa, ao desvelar uma nova realidade, promove profundas intervenções nas dinâmicas de poder e no campo literário. Isso porque pensar o projeto de formação nacional, a partir da relação periferia-centro, problematiza o apagamento da racialidade promovido por esse projeto e estabelece um cruzamento de temporalidades que analisa as origens históricas de problemas do presente imediato, no qual desigualdades são constantemente criadas e recriadas. Essa é também uma operação de confronto a um cânone literário construído a partir de uma versão única da história, proposta por um sujeito tido como universal, representado pela figura de um homem, branco, cis-heterossexual e cristão, constructo que limita campos de atuação para população negra periférica, à qual, em geral, são atribuídos papéis sociais subalternos.
Romper esse modelo exige disputar uma narrativa que autorize, por exemplo, essa parcela da população a participar do campo literário, como leitoras/leitores e/ou escritoras/escritores e, ainda, travar uma luta por permanência nele, uma atitude que, por ser política, estética e também ética, do ponto de vista simbólico, pode ser comparada à luta por permanência na cidade. Daí a necessidade de se pensarem as literaturas de periferias levando em consideração o dado constante do “pertencimento territorial”, entendido não como uma
33 A respeito de escritoras e escritores pertencentes a classes populares que escrevem na/da periferia, ver os estudos de Mário Medeiros, A descoberta do insólito: Literatura Negra e Literatura Periférica no Brasil (1960-2000) e o de Gabriela Leandro Pereira, Corpo, discurso e território: cidade em disputa nas dobras da narrativa de Carolina Maria de Jesus.
espécie de apologia da pobreza ou da precariedade, mas sim como a possibilidade de artistas, conscientes da complexidade das relações espaciais, participarem da constituição identitária da periferia e de seus habitantes, contando a história a partir da própria perspectiva.
Com isso, no cenário em que diferentes formas de representação, como os meios de comunicação de massa e as produções artísticas, são ainda tolerantes com a opressão e a subjugação que submetem a população negra e periférica a regimes de sub-representação, as literaturas de periferias movimentam diferentes imaginários sociais, operação que, juntamente com a urgente reconfiguração do espaço público, é essencial para a construção de um estado verdadeiramente democrático. Assim, o pertencimento territorial se constitui como dado central para que artistas construam um contradiscurso literário. Em Becos da memória, isso se materializa na expressão de diferentes formas de conciliação, no enfrentamento de dificuldades, na solidariedade, na vida em comunidade e na valorização simbólica de um grupo, de suas memórias e do espaço que ele habita, desenvolvendo e partilhando linguagens e códigos próprios. É justamente a construção desse contradiscurso e os dissensos que ele projeta que este estudo pretende aprofundar.