ANEXO I CARTAS DA IRMÃ DE CARIDADE DE CABAÇEIRAS
CAPÍTULO 3 ENTRE IRMÃS DE CARIDADE E BEATAS: A MARIOLOGIA
3.4 MARIA COMO MODELO DE SANTIDADE NA REPRESENTAÇÃO
O teatro foi um dos meios mais eficazes de se atingir pedagogicamente as ór- fãs das Casas de Caridade. Elas aprendiam a representar. As peças eram pequenas estórias escritas por Pe. Ibiapina e tinham a função de educar moral e religiosamen- te não apenas as órfãs, como também toda a comunidade onde se localizavam as casas de caridade ou ainda por onde passavam as Missões (BANDEIRA, 2003). Po- de-se aqui mencionar diversas peças teatrais criadas por Pe. Ibiapina. Porém, uma delas certamente merece destaque especial por trazer Maria como exemplo de vida, vindo a confirmar novamente a tese de que, de fato, a Mariologia Clássica contribuiu primordialmente para que essa mentalidade fosse difundida pelo sacerdote.
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Essas peças teatrais guardavam muitos simbolismos e copiavam as rela- ções de hierarquia e de poder comuns da sociedade patriarcal, para multi- plica-las, além de insistir no papel fundamental da mulher como reprodutora da vida e guardiã dos valores morais, protegida no âmbito doméstico, onde os conflitos do mundo do público não penetravam e resguardada pelo seu senhor, que devia amar como quem roga salvação (BANDEIRA, 2003, p. 110).
É valido ressaltar, todavia, que as demais documentações também demons- tram que Maria é, na ótica do Pe. Ibiapina, exemplo para essas mulheres a partir de um discurso subliminar226.
A peça criada por Pe. Ibiapina que se volta para Maria como modelo de mu- lher é aquela cujo foco é o pecado original. Essa peça é composta por uma mãe chamada Raimunda e suas quatro filhas, revelando um contexto familiar e a presen- ça das crianças. Certamente, o fato de se construir uma peça com crianças serviu para que houvesse uma identificação das órfãs com as personagens. Vale destacar que as próprias órfãs interpretavam as peças nas suas instituições e que há uma mensagem subliminar por parte de cada peça.
A peça teatral tem início com uma reflexão de Raimunda em meio a um novo ano, lamentando-se pelos pecados cometidos no ano anterior. Assim, segue-se a lamentação de suas três primeiras filhas que mencionam a luta contra o pecado, as seduções do mundo e suas vaidades. Ao final, a mãe lamenta que, na sua mocida- de, não teve um direcionamento espiritual e segue-se uma menção ao exemplo de Maria como guia espiritual. Por fim, a criança mais nova afirma que só faz as ativi- dades por obediência à sua mãe, mas que seu desejo mesmo era o de brincar, ao invés de trabalhar, e que, sempre que possível, aproveitava para brincar de bone- cas. A narrativa é encerrada com cânticos de vivas a Jesus e a Maria.
Essa peça revela como Pe. Ibiapina pensou no efeito educativo que ela teria para órfãs e mulheres. O arrependimento dos pecados é certamente o tema mais forte. A luta contra as seduções do mundo e os elementos dualistas dos cristãos ca- tólicos, vistos constantemente nas Máximas Morais, também aparecem nas repre- sentações teatrais, consolidando a ideia gadameriana de que cada peça teatral é capaz de tornar presente aquilo que é representado. Logo, a partir de cada repre- sentação teatral, aquilo que é narrativa bíblica adquire um novo sentido para as ou-
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É justamente o caso das demais peças catalogadas por Comblin (1984), no livro Instruções Espirituais do Pe. Ibiapina, mas que não serão aqui mencionadas por enquanto.
vintes das Casas de Caridade, visto que, em uma ótica gadameriana, essas ressig- nificações se dão a partir de um processo histórico e cultural.
Ao afirmar, por exemplo, que a mãe das jovens lamenta pela falta de um dire- cionamento espiritual, imagina-se que o sacerdote quis reforçar o seu papel no seio das instituições e passar essa mensagem para as Irmãs de Caridade, a fim de que elas estivessem felizes por tê-lo como líder.
É perceptível nessa peça o papel de Maria como guia espiritual, pois, tal como no Regulamento Interno, ela aparece como modelo de mulher. Na época, a ausência de pecado era reforçada pelo dogma da Imaculada Conceição, que via, em Maria, dentre outras coisas, a ausência de qualquer mácula.
No entanto, a sua mensagem não cessa por aí, já que, pensando nas órfãs, a penúltima fala é de uma criança que trabalha por obrigação, mas que, quando tem oportunidade, brinca de bonecas. Assim, o interesse de Pe. Ibiapina em ressaltar em sua peça tal fala provavelmente pelo seu desejo de fazer com que as crianças, mesmo com essa vontade de brincar, fossem obedientes à sua instituição.
O encerramento da peça se dá com vivas a Jesus e a Maria, o que demonstra a alegria das crianças e da mãe em seguir os ensinamentos de Jesus e o exemplo de vida de Maria. No caso das suas instituições, supõe-se que o desejo de Pe. Ibia- pina era que as Irmãs de Caridade e as órfãs estivessem alegres por pertencerem às suas instituições, seguindo a vontade de Deus.
Enfim, encerrando-se esta breve menção a uma das peças de Pe. Ibiapina, constata-se que ela contribuiu para a compreensão de que a Mariologia Clássica cumpria um papel de destaque na vida daquela Irmãs de Caridade e das órfãs. Essa mensagem não era apenas subliminar, já que, em vários momentos Pe. Ibiapina afirmava categoricamente que as Irmãs de Caridade e as órfãs precisavam ter Maria como exemplo de vida. Apesar de esse ser um meio educativo bastante rico e perti- nente, percebe-se que há momentos em que o Pe. Ibiapina sentiu a necessidade de um contato mais direto com as Irmãs de Caridade e, portanto, passou a escrever cartas para cada uma delas, aconselhando-as em suas atividades e ditando regras de uma forma mais direta e objetiva.
3.5 ENTRE CARTAS E CRÔNICAS: RELAÇÕES SOCIAIS DE GÊNERO NAS