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Maria Cristina Gobbi

No documento PORTCOM (páginas 41-49)

UNESP – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”

“Na medida em que se institucionaliza um novo campo do saber, torna-se imprescindível oferecer às novas gerações um quadro histórico que estimule a acumulação orgânica de expe- riências, evitando-se a repetição de etapas já percorridas, mas que escapam muitas vezes à percepção dos pesquisadores neó- fitos. Neste sentido é que o resgate da memória adquire papel importante na consolidação de uma comunidade acadêmica2”.

(MARQUES DE MELO, 2010)

1. Livre-docente em História da Comunicação e da Cultura Midiática na América Latina pela UNESP (Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”), Pós-doutora em Integração Latino-Americana pelo PROLAM-USP (Programa de Pós-Graduação em In- tegração da América Latina da Universidade de São Paulo), Vice-Coordenadora do PPG- TVD (Programa de Pós-Graduação em Televisão Digital), Professora do Departamento de Comunicação e do PPGCom (Programa de Pós-Graduação em Comunicação) da FAAC (Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação) da Unesp, Campus Bauru.

As palavras do professor José Marques de Melo, na epígrafe acima reproduzida, denotam a significação do projeto 50 anos das Ciências da Comunicação no Brasil:

a contribuição de São Paulo, realizado de agosto a outubro de 2013, em São Paulo.

Um grupo de instituições socialmente legitimadas, conjuntamente com grupo aguerrido de pesquisadores de diversas universidades brasileiras, sob a coordenação geral dos professores José Marques de Melo e Carlos Eduardo Lins da Silva, iniciaram em agosto uma série de encontros, que ocorriam sempre às sextas-feiras. Primeiramente na Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e depois na ECA-USP, (Escola de Comunicações e Artes – Universidade de São Paulo) a atividade foi um convite para a reflexão sobre 100 (cem) obras representativas do campo comunicacional brasileiro.

O desafio proposto aos convidados foi o de fazer uma ‘releitura’ das contri- buições de diversos autores (pesquisadores), quer da Sociologia, Filosofia, His- tória, Antropologia, Divulgação Científica, Folclore, Comunicação, entre tantos outros, revisitando o pensamento original que fundamenta as múltiplas temáti- cas abarcadas pelos estudos em Comunicação na atualidade.

As evidências apontaram a existência de um campo antagônico, que sobrevive daquilo que Sonntag (1988) definiu como “crise”. Mas essa crise deve ser entendida no sentido do reexame, da renovação, da construção de novos modelos, da revisita a modelos e instrumentos teórico-conceituais consolidados, com a finalidade de contri- buir para “autorreflexión necesaria y evitar que se caiga en esquematismos estériles3”.

Os resultados apresentados pelos convidados das diversas universidades indicam que a pesquisa em Comunicação no Brasil é um conjunto de contribuições e de aproximações muito interessantes e importantes, que paga tributo a fontes e a mode- los oriundos das diversas ciências (Sociais, Sociais aplicadas, Humanas, Exatas), permi- tindo ao campo Comunicacional a anexação de ferramental teórico-metodológico originário de outras áreas do conhecimento, como da Linguística, Teoria Literária, Musicologia, Semiótica, Antropologia Cultural, Psicanálise, Psicologia Social, Folclo- re, Ciências Sociais e Humanas, entre muitas outras, que se constituem em fontes substanciosas para a densidade das análises realizadas na área da Comunicação.

Igualmente, os pesquisadores participantes oferecem análises bibliográficas compiladas, o exame e o reexame de certas atitudes, definições e críticas pro-

3. SONNTAG, Heinz R. Duda, certeza, crisis. La evolución de las ciencias sociales de América Latina. Caracas: Nueva Sociedad, 1988.

duzidas por intelectuais, pesquisadores e especialistas em mass media e cultura popular de nossa região, nos últimos 50 anos, permitindo o conhecimento de aportes teóricos e epistemológicos capazes de demonstrar a experiência cientí- fica relevante que é desenvolvida nos estudos em Comunicação.

Mas é fundamental assinalar que o campo que desejamos recortar, co- nhecer e entender através da releitura dos 100 volumes, não é certamente simples em nenhum aspecto. Também não queremos simplificá-lo, princi- palmente se isso significar reduzir sua amplitude e dimensão.

Um dos grandes desafios para compreender o cenário comunicativo brasi- leiro, no âmbito das contribuições acadêmicas, é conhecer e reconhecer os te- mas que cotidianamente provocam pesquisadores, das mais variadas localidades e linhas de investigação. Por ser a área comunicativa ampla, as diversas pesquisas relatadas nas obras que foram escolhidas para compor esse cenário dos 50 anos das Ciências da Comunicação, disponíveis nos três volumes apresentados, refle- tem o entrecruzamento dos saberes, definem elos entre os aspectos culturais e sociais, evidenciados nas práticas profissionais, de consumo, nas narrativas, nas políticas da comunicação e da informação, revelando interfaces históricas, poé- ticas, estéticas, educativas e as transformações comunicacionais enfrentadas pela comunidade, quer política, econômica, social e/ou midiática. Seja através de grupos disciplinares específicos, como cinema, jornalismo impresso, audiovi- sual, ou ampliados, como meios, estratégias, processos, métodos, metodologias e mediações, capazes de conhecer e reconhecer os impactos socioculturais da comunicação e as atuais demandas da sociedade tecnológica digital.

Todo esse cenário traz indícios claros e precisos de que a configuração do campo da Comunicação se descortina como uma possibilidade real de estabe- lecer-se como uma especialidade, cuja institucionalização e profissionalização avançam em termos de legitimação acadêmica, tanto científica como social.

Cabe ressaltar que o processo de legitimação e identidade acadêmica deste campo está diretamente relacionada com a formação de profissionais competentes para a prática científica, além da efetiva participação desses atores sociais nos cenários acadêmicos, buscando equilíbrio entre a teoria e a prática profissional. A assimilação de conteúdos, o aprendizado das meto- dologias indispensáveis a produção e a difusão científica, a compreensão das teorias relativas aos efeitos sociais e culturais da mídia e de seus sistemas de produção, faz com que o perfil profissionalizante dos cursos de comunicação resulte em estágios, intercâmbios e financiamento de pesquisas, importantes para a difusão e consolidação do campo da Comunicação social.

Os resultados apresentados nos encontros ocorridos na cidade de São Paulo oferecem a possibilidade de descrever e diagnosticar a produção do conhecimento comunicativo acumulado, analisando o desenvolvimento, no último meio século, dos setores midiáticos; desenhar o panorama da indústria nacional de informação e comunicação; analisar, mensurar e descrever os setores das profissões legitimadas e das ocupações emergentes no campo, conhecer estudos sobre temas que con- tribuíram (contribuem) de forma significativa para o fortalecimento da comuni- cação, além de traçar as contribuições de 50 anos de estudos na área. Todo esse amplo escopo possibilitou a reflexão teórica baseada na construção coletiva prá- tica do conhecimento, fundamentais para o avanço da Ciência da Comunicação. Falar do cenário da comunicação é admitir que se trata de uma área que tem vivido constantemente sob a guarda da transição, mas é sobretudo entender diferenças, administrar valores, respeitar a diversidade, sobreviver na pluralidade de opiniões sem perder a perspectiva de que singularidades se apresentam como pontos de confluência entre os saberes, formando o grande campo da Comu- nicação. Tratar de Comunicação é administrar a amplitude das possibilidades, é enxergar a polaridade, mas é delimitar fronteiras, entender o cenário e os atores que nele encenam diariamente seus cotidianos.

O professor Marques de Melo4 garante que precisamos redimensionar o

trabalho científico, “[...] aprofundando a interpretação dos fenômenos já co- nhecidos; observar sistematicamente os novos fenômenos, dando-lhes registro crítico-descritivo e cambiar as análises de fenômenos globais com os casos es- pecíficos”, dessa maneira será possível o desenvolvimento de pesquisas calcadas nas próprias necessidades e realidades do país, do campo e da área, considerando sempre os estímulos externos, mas não os priorizando.

É fundamental que a pesquisa em Comunicação possa auxiliar nas transfor- mações sociais, acumulando informações que realmente mostrem o cotidiano, ajudando a construir novos modelos de produção e distribuição das riquezas de criação e reprodução da cultura do país.

Deste modo, em 2013 o Brasil completou meio século de reconhecimento da Comunicação como área do saber acadêmico. Essa trajetória tem como mar- co referencial a fundação do primeiro núcleo de estudos sistemáticos dos fenô-

4. MARQUES DE MELO, José. Teoria da comunicação: paradigmas latino-america- nos. Petrópolis: Vozes, 1998.

menos de produção e difusão simbólica no país. O ICINFORM (Instituto de Ciências da Informação), criado por Luiz Beltrão, na Universidade Católica de Pernambuco, no ano de 1963. Emulados pelo ICINFORM, ou nele inspirados, vão se criando outros centros de pesquisa em comunicação nas universidades brasileiras que desenvolvem atividades de ensino e pesquisa na área. É ainda nesse contexto que os primitivos cursos de jornalismo, publicidade e cinema vão dar lugar às faculdades de comunicação, onde se organizam programas in- tegrados de graduação, pesquisa e pós-graduação.

Transcorridos 50 anos, torna-se indispensável fazer um balanço crítico das conquistas e das carências para lograr saltos qualitativos, aplainando o caminho para as novas gerações. Ao mesmo tempo é necessário fortalecer e revitalizar os ícones que servem de estímulo aos jovens pesquisadores. E isso foi realizado no conjunto de todos os encontros ocorridos.

Os resultados podem ser conhecidos através da leitura dos livros “Ciências da Comunicação no Brasil. 50 anos: Histórias para contar”, Volume I – “São Paulo: Vanguarda do Pensamento Brasileiro”; Volume II – “Século XX: Pragma- tismo Utópico” e Volume III – “Século XXI: Empirismo Crítico”.

Mais do que a importância de documentar para a história, os livros permi- tem o acesso a um repertório denso e atual, que certamente possibilitará outros entendimentos sobre o campo comunicacional brasileiro.

No documento PORTCOM (páginas 41-49)