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3.2 As Mulheres Falam

3.2.3 Maria: Quando a Mulher é Chefe da Boca

Maria, 45 anos, mãe de 4 filhos, estudou até a sexta série e foi presa a primeira vez aos 11 anos numa instituição de menores. A partir daí foram incontáveis as vezes em que foi parar em unidades correcionais, sempre por pequenos furtos. Depois dos 18 anos, foi presa três vezes: uma por furto, outra por roubo a banco e, a última, por associação ao tráfico de drogas, condenação pela qual cumpre regime aberto agora121.

Nascida e criada numa favela do Rio de Janeiro, Maria é exceção em meio a diversas histórias de participações subalternas de mulheres nas redes do tráfico. Além de                                                                                                                

 121 Maria tem em sua vida diversos episódios de reincidência criminal. Sua história se parece com a maioria dos egressos do sistema prisional brasileiro, que segundo o CNJ(2011) chega a 70%.

comandar uma boca de fumo numa comunidade famosa, ficou conhecida como uma mulher valente, sem medo de assumir atividades de risco.

Para explicar como chegou a chefia de um morro, Maria voltou ao momento em que saiu da cadeia pela segunda vez, quando pagou pelo assalto ao banco. Disse que aquele momento foi de extremo desespero e que ao ouvir da mãe que não queria “bandida aposentada” em casa, logo aceitou um convite feito por um conhecido de infância para gerenciar uma boca de fumo. Com o tempo, foi crescendo e ganhando o respeito não só das pessoas que com ela trabalhavam, mas também dos moradores da comunidade. Atribui o sucesso ao fato de “lidar bem com o público” e de ter uma “boa capacidade de liderança”. Maria é conhecida por sua coragem e carrega um apelido que indica toda esta força.

Diz que o tráfico foi apenas uma das opções ilegais que apareceram na sua vida e ressaltou que chegar à liderança foi algo natural, quase sem perceber. Tudo aconteceu naturalmente:

Eu não consigo chegar a um denominador que possa me mostrar aonde e por que me levou a esse status sem eu ter procurado. Sabe quando você não procura?

Vai acontecendo, acontecendo, acontecendo, e você nem percebe.

Tem pessoas que nascem com posição pra liderar e eu sou uma dessas pessoas. Eu nasci para liderar. Se você me pega e me bota numa empresa. Você vai ser a chefe da empresa, mas você vai fazer perguntas pra mim. Você entendeu como que é? Foi assim comigo no tráfico.

A possibilidade de “mandar” em outras pessoas, de chefiar a atividade e de experimentar toda a visibilidade que alguém que é dona da boca pode ter, esteve muito presente no relato de Maria. Ela diz que “já que podia mandar, mandava em tudo” e que nunca experimentou sensação melhor.

Como parte de um grupo socialmente marginalizado, Maria percebeu no tráfico de drogas uma possibilidade de sair da invisibilidade social que caracteriza a vida das mulheres pobres nas periferias das cidades. Principalmente por ser uma atividade reconhecidamente masculina, o tráfico possibilita um sentimento de pertença e inserção a um determinado grupo122. Sales (2007) vai chamar esta visibilidade de “perversa”, pois é estabelecida por meio da violência, da prática infracional e da ostentação de armas e

                                                                                                               

 122 Diversos estudos apontam o tráfico de drogas como estratégia de fuga da invisibilidade social. Neste sentido: Cruz Neto( et. al, 2001), Soares (2005), Zaluar (2004).

produtos ilícitos. A violência por qual se submetem é um caminho para adquirir visibilidade, mesmo que ela venha carregada de sentimentos e conotações negativas.

A inserção a estes grupos criminosos faz com que aquele que é violentado pela sociedade, que não reconhece suas necessidades de proteção ou de consumo, passem a violentar, reforçando o estigma de “pobre e criminoso”, geralmente a eles atrelados. Este sentimento temporário de pertencimento acaba por reforçar o estigma social e justificar a exclusão e a invisibilidade a que são destinadas estas pessoas. O processo de prisionização a que são submetidos depois, é apenas uma das fases de todo este ciclo (Barcinski, 2012:

53).

No caso de Maria, a questão da visibilidade ganha contornos diferentes, já que ela adentrou uma esfera pouco conhecida pelas mulheres em geral. Quando perguntamos se ela conhecia outra mulher nesta situação – de dona da boca - ela disse que sabia de apenas uma, e se referiu a ela como “masculinizada”: “Diferente de mim, ela é sapatão, bem homenzinho mesmo. Assim feminina, só eu.”

Diante de uma perspectiva de gênero, o poder adquirido por mulheres que se tornam traficantes reconhecidas ganha maior significado, pois a violência e a transgressão são vistas como prerrogativas masculinas, portanto, suas identidades são construídas através de uma tentativa de adquirir uma visibilidade reservada aos homens (Barcinski, 2012: 53).

A ideia de que ao desempenhar papéis violentos a mulher rompe com a expectativa social de gênero a ela atribuída esteve presente nas falas de Maria, que salientou a perplexidade inclusive de alguns homens em relação às suas ações. À mulher cabe o papel de vítima e não de perpetradora de violência. Neste sentido:

Lá todo mundo me respeitava. Eu nunca tive medo de nada, por isso logo virei a dona da boca. Sempre paguei pra ver. Quando fui presa pelo roubo no banco eu disse pro pessoal me levar, mas eles não queriam porque não tinha arma pra mim. Eu disse que ia arrumar, mas não arrumei. Falei com eles que tinha arrumado e fui assaltar junto. Entrei na mão, sem arma, mas falei que tava armada. Na saída, tava com duas arma dos policial lá de dentro. Geral ficou sem entender.

Maria demonstra orgulho de sua trajetória atípica, apesar de afirmar que preferia uma vida diferente. Diz jamais ter temido participar de atividades perigosas, como troca de tiros com policiais ou facções rivais. Afirma que já atirou em pessoas, mas pelo que sabe, nunca feriu ninguém. Foi pega numa escuta telefônica que, segundo ela, “foi coisa de X9”.

Na cadeia, perdeu o “domínio do morro” e, para se sustentar e mandar dinheiro para os filhos, trabalhou numa fábrica dentro do presídio. Afirma que tudo aconteceu muito rápido: “em menos de três anos já era dona do morro”, mas que tudo acabou muito rápido também, bastando ser presa para que as lideranças mudassem.

Sua história rompe não só com estereótipos de gênero, mas com a ideia de que a mulher se insere no tráfico sempre sem intencionalidade ou protagonismo, de forma vitimizada por meio de homens criminosos. De tão excepcional, histórias como a de Maria devem ser contadas com o cuidado de não virarem “lendas” e partirem mais para o tom ficcional que real por conta de seu caráter transgressor e pouco usual.

Quando tendemos para este lado, somos trazidas de volta pelos relatos de violência e abandono sofridos por ela e por toda dor e violência que uma atividade ilícita pode representar na vida de uma mulher.

Abandono e violência familiar

A vida de Maria é marcada por relatos de violência e conflito familiar. Segundo ela, sua relação complicada com a mãe, que era alcoólatra, foi o pontapé inicial para que iniciasse algumas atividades ilegais como o furto de roupas e comida123:

Eu não tive mãe, minha mãe era alcoólatra, minha mãe me induziu ao crime, me induziu a roubar. Ela dizia: “você não presta, daqui a pouco tá roubando!” Aí fui roubar. A gente não tinha comida, não tinha roupa, não tinha carinho, não tinha nada. Eu sempre tive uma vida sofrida.

Como eu não podia chegar em casa com o que eu tinha roubado, eu vendia e comprava coisas pra casa, comprava roupa. E foi sendo assim durante a infância e a adolescência.

Com mais quatro irmãos, criada por uma mãe solteira numa comunidade pobre do Rio, Maria diz que saía de casa quando nova, por volta dos 11, 12 anos e passava dias na rua depois de brigas com a mãe. Lembra de alguns xingamentos como “vagabunda” e se emociona. Para ela, o fato de nunca ter tido alguém que conversasse e dissesse que o crime era um caminho difícil, sem volta, foi substancial para as escolhas que tomou.

                                                                                                               

 123 São bastante frequentes os relatos de presas sobre o abuso de álcool ou outras drogas por parte de familiares. Segundo Soares e Ilgenfritz (2002:108) no Rio de Janeiro, mais de 50% das mulheres, em 2000 relataram ter algum parente que bebia demais e 29% relataram que tinham parentes com “problemas com

“drogas”. O pai e a mãe são mencionados em primeiro lugar, 49% quando se trata de álcool e, em 4% dos casos quando se trata de drogas. Os irmãos são os primeiros mencionados quando se trata de álcool em 21%

dos casos e quando se trata de abuso de drogas são os primeiros mencionados em 60% dos casos.

Soares e Ilgenfritz (2002:108) observam que se existe alguma relação entre a prática de crimes e a vida familiar, ela está mais ligada à maneira e à forma como as filhas são tratadas do que com o fato de serem criadas por ambos os genitores. As autoras afirmam que os relatos de violência praticamente se confundem com a vida das mulheres que chegam à prisão. Do total de presas entrevistadas pelas pesquisadoras em 2000, no Rio de Janeiro, 95% já tinham sofrido algum tipo de violência, seja na infância, na adolescência, na vida conjugal ou nas mãos da polícia; 75% diz ter sofrido violência em duas destas situações e 35% em três destas situações. Um número bastante expressivo é o fato de 72% afirmar ter sofrido violência física, psicológica ou sexual na infância. Além disso, 31% das entrevistadas afirmaram ter um ou mais companheiros assassinados, 20%

disseram ter pelo menos um irmão morto por homicídio e 9,5 perderam o irmão e um ou mais companheiros por homicídios, o que revela que a vida destas mulheres está marcada por situações de violência com elas e com parentes próximos (Soares e Ilgenfritz, 2002:126).

A relação problemática entre criminalidade feminina e vitimização vem sendo abordada em diversas pesquisas. Nos EUA, por exemplo, quase metade das mulheres que adentram no sistema de justiça criminal já sofreram abuso físico ou sexual em algum momento de suas vidas. As mulheres encarceradas localizam suas experiências de violência mais na fase adulta pelo marido ou companheiro, enquanto os homens localizam estas experiências mais na fase da infância ou adolescência (Harlow,1999).124

Não se pode dizer que entre estas variáveis tão complexas – violência e criminalidade – exista uma relação de causa e feito, no entanto, o que se pode observar é um aspecto de continuidade entre a violência sofrida em casa (pelos pais ou pelo companheiro) e na cadeia, como se esta fosse apenas mais um faceta das múltiplas violências sofridas por estas mulheres ao longo da vida. O ciclo de violência que, como no caso de Maria, se inicia em casa, muitas vezes continua nas relações conjugais, desdobra-se pela ação da polícia e pela privação da liberdade nas penitenciárias e, às vezes, desdobra-se prolonga para a vida da egressa em liberdade.

É por isso que, como afirmamos anteriormente, a investigação sobre as mulheres criminalizadas pelo crime de tráfico, deve abordar as relações de poder que se configuram                                                                                                                

 124 Neste sentido, entre 23% e 37% das mulheres encarceradas nos EUA disseram ter sofrido violência sexual ou física antes dos 18 anos. Entre os homens, 10% deles afirma ter sofrido algum tipo de violência (física ou sexual) antes da prisão (Harlow,1999).

no seio familiar, de maneira que o controle informal sobre elas e não só o sistema penal, seja objeto direto de estudo. Estas relações de poder se inserem na prática dos crimes e revelam, de alguma forma, os processos de criminalização pelo quais uma mulher está sujeita.

3.3 Sobre Elas e Nós: Histórias Tristes, Marginalização e Estratégias de